Se em 2016 a eleição do estreante Donald Trump foi um rasgo para fugir do entorpecido “establishment” [poder estabelecido], nomear Biden é a tentativa dos Democratas para normalizar a vida política norte-americana. Sem ‘reality shows’ ou uma bagagem nas revistas cor de rosa, Biden vale-se dos quase 50 anos que leva disto.

Já por duas vezes Biden tinha tentado ser o escolhido do Partido Democrata para a corrida à Casa Branca — em 1988 e em 2008 —, mas só agora, depois de retirar do caminho nomes como Bernie Sanders ou Kamala Harris, o antigo senador do Delaware conseguiu ser a escolha de um partido que procura recuperar o poder.

Eleito em 1972 para o que iriam ser seis mandatos como senador pelo Delaware, Biden era, em 1974 o senador mais jovem dos Estados Unidos.

Agora, aos 77 ans, o ex-vice-presidente de Barack Obama defronta precisamente o sucessor de Obama: Donald Trump. Biden diz que estas eleições são "uma batalha pela alma da nação”. Serão, pelo menos, uma maneira de averiguar o valor do passado político para o futuro do país.

Porém, o tempo na vida política traz-lhe também uma espécie de "cadastro", onde se sucedem gafes e posições que foram evoluindo. Ainda assim, Biden ocupou sempre um lugar no centro moderado do partido Democrata, tendo sido essa a bandeira que desfraldou durante a campanha pela nomeação, em 2019.

Apesar disso, o veterano conseguiu o apoio da ala mais progressista do partido, e notoriamente de Bernie Sanders, que desistiu da nomeação em prol do ex-vice-presidente.

Oito anos de Casa Branca

Voltar à Casa Branca será para Joe Biden o regresso a um sítio onde já passou oito anos, durante a administração de Barack Obama. Nesse tempo, apareceu ao lado do presidente, o que agora lhe granjeia uma espécie de legado a seguir, após o mandato de Trump.

Desde as mudanças na legislação de saúde aos estímulos económicos, Biden pode agora evocar parte do mérito. Para além disso, a associação ao primeiro presidente afro-americano dos Estados Unidos da América pode também conquistar eleitores.

Na candidatura de Obama, o "Middle Class Joe" (Joe da Classe Média) foi chamado para ajudar a conquistar um grupo que se provava mais resistente a Barack, os "blue-collar" brancos, ou seja, trabalhadores das indústrias e serviços.

Este pode ter sido, até agora, o ponto alto das quase quatro décadas de política para Biden. Mas, pelo meio, o ex-vice-presidente não se livra de polémicas.

Logo em 1988, quando tentou correr à presidência, deixou cair a candidatura, admitindo ter plagiado um discurso do então líder do Partido Trabalhista britânico, Neil Kinnok.

No começo da carreira, Biden apoiou também os segregacionistas do sul dos Estados Unidos, que se opunham à integração racial das escolas públicas. E, como líder do Comité Judiciário do Senado, supervisionou as audições para a aprovação de Clarence Thomas no Supremo Tribunal, tendo sido duramente criticado pela forma como lidou com as alegações de que uma mulher teria sido sexualmente assediada pelo nomeado.

Mais: Joe Biden foi, em 1994, um grande defensor de uma lei de combate ao crime, que hoje muitos à esquerda dizem ter encorajado prisões em massa e sentenças longas.

Aos olhos do Partido Democrata de 2020, este passado é, por vezes, desconfortável, principalmente numa altura em que Biden tenta vestir o fato de moderado: nem é o candidato do conservadorismo exagerado, nem o do liberalismo incondicional.

As tragédias familiares e as dúvidas sobre a saúde

Nascido na Pensilvânia em 1942, no seio de uma família católica, Joe Biden adotou Delaware como sua casa quando se mudou para lá com a família em 1953.

Antes disso, um jovem Biden, formado em história e ciência política na Universidade de Delaware, e depois em direito na Universidade de Syracuse, tinha exercido advocacia durante três anos, apesar de já nessa altura a sua ambição fosse chegar à presidência.

Mas o seu percurso profissional foi afetado pela tragédia pessoal, quando a então sua mulher, Neilia Hunter, e a filha de um ano morreram num acidente de automóvel, apenas semanas após a eleição para o Senado. Os outros dois filhos, Beau e Hunter, ficaram feridos mas sobreviveram.

Cinco anos depois, Joe Biden casou com Jill Jacobs e o casal teve uma filha em 1981, o que permitiu ao político recuperar a estabilidade pessoal.

Reconstruir o passado

Durante o seu percurso no Senado, Biden tornou-se conhecido por usar os comboios Amtrak como meio de transporte até ao Capitólio.

Essa é uma das ideias centrais da candidatura de Biden, que voltou à política com "ideias corajosas", segundo a plataforma da sua campanha, não apenas para "reconstruir o que funcionou no passado" mas para aproveitar a oportunidade de "reconstruir melhor que nunca".

Da lista de propostas da sua campanha fazem parte a gratuidade dos testes para a covid-19, a legalização dos imigrantes "dreamers" (que concede residência temporária a imigrantes que tenham entrado nos EUA enquanto menores e que depois, se cumprirem determinadas requisitos, poderão ter residência permanente), as baixas remuneradas de parentalidade ou doença e o aumento do salário mínimo para 15 dólares à hora, mais do dobro dos atuais 7,25 dólares.

Defende ainda a extensão da cobertura dos serviços de saúde, o combate às alterações climáticas e o aumento, para 39,6%, do imposto cobrado aos cidadãos com mais rendimentos.

Condecorado em 2017 com a Medalha Presidencial da Liberdade, com Distinção, o maior grau de distinção civil, o candidato é responsável pela criação da Fundação Biden, o Centro Biden de Diplomacia da Universidade de Pensilvânia, a Iniciativa Biden para o Cancro e o Instituto Biden da Universidade de Delaware.

Várias destas iniciativas estão ligadas a outra tragédia pessoal, depois de o seu filho mais velho, Beau, ter morrido de cancro no cérebro em 2015, aos 45 anos. O próprio Biden sofreu dois aneurismas nos anos oitenta e teve de ser operado ao cérebro.

A idade vale o posto?

Se for eleito, Joe Biden assumirá a presidência dos Estados Unidos já depois de fazer 78 anos.

Devido à sua idade, questões em torno da longevidade e saúde de Joe Biden estão a ser levantadas na campanha, sobretudo pela oposição republicana.

Para contrariar estes ataques, o candidato democrata prometeu ser "totalmente transparente" quando à sua condição de saúde se for eleito.

Joe Biden não quer que ninguém se esqueça que já foi o número dois de Barack Obama. E é a essa continuidade que também apela. Mas se é verdade que a experiência pode ser um trunfo, também o é que a idade pode colocar em causa a longevidade da presidência. Porém, quando o adversário tem 74 anos, o argumento equilibra-se. É que vença quem vencer, em janeiro do próximo ano os Estados Unidos da América terão o presidente mais velho da sua história.

*Edição por Pedro Soares Botelho

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