Segundo o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, as sanções inscrevem-se no quadro de uma nova regra, batizada pelo Departamento de Estado como a “Lei Khashoggi”, que visa proibir a entrada nos Estados Unidos a qualquer pessoa acusada de atacar, em nome das autoridades do seu país, dissidentes ou jornalistas no estrangeiro.

As medidas foram anunciadas na sequência da publicação do relatório da inteligência dos EUA, que acusa o príncipe saudita Mohammed bin Salman de ter “validado” o assassínio de Khashoggi.

A identidade e as funções de todos os sauditas visados pela “primeira série de medidas” não foram reveladas, mas sabe-se que um antigo alto funcionário e uma unidade especial próxima do príncipe herdeiro são alvo de sanções económicas.

Trata-se de uma unidade de intervenção especial e do antigo “número dois” dos serviços secretos sauditas, Ahmed al-Assiri, “próximos” de Mohamed bin Salman, pelo papel desempenhado no assassínio de Khashoggi.

O general al-Assiri, um militar influente, foi indiciado, mas absolvido pela justiça saudita.

A justiça turca, por seu lado, acusa-o de ser um dos comanditários do assassínio de Khashoggi.

“Jamal Khashoggi pagou com a vida por expressar as suas opiniões”, afirmou Blinken, explicando que pretende “punir” os Estados que ameacem ou ataquem jornalistas ou alegados opositores fora das suas fronteiras “apenas porque exercem as suas liberdades fundamentais”.

“Dissemos muito claramente que as ameaças e ataques extraterritoriais da Arábia Saudita contra ativistas, dissidentes e jornalistas devem acabar. Não serão tolerados pelos Estados Unidos”, avisou Blinken.

Kashoggi, 59 anos, residente nos Estados Unidos e cronista do jornal The Washington Post, foi assassinado no consulado do seu país em Istambul (Turquia) por agentes sauditas.

O Senado norte-americano, que teve acesso às conclusões dos serviços de informações, considerou na altura que o príncipe herdeiro era “responsável” pelo assassínio.

Riade inicialmente negou qualquer responsabilidade, mas mais tarde disse que o jornalista foi morto acidentalmente por agentes que tentavam extraditá-lo.

A versão oficial da Arábia Saudita é que esses agentes, ligados a Mohammed bin Salman, agiram por conta própria e que o príncipe não esteve envolvido.

Oito pessoas foram condenadas na Arábia Saudita pela morte de Khashoggi, cinco das quais à pena capital. Mais tarde estas sentenças foram comutadas para 20 anos de prisão.

EUA acusam príncipe herdeiro saudita de ter “validado” assassínio

Os serviços secretos norte-americanos acusaram hoje o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohamed Bin Salman, de ter “validado” o assassínio do jornalista também saudita Jamal Khashoggi, em 2018.

“Chegamos à conclusão de que o príncipe herdeiro da Arábia Saudita validou uma operação em Istambul para capturar ou matar o jornalista saudita Jamal Khashoggi”, escreve a direção da Agência Central de Informação (CIA), num pequeno documento de quatro páginas hoje desclassificado.

“O príncipe herdeiro considerou Khashoggi como uma ameaça para o Reino e ​​​​​​​apoiou totalmente o uso de medidas violentas, se necessárias, para o silenciar”, acrescenta-se no documento.

A desclassificação do documento pode aumentar a pressão sobre a administração de Joe Biden para responsabilizar o reino por um assassínio que provocou grande indignação nos Estados Unidos e internacionalmente.

A conclusão central do relatório era amplamente esperada, visto que vários funcionários da CIA tinham chegado a esse entendimento logo após o brutal assassínio de Khashoggi, a 02 de outubro de 2018, um crítico da consolidação autoritária do poder do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman.

Ainda assim, como a descoberta não fora oficialmente divulgada até agora, a atribuição pública de responsabilidade representou uma repreensão extraordinária ao ambicioso príncipe herdeiro, de 35 anos.

Segundo a agência noticiosa Associated Press (AP), a divulgação pública do documento vai, “provavelmente, dar o tom” para o relacionamento da nova administração norte-americana com um país que Biden criticou, mas que a Casa Branca considera que, nalguns contextos”, constitui “um parceiro estratégico”.

A Casa Branca anunciou já que irá tomar “medidas”, mas sem adiantar quais.

Quinta-feira, a imprensa norte-americana deu eco ao relatório, então ainda não divulgado oficialmente, salientando que o documento tem por base sobretudo informações recolhidas pela CIA.

“A divulgação pública (do relatório) marcará um novo capítulo nas relações dos Estados Unidos com a Arábia Saudita e uma diferença clara entre a política do Presidente Joe Biden e a do ex-Presidente Donald Trump”, disse a emissora NBC, indicando ter tido acesso ao texto em 2018.

Na quarta-feira, a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, disse aos jornalistas que o “relatório desclassificado” seria divulgado em breve pela diretora nacional de informação, Avril Haines.

Na ocasião, a porta-voz indicou que o Presidente norte-americano devia falar em breve ao telefone com o rei Salman da Arábia Saudita, pai de Mohammed, conhecido por MBS e interlocutor privilegiado da diplomacia de Trump.

O telefonema acabaria por acontecer quinta-feira, desconhecendo-se o teor da conversa.

No entanto, Jen Psaki confirmou um dia antes a intenção de Biden em “recalibrar” a relação com Riade, de uma forma “diferente” da anterior administração norte-americana, algumas vezes acusada de ter fechado os olhos à questão dos direitos humanos em relação ao seu aliado próximo.

“Isto significa que não ficará em silêncio, dirá alto e bom som quando estiver preocupado com as violações dos direitos humanos e com a falta de liberdade de imprensa e de expressão”, adiantou.

A divulgação do relatório sobre Khashoggi pode ser o primeiro teste da “recalibragem”, segundo a agência France-Presse.

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