Todos os dias temos motivos para nos enfurecer. Seja porque perdemos o autocarro por apenas um segundo – e o motorista até nos viu, mas não abriu a porta – seja porque alguém nos disse qualquer coisa que nos afectou. Os motivos podem ser mais profundos ou simplesmente passageiros, mas sentir raiva é próprio da nossa condição humana. Todavia, mostrar raiva é menos próprio se se for do sexo feminino. Porquê? A American Psychological Association explica: porque para os homens a raiva reforça as expectativas que tradicionalmente existem sobre o género masculino, enquanto para as mulheres as baralha e perturba. Porque as raparigas são educadas, na sua maioria, para não mostrar raiva, entendida como algo de errado, desalinhado com a identidade feminina e inclusive passível de as tornar menos atraentes.

Soraya Chemaly escreve habitualmente sobre género, feminismo e cultura em meios como o Role Reboot e o The Huffington Post e é actualmente directora do Women’s Media Center Speech Project. Num artigo publicado a 9 de maio no Role Reboot, usou a analogia entre Trump, o eterno candidato enraivecido, e Hillary, a contida Sra. Clinton, para mostrar o quão diferente é, para homens e mulheres, mostrar publicamente raiva. Mesmo em cenários extremos como os das eleições americanas. “Muitas raparigas e mulheres entendem os riscos que assumem quando se zangam. Não importa se a raiva tem ou não razão de ser, mas mostrar-se zangada não as vai favorecer e pode mesmo prejudicar a percepção sobre a sua competência e empatia”, escreve.

A ideia de que não é bom mostrar raiva começa a ser ensinada desde cedo. Em família. Porque desde cedo, mesmo desde o nascimento, as expectativas de género fazem com que seja “normal” aos pais descreverem um filho rapaz como irritado ou zangado, enquanto às meninas fica reservado serem boazinhas e felizes. Ao que tudo indica, esta orientação acompanha-nos depois ao longo da vida. De acordo com outro estudo, divulgado em outubro de 2015, e que teve como “cobaias” 210 licenciados, a raiva feminina é menos persuasiva do que a masculina. O que também é uma forma de dizer que, quando uma mulher se enfurece é menos aceite do que um homem. A autora deste estudo, Jessica Salerno, professora assistente de psicologia na Arizona State University, apresenta algumas pistas para esta avaliação. “A raiva masculina é situacional. As pessoas acreditam que deve existir uma razão para que se manifeste. (…) A raiva feminina é atribuída a algo estrutural. As pessoas pensam que se trata de uma pessoal emocional e que poderá não estar a pensar claramente”.

Esta ideia é corroborada pelas autoras do livro “The Anger Advantage”. Debora Cox, Karin Bruckner e Sally Stabb descrevem como as raparigas são ensinadas, através de normas de educação, a suprimir comportamentos de fúria e zanga. Porque não “fica bem” a uma senhora falar alto ou ser “vulgar”. Muitas meninas-futuras-senhoras, provavelmente a maioria, interiorizam estas regras e vivem de acordo, mas para outras esta supressão tem custos pessoais elevados traduzidos em comportamentos passivos-agressivos, ansiedade e depressão. Também é provavelmente daqui que nasce aquele tipo de sarcasmo em que algumas mulheres se tornam verdadeiras mestres.

A maioria dos rapazes é, por seu lado, poupada pela própria família, e também pelos professores, a este ajustamento às regras sociais. Por um lado, porque se considera que os rapazes são menos capazes ou mesmo incapazes de se controlarem quando expostos a factores de stress, e também porque, socialmente, a eles não “lhes fica mal”, até é suposto.

Outro tema interessante são as razões que fazem zangar raparigas e mulheres. E que não são as mesmas dos homens. Para elas, trata-se sobretudo de sentimento de falta de poder, injustiça e a irresponsabilidade de outros.

A supressão continuada da raiva manifesta-se ao longo da vida de várias formas. Stress, tensão, ansiedade, depressão e excesso de nervosismo são algumas das mais habituais. Estima-se que 30% de todas as teenagers tenham distúrbios de ansiedade. Entre os 12 e os 15 anos, o número de raparigas com depressão é três vezes maior do que o dos rapazes (a taxa de depressões antes da puberdade é idêntica para meninas e meninos). Nos últimos quinze anos, a taxa de suicídio em raparigas entre os 10 e os 14 anos nos Estados Unidos também triplicou. A adolescência é o tempo da tempestade de hormonas e da afirmação da identidade – isto não é tudo raiva. Mas, o facto, é que as pressões sociais são maiores para as raparigas do que para os rapazes e elas estão a crescer mais deprimidas, um estado que se prolonga em muitas mulheres aos 20, 30 e 40 anos. Sentirem-se rejeitadas, sem poder e zangadas está, na opinião de vários medicos, na origem dos problemas psicológicos.

Num artigo publicado no Quartz, a autora, Caroline Siede, diz que encontrou alguma paz para a sua raiva quando lhe veio parar às mãos o livro de Louisa May Alcott, “Mulherzinhas”, e conheceu uma das personagens, Jo March, a filha mais rebelde. “É tudo por causa do meu horrível feitio. Parece que quando estou enfurecida posso fazer qualquer coisa. Fico tão selvagem, podia magoar qualquer pessoa e gostar disso. Tenho medo de fazer qualquer coisa de terrível um dia destes, e estragar a minha vida e fazer com que todos me odeiem”, diz Jo March numa passagem em que dialoga com a mãe. Marmee, a mãe, responde-lhe: “Eu zango-me praticamente todos os dias. Mas aprendi a não o mostrar”. A autora de Mulherzinhas observa, no romance, que o facto de a mãe sofrer do mesmo “mal” tornou mais fácil à personagem Jo suportar o seu mau feitio.

Mas é preciso não esquecer que o livro “Mulherzinhas” já foi escrito há 120 anos.

 (Publicado originalmente a 3 de setembro de 2016)

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