Era um mito, uma figura estranha na gigante floresta que é a música brasileira. Damião Experiença é um nome que não está, definitivamente, na ponta da língua para a grande maioria da população melómana. Mas, durante as últimas quatro décadas, Damião (ou Daminhão) foi juntando uma legião de fiéis seguidores com a sua música caótica, amadora, absolutamente intransigente na sua idiossincracia; noise, blues, música popular brasileira e, também, o rock psicadélico que amava - “Experiença” é apelido roubado à “Experience” de Jimi Hendrix.

Estima-se que tenham sido para cima de trinta os álbuns que lançou a partir de finais dos anos 60, sempre sem a ajuda de uma editora, sempre com o seu próprio dinheiro, que arranjava sabe-se lá como. Há quem diga, incluindo o próprio, que foi o “salário” de cafetão (ou, em português europeu, “proxeneta”) que lhe permitiu gravar as suas dúzias de canções cantadas sobretudo em português. Ele que dizia arrepender-se de ter cantado em português – é “uma língua emprestada”, afinal de contas. Outros garantem que Damião Experiença recebia uma avença da Marinha brasileira, onde terá estado enquanto operador de radares, e da qual se reformou em 1963, após cair do mastro de um navio.

A veracidade desta história está por confirmar, como tudo na vida de Damião. A Marinha recusou-se sempre a prestar informações pessoais sobre o assunto, mas confirmou a reforma do músico nesse ano. O resto é mito. Mas a queda ajudará – caso seja verdade – a explicar a sua música e, sobretudo, as suas letras e os títulos das suas canções e dos seus álbuns: “Eu Só Gosto De Mulher Lésbica”, “Eu Gosto De Apanhar De Mulher”, “Eu Gosto Da Ditadura”, “Se Você Não Casar Com Mulher Virgem, Já É Corno, Já Comeram Tua Mulher”, "ADEUSADOLFHITLER1945FIM" e "Ezabelitaperonism" são só alguns exemplos.

Referências ao nazismo, à ditadura militar brasileira ou a Eva Perón, ex-primeira dama da Argentina, são coisa que não faltou na sua obra. Como? Sim, isso mesmo. Era apologista da ideologia nazi? Não, de todo. Também há menções a Fidel Castro, ao comunismo, ao aborto, às drogas e à religião rastafari. Mas porquê? Bem, ele tentou explicar, em declarações ao jornal O Globo, em 2015: «Eu gosto de tudo no mundo, do bom e do ruim. Adolf Hitler, Getúlio [Vargas, ditador brasileiro entre 1930 e 1945], Bocage, temos que respeitar todos eles porque fizeram parte da História».

Só Damião, com a sua pele mulata, longas rastas e o perpétuo ar de mendigo com o qual se passeava por Ipanema, não fez parte da História, nem sequer da musical – salvo para um grupo muito restrito de admiradores, entre os quais o cantor e poeta Rogério Skylab, bem como para uma certa fatia da cena underground do Rio de Janeiro. Os seus discos nunca foram reeditados, sendo hoje vendidos em segunda mão a preços que podem ir dos 200 aos 1000 reais (ou 55,00€ a 280,00€).

Concertos, nem vê-los, aparições públicas também não; consta que o apresentador Jô Soares tentou levá-lo ao seu programa, sem sucesso. Damião Experiença rejeitava os media como o diabo a cruz, e rejeitava o seu próprio estatuto de culto. Para a grande maioria dos que o viam vaguear pelo Rio de Janeiro, com a sua guitarra pejada de dizeres diversos e fotografias de mulheres semi-nuas, era só mais um pedinte com uma doença mental não especificada. Para outros, era um génio, da mesma maneira que outros nomes outsider, para lá de todas as convenções musicais e artísticas – os norte-americanos Captain Beefheart e Jandek, por exemplo – são génios. Comparações com estes, e com a obra de Frank Zappa, são comuns.

Terá nascido em Lauro de Freitas, município da Bahia, em 1935, mas há muito que morava num apartamento no Rio de Janeiro – apartamento esse repleto de lixo. O seu estado de saúde não seria o melhor. Mas esse era apenas o seu mundo físico e real. Na sua mente, Damião residia num imaginado Planeta Lamma, terra com linguagem própria (que pode ser escutada em alguns dos seus temas) e que deu nome ao seu disco mais popular, lançado em 1971 – compêndio de 13 temas escritos com recurso a um violão de apenas uma corda, um chocalho e uma gaita. Este Planeta Lamma era, explicava, o último destino de todos os seres humanos. «[Lá] não tem fulano, não tem sicrano, pode ser barão, pode ser barão», dizia. Era a morte, portanto; do pó viemos, ao pó voltamos, e o pó transforma-se em lama.

As suas canções estavam disponíveis num website a ele dedicado, que entretanto desapareceu sem deixar rasto – o YouTube e programas P2P são, agora, a forma mais rápida e simples de o escutar. Não que ele se importasse com isso: «pode pegar, é tudo de graça», disse certa vez, quando questionado sobre o facto de a sua música ter ido parar à Internet. Acabou por falecer no passado sábado, aos 81 (supostos) anos, tendo o funeral sido realizado na presença de apenas duas pessoas: um vizinho e um fã. Desconhecido, como ele sempre foi, e provavelmente continuará a ser. Mas na morte todos somos desconhecidos.

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