Na madrugada de quinta-feira, meses de tensão entre a Rússia e a Ucrânia (e os seus parceiros ocidentais) desembocaram numa declaração de guerra de Vladimir Putin, enquanto a Europa dormia.

Minutos depois das palavras do presidente russo, começaram a ser reportados bombardeamentos na região disputada do Donbass, mas também em Kiev, Kharkiv e Odessa. Era aqui que se encontrava José Neves, acompanhado de dois colegas.

A pretexto da condução de uma “operação militar especial” para “desmilitarizar” a Ucrânia, imagens de fogo de artilharia e de explosões começaram a circular pela internet e televisões. Seguiu-se o avanço das tropas terrestres russas — estacionadas há semanas junto à fronteira — e das forças navais.

Já de manhã, a embaixada de Portugal na Ucrânia aconselhava os seus cidadãos a sair do país através das fronteiras terrestres com a União Europeia, de preferência na direção da Polónia e da Roménia. Tanto quanto se sabia, pelas 9:30, havia 40 portugueses e de 120 luso-ucranianos no território. É bem provável que José Neves não tenha entrado nesta estatística.

“A meio da noite as coisas desencadearam-se muito rapidamente. Recebi uma primeira mensagem de Portugal a avisar-me que Putin já estava a anunciar as operações militares. Entretanto, recebi outra a avisar-me do cancelamento da minha viagem de regresso. Um colega acordou com uma explosão — eu não acordei, mas ele sim”, conta José Neves ao SAPO24.

Sem aviso, uma viagem de negócios, uma rotina, tornou-se num plano de fuga para escapar à invasão e regressar a Portugal. 

“Entrei na Ucrânia no passado domingo, no aeroporto de Odessa. Era para ter ido uns dias antes, mas acabei por adiar a viagem por causa da situação que estava a ser relatada na semana passada”, conta, referindo-se aos alertas repetidos por parte dos EUA de que a invasão por parte da Rússia estaria iminente.

No entanto, perante um aparente resfriar das tensões — quando foi anunciado que alguns dos batalhões estacionados junto à fronteira estariam a regressar às bases —, José optou por remarcar o voo.

O plano foi simples: ficar segunda-feira em Odessa, para reunir com um possível cliente para um projeto, e encontrar-se com outro em Bila Tserkva, cidade no centro do país, a aproximadamente 80 quilómetros a sudoeste de Kiev, mas a quase 400 da cidade portuária a sul, onde se encontrava. Até aqui, tudo bem. “Foi tudo perfeitamente normal, até jantámos num restaurante. Em Odessa, também tudo calmo”. Regressados a Odessa na quarta-feira, por volta da meia-noite, ficaram no mesmo hotel a pernoitar, esperando voar na quinta-feira de manhã para Lisboa, com escala em Istambul.

A viagem para cima e para baixo foi feita no carro de um colega de José com dupla nacionalidade, luso-ucraniana, residente em Chernivtsi — cidade no oeste da Ucrânia, perto da fronteira norte da Roménia — e que se veio juntar aos dois companheiros que embarcaram de Lisboa.

“O que ele me dizia era que o país estava perfeitamente normal, que as pessoas não acreditavam que pudesse haver uma invasão, que Putin nunca faria uma coisa dessas, até porque na Ucrânia há muitas pessoas de origem russa ou são russófilas. Pôs-se a hipótese da tentativa de anexação das províncias de Donestk e Lugansk, mas nunca uma invasão de larga escala”, adianta José. Da sua experiência durante estes dias, a sensação foi a mesma: uma tensão latente, mas não efusiva nem urgente. “Nós não limitamos em nada as nossas viagens, os clientes nem nos disseram para termos cuidado ou não”. “Business as usual", como se costuma dizer.

A partir da madrugada de quinta-feira, porém, tudo mudou. “Foi uma catadupa. A nossa preocupação foi fugir o mais depressa possível em direção à fronteira”, diz. Ainda de madrugada, saíram do hotel o quanto antes e meteram-se no carro em direção à Moldávia, a uns 70 quilómetros de Odessa. Foi a sorte dos três, encontrarem-se no extremo sudoeste da Ucrânia.

Evitando a fronteira com a Transnístria — região da Moldávia disputada e governada por separatistas apoiados pela Rússia — entraram mais a sul, com a intenção de conduzir até Chişinău, a capital do país vizinho.

Pelo caminho, apesar de ainda ser madrugada, José conta que já começava a notar-se agitação nas ruas. “Havia filas enormes para abastecer os carros em Odessa, veículos a conduzir depressa, muitos eram de alta gama e tinham a matrícula diplomática, a ir em direção à fronteira. Inclusive, vi alguns com a matrícula americana também. Nada que fosse muito complicado de gerir, mas percebia-se perfeitamente que já havia agitação”, relata.

Ainda assim, a chegada à fronteira fez-se com relativa rapidez e pelas 6:30 já estavam junto à Moldávia. Aqui, demoraram “entre uma hora e uma hora e meia” a sair — tiveram apenas de comprar um seguro para o carro e seguir para Chişinău. O pior já tinha passado, mas ainda houve contratempos.

No seguimento da invasão à Ucrânia, a Moldávia também fechou o seu espaço aéreo. Voltar para Portugal precisava de um plano B. Bucareste, a capital da vizinha Roménia. “Decidimos seguir viagem e chegamos sexta-feira de madrugada, era uma da manhã à hora local”, continua. Deixando o carro num hotel, seguiram para o aeroporto e apanharam o primeiro voo para Lisboa, chegando já durante este dia. 

Na confusão da fuga, José admite ter sido terrível experienciar a angústia da sua família e amigos em Portugal. “Tivemos tentativas de telefonemas constantes. Um dos meus colegas, em particular, não está muito habituado a sair do país. Foi complicado”, diz. Mas para o seu colega luso-ucraniano, a situação foi bem mais penosa.

“Ele tem família no nordeste da Ucrânia. Uns familiares queriam sair do país, outros não, alguns com filhos praticamente recém-nascidos. Vivemos estes dramas com as pessoas de lá, mas ele tomou a decisão de vir connosco”, afirma o empresário.

É que se por Odessa — que, apesar de atingida pelo conflito, fica longe dos principais teatros de combate —, a saída fez-se com relativa rapidez, no norte do país, a situação foi bem diferente. “Soubemos que na fronteira a norte, junto a onde vivia a família do meu colega, já havia largas dezenas de quilómetros de fila”, conta.

Além das dificuldades da fuga da sua família, juntou-se a este problema o do filho, “que não quis sair”, e da esposa, que queria fugir, mas não o fez. Porquê? “Porque o filho, à conta da lei marcial, já não podia sair, tem 29 anos”, diz José, referindo-se à mobilização geral dos cidadãos decretada pelo Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, para combater a invasão russa.

Tendo 62 anos, o colega luso-ucraniano de José não foi sujeito à mesma sorte, mas a sua idade revela outras facetas. Se, por um lado, “tem um grande orgulho em ser ucraniano e na nação”, por outro, tendo vivido muitos anos quando a Ucrânia fazia parte da União Soviética, “é talvez ainda um bocadinho saudosista do desse tempo, especialmente por causa da questão económica”.

"Aqueles países empobreceram muito com o desmantelamento da URSS, percebe-se que em várias regiões da Ucrânia as indústrias foram abandonadas e há zonas residenciais com um aspeto muito decadente, houve de facto um agravamento das condições das pessoas”, conta o empresário, cujo trabalho o leva frequentemente a visitar países do antigo bloco soviético.

Além disso, o colega de José, tal como a restante população, não esperava esta invasão. “Inclusivamente, [este colega] revoltou-se um bocado com a comunicação social ocidental, a dos EUA e do Reino Unido em particular, porque ele próprio reiterava que isto era tudo mentira, que não ia acontecer, a comunicação social estava a inventar e a inflamar”, confessa.

No entanto, aconteceu. E os ucranianos “foram completamente apanhados de surpresa, não estavam preparados para isto”. Apesar de distantes da Ucrânia e na segurança do solo português, a mácula ficou na mente dos três colegas regressados. “Eu percebi perfeitamente [o seu problema], até pelo choro, pelo desespero. Foi dramático viver isto com ele a meu lado. Senti uma desilusão... parece que houve uma traição”, conclui.

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