Quando as chamas já cercavam a aldeia e toda a gente esperava ao início da tarde de domingo que o fogo chegasse a Casal do Gago, decidiu mandar-se os mais velhos e crianças para o Centro de Convívio da localidade.

Sem avistarem bombeiros ou qualquer outra autoridade, os habitantes valeram-se da pouca água que tinham em ‘bidons' para combater as chamas que cercavam as casas e apenas foram retiradas pessoas das suas residências quando estas estavam ameaçadas pelas chamas.

"A nossa sorte foi ninguém fugir, senão as pessoas morriam assadas", disse à agência Lusa Vitor Ferreira, da Amadora, a passar férias na casa dos seus pais.

No terreno, morreram os animais e teve de andar a apagar tudo à volta, se não os seus pais "morriam".

As lições de Pedrógão Grande "ajudaram", sublinha.

João da Fonseca, reformado, fala numa dúzia de casa habitadas que ficaram destruídas e de pessoas que ficaram só com a roupa que traziam vestida.

Durante o incêndio, retirou uma família de alemães para a sua casa e arrancou à força uma mulher idosa, que tinha a casa a arder e não queria sair da sua habitação.

"Antes de vir a bola de fogo, atirei-a para o carro. Teve de ser", contou João da Fonseca, frisando que a população usou as lições de Pedrógão Grande.

No Casal do Gago, "não houve um Pedrógão igual porque as pessoas se refugiaram e ajudaram-se umas às outras, senão morria tudo", sublinhou João da Fonseca, dando voz à indignação da população que se viu sozinha a apagar as chamas.

"Bombeiros? Zero. Proteção Civil? Onde? Pessoal da Câmara? Vieram só agora de manhã", notou, referindo que não ficou "ninguém ferido graças à população".

Para o reformado, o que se passou foi "uma vergonha nacional".

Ao seu lado, está Márcio António, com a roupa toda pintada de negro, os olhos vermelhos, cigarro na boca e uma cara de desânimo perante o cenário que se viveu.

"Chamei os bombeiros e zero", conta o habitante da aldeia, visivelmente desolado.

Enquanto fala, alguém avisa que os incêndios em Portugal já provocaram pelo menos 27 mortos.

No olhar das pessoas, está cravada a impotência, como a que viveram no domingo, quando viram "tudo a arder à volta", com chamas a percorrerem "cinco quilómetros em três minutos" e pouco puderam fazer para conter o avanço do fogo.

"O que aconteceu aqui foi Pedrógão", sublinha João da Fonseca.

Habitante salva família alemã em Vila Nova de Poiares e tenta convencê-la a ficar

João da Fonseca, habitante de Casal do Gago, no concelho de Vila Nova de Poiares, salvou no domingo uma família de alemães que estava há dois meses a viver na localidade e agora tenta convencê-los a ficar.

As chamas já estavam em Casal do Gago, quando João da Fonseca se lembrou de uma família de alemães, que vivia ali perto.

Pegou no jipe e fez-se à estrada, juntamente com outro habitante que o seguia numa carrinha.

Quando chegou ao local onde a família alemã tinha estacionado o seu camião com rulote, pegou nos dois cães, três crianças e na mãe, que apenas tiveram tempo de levar a roupa que tinham vestido e pouco mais.

Com o camião estacionado num terreno limpo, nada fazia prever que as chamas acabassem por destruir por completo a viatura de Jenny Burghard e do seu marido.

"Não trouxe nada comigo. Agora, não temos nada. A nossa vida toda estava naquele camião", conta à agência Lusa a alemã de 35 anos, que estava há dois meses em Vila Nova de Poiares onde procurava uma casa para viver.

Para Jenny Burghard, foi "tudo muito rápido", mas os habitantes ajudaram-na a sentir-se segura.

"Quando chegámos ao [centro] de convívio [da aldeia], toda a gente foi tão amável connosco", notou.

Seguiu depois para a casa de João da Fonseca, onde ainda se mantém, com os seus três filhos.

Por lá, ainda viu o habitante a apagar as chamas que circundaram a habitação.

"As pessoas foram incríveis e muito organizadas. Parecia que todos sabiam o que fazer e isso deixou-nos seguros. Estas pessoas salvaram-me a vida", afirma Jenny, que ainda não foi ver o local onde o camião ficou destruído.

O seu marido está neste momento a conduzir para Portugal e recebeu a notícia "a chorar", contou João da Fonseca.

"Nós queremos perceber o que podemos fazer, mas não sabemos. Agora, não temos nada", frisa Jenny Burghard, enquanto João da Fonseca responde: "Têm-me a mim e às pessoas da terra".

Jenny esboça um sorriso e volta a elogiar a população de Casal do Gago.

"Estou a tentar convencê-los a ficar", diz João da Fonseca, que ainda viu a sua companheira a desmaiar quando apagava as chamas nas traseiras da sua casa.

Para o habitante de Casal do Gago, mas natural de Aveiro, a família de alemães com três crianças com um, três e cinco anos, dá outra vida à aldeia envelhecida.

"Ver crianças por cá dá alegria às pessoas", frisa João.

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