É um nome que provavelmente já ouviu antes da pandemia da Covid-19 dominar a atenção do globo, mas que se tornou ubíquo depois do surto. A par de nomes como Harvard, Yale, Stanford ou ou MIT, a Johns Hopkins University é uma instituição cujo prestígio ultrapassa fronteiras nacionais.

Instalada na cidade de Baltimore, no estado de Maryland, a Johns Hopkins University foi fundada tendo o nome do empresário filantropo que a financiou. Empresário local enriquecido à conta do investimento em áreas como os caminhos-de-ferro, Johns Hopkins deixou no seu testamento a quantia de sete milhões de dólares — quantia que hoje equivale a 169 milhões de dólares — para investir num hospital com espaços de treino, uma universidade e um orfanato.

Tendo como inspiração as universidades alemãs — em particular a Universidade de Heidelberg — a Johns Hopkins University abriu portas em 1876 na zona da baixa de Baltimore, tendo-se relocalizado para o atual campus, em 1914. Dada a sua antiguidade, esta instituição apresenta-se como sendo “a mais antiga universidade de investigação da América”.

O título autoproclamado não é facilmente verificável, mas há outras distinções que são. Entre os diferentes feitos que constam do trabalho desenvolvido nesta faculdade encontram-se a descoberta da sacarina (1879), a primeira utilização de luvas de borracha em trabalho cirúrgico (1889), a invenção da reanimação cardiopulmonar (1958) e do primeiro pacemaker recarregável (1972). Foi aqui que se planearam missões espaciais como a que fotografou a curvatura da Terra pela primeira vez (1946), a que fotografou pela primeira vez a Terra a cores (1967), a que aterrou pela primeira vez uma aeronave no asteroide (2001) e outra que aterrou pela primeira vez em Mercúrio (2004).

Mais recentemente, esta instituição programou uma viagem a Plutão em 2015 e contribuiu para o estudo de 2016 onde se estabeleceu a ligação entre o Zika e a microcefalia que afeta os bebés de mães infetadas com este vírus. Pelas suas salas passaram 29 laureados com Prémios Nobel, desde o presidente dos EUA Woodrow Wilson (Nobel da Paz) em 1919, até Gregg Semenza e William G. Kaelin Jr. (Nobel da Medicina) em 2019.

Das diferentes áreas de estudo que apresenta, há, porém, uma que se destaca das demais: a da saúde. Conhecida pelas suas investigações na área da medicina, a faculdade tem também um hospital de fama internacional e uma das melhores escolas de saúde pública do país, a Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health.

O seu nome, porém, revela a natureza do financiamento desta universidade privada, dependente de doações privadas e de fundos estatais.

A Johns Hopkins, por exemplo, recebeu da maior doação jamais feita a uma instituição de ensino nos EUA: 3,3 mil milhões de dólares, fruto de várias contribuições feitas por Michael Bloomberg, bilionário que foi candidato nas primárias democráticas à Casa Branca e que se formou em Engenharia Elétrica na instituição. Para além de figurar na denominação da escola de saúde pública, o nome do magnata e ex-presidente da Câmara de Nova Iorque batiza também os programas de excelência da universidade.

Por outro lado, a instituição reportou em 2018 ser a universidade norte-americana que mais fundos utilizou em investigação e desenvolvimento durante 38 anos seguidos. Só em 2016, gastou mais de dois mil milhões de dólares em projetos como o combate ao dengue ou a idade funcional das células, grande parte deste valor sendo canalizado por agências governamentais e federais. 

Para o combate à Covid-19, a Johns Hopkins já recebeu quatro milhões de dólares de Bloomberg e do estado de Maryland (três do primeiro, um do segundo) para investigar tratamentos a vítimas da Covid-19 a partir de plasma sanguíneo de sobreviventes para fornecer anticorpos. Outro dos exemplos do trabalho desta universidade é um guia de recomendações aos governadores dos estados quanto ao possível levantamento das medidas de suspensão.

No entanto, apesar dos muitos milhões que movem as engrenagens desta universidade, o projeto que a catapultou para os ecrãs de todo o mundo não necessitou de grandes fundos, veio da área de engenharia e até foi uma ideia do dia para a noite.

O mundo de olhos postos num painel

Já deve ter reparado nele, um mapa preto com círculos vermelhos de diferentes tamanhos sobre cada país, cada um com a dimensão dependente do número de casos de infeção por covid-19 nesse país.

É o painel de controlo para a covid-19, chamado oficialmente “COVID-19 Dashboard by the Center for Systems Science and Engineering (CSSE) at Johns Hopkins University (JHU)”, utilizando um software chamado ArcGIS Dashboards, da ERSI, empresa de software de mapeamento ERSI.

Criado em janeiro, tornou-se uma referência em todo o mundo. Como escreve a revista Science, não só é usado “por meios de comunicação e agências governamentais pelo mundo”, como o seu modelo “já foi copiado por vários países” e já foi visto nas paredes da “sala de guerra contra o coronavírus” do departamento de Saúde dos EUA.

Painel Covid-19
créditos: Johns Hopkins Center for Systems Science and Engineering — ArcGIS Dashboards

A sua simplicidade é a chave para o seu sucesso. Nos painéis laterais encontram-se listas com os países organizados por número de casos, número de mortes e número de recuperações. Sendo um meio norte-americano, apresenta também o número de testes e de hospitalizações por estado nos EUA. Para completar a informação, neste guia encontram-se ainda diferentes gráficos quanto à evolução dos casos, a que horas foi atualizado pela última vez e que fontes é que usou para apresentar os dados da pandemia.

A outra razão pela sua ampla utilização é a sua fiabilidade. Segundo a Johns Hopkins, o painel tem neste momento como fontes a Organização Mundial de Saúde, o Centro Europeu de Controlo e Prevenção de Doenças, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA e a Comissão Nacional de Saúde da República Popular da China, assim como vários meios de comunicação, departamentos de saúde e da DXY, uma comunidade online formada por médicos, profissionais de saúde, farmácias e estabelecimentos de saúde.

O cérebro por detrás do mapa, segundo a Science, é Lauren Gardner, professora e investigadora da Escola de Engenharia da Johns Hopkins e co-diretora do seu centro para Sistemas de Ciência e Engenharia. Apesar dessa ser a sua área, a académica dedicou-se a estudos epidémicos no passado, tendo já trabalhado em modelos espaciais de epidemias como o sarampo ou o vírus Zika.

A decisão de criar o mapa, contou Gardner à NPR (a emissora pública dos EUA), partiu de um aluno chinês de doutoramento, Ensheng Dong, e foi uma decisão de impulso e "sob o efeito da cafeína". Na noite de 21 de janeiro, Dong estava acompanhar a escalada de casos no país natal com preocupação, em particular da província de onde é natural, Shanxi.

Perante o seu nervosismo, Gardner sugeriu a Dong que criasse um painel de observação de online e, passadas algumas horas, estava pronto, tendo sido revelado no dia seguinte, a 22 de janeiro. À data, tinham sido registados 444 casos e 17 mortes na região de Hubei, na China, para além de deteção de casos no Japão, Coreia do Sul, Tailândia, Taiwan, Estados Unidos e Austrália.

Segundo um artigo que escreveu sobre esta plataforma no jornal médico The Lancet, o intuito do painel foi “providenciar investigadores, autoridades de saúde pública e o público em geral com uma ferramenta de fácil utilização para acompanhar o surto à medida que este avança”.

Hoje, os dados agregados estão disponíveis para qualquer um utilizar. Os responsáveis permitem que o painel possa ser usado noutras páginas através de uma função de “embed” [incorporar] e todas as informações recolhidas podem ser encontradas num repositório de programação GitHub.

No início, apenas Dong estava encarregado de ir atualizando o painel com os dados mais recentes. Com o avançar da pandemia, foram criados postos rotativos. No entanto, com o enorme aumento das fontes de informação, foi necessário criar algoritmos que atualizassem a base de dados automaticamente.

É, porém, necessário ainda fazer um acompanhamento para fazer alterações manuais caso haja dados incorretos. À Science, Lauren Gardner disse que a equipa instalou “um sistema de deteção de anomalias que alerta para discrepâncias nos casos reportados que são colecionados automaticamente”.

Pela sua fiabilidade e facilidade de leitura, o painel explodiu em popularidade, sendo que, a certa altura, foram tantas as pessoas a aceder a esta ferramenta, que os servidores caíram. “Subestimamos massivamente o interesse do público”, admitiu Gardner à NPR, considerando que “as pessoas estão mesmos desesperadas por informação na qual possam confiar”.

A equipa, originalmente com seis pessoas e resumida ao grupo de trabalho de Gardner, precisou de reforços, começando a receber ajuda de mais estudantes, de profissionais do Laboratório de Física Aplicada da universidade e de uma equipa da ERSI.

Outro desafio para os responsáveis do painel prendeu-se com os nomes das nações representadas no mapa, devido a tensões geopolíticas. Um dos casos levou a equipa a ter de mudar o nome de “Taiwan” para “Taipei e arredores” devido ao diferendo que opõe a nação asiática à China. A solução passou por jogar pelo seguro e usar as denominações oficiais usadas pelo Departamento de Estado dos EUA.

Com o reforço dos servidores e o processo de automatização garantido, o trabalho começado há meses e sem folgas pelo meio toma agora novas formas. Utilizando os dados agregados pelo painel, Gardner e a sua equipa estão agora focados em criar sistemas matemáticos para calcular o risco da pandemia em termos espaciais e melhor informar os decisores políticas quanto a medidas tomar.

[Artigo corrigido às 22:25]

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