"O Manneken Pis é a única estátua profana no mundo a ter um armário como este, com mais de 965 trajes", conta à AFP a historiadora Catherine Gauthier, curadora do museu "GardeRobe MannekenPis" (em português, guarda-roupa do Manneken Pis), dedicado a este menino de bronze com mais de 400 anos de idade.

Seja de índio, Mickey Mouse, Elvis Presley, 'diabo vermelho' da seleção de futebol belga ou Casanova veneziano, as possibilidades de vestir esta estátua são imensas. Basta uma requisito: as roupas têm de estar adaptadas para os seus tímidos 55,5 cm de altura.

Gauthier explica que as associações ou embaixadas que queiram dar um traje de presente à estátua podem fazê-lo. O fato pode ser feito pelos próprios ou pode ser encomendado ao chamado "alfaiate oficial" do Manneken Pis, e, em todos os casos, deve-se trabalhar "a partir de um padrão com as indicações técnicas" específicas.

A estátua é vestida cerca de 130 vezes por ano com diferentes roupas que variam em função da atualidade, muitas vezes doadas por organizações ou embaixadas para uma ocasião especial ou evento, como a morte de Nelson Mandela ou o início da Copa do Mundo de futebol.

Mas vestir o 'menino' está longe de ser uma prática dos tempos modernos, conta Gauthier, ao lado do seu colega, curador, Gonzague Pluvinage. A partir do final da Idade Média, o Governo e instituições passaram a oferecer vestimentas ao Manneken Pis para reforçar a sua ligação ao povo.

Os habitantes de Bruxelas "escolheram-no como símbolo, provavelmente porque o seu ar provocador permitia que eles troçassem, de uma forma mais discreta, das autoridades", revela a historiadora, que afirma que a primeira menção a esta fonte data do século XV.

Manneken Pis, cavaleiro da Ordem de São Luis

A "ilustração mais antiga do Manneken Pis trajado aparece numa pintura de 1615, e a roupa mais antiga que conseguimos conservar é de 1747", diz Gauthier.

Na tela do século XVII, o artista Denis van Alsloot representa a estátua com trajes de pastor, durante a procissão de Ommegang, rodeado de ovelhas e a urinar numa fonte.

O atual Manneken Pis é de de 1619, ano em que o Governo de Bruxelas encomendou ao escultor Jerome Duquesnoy para fazer uma estátua de um menino que, segundo uma lenda, teria evitado um terrível incêndio na cidade urinando numa chama.

No entanto, "naquela época, imagens ou estátuas de uma criança a urinar eram comuns na arte", conta Pluvinage.

"No centro de Bruxelas também há o 'Cuspidor', e, antigamente, havia a 'Fonte das três virgens', com água saindo dos seus seios", acrescenta.

A partir do final da Primeira Guerra Mundial, os trajes para o Manneken Pis começaram a chegar de todos os países europeus, da África, da Ásia e da América. Por ano, o guarda-roupa da estátua ganha cerca de 25 novas vestimentas.

O museu "GardeRobe MannekenPis", inaugurado em fevereiro, expõe 130 trajes, e no site oficial (www.mannekenpis.brussels) é possível ver todos eles.

Para Gauthier, a roupa mais bonita foi oferecida pelo rei francês Luis XV em 1747, o traje conservado mais antigo, para tentar compensar os habitantes de Bruxelas pela tentativa de roubo da estátua por soldados.

O monarca decidiu, além disso, "nomeá-lo cavaleiro da Ordem de São Luis", o que passou a obrigar os "soldados a saudá-lo", explica.

Pluvinage confessa, por sua vez, ter um fraco pelas roupas mais modernas, como os trajes de fantasia das personagens Obelix ou Mickey Mouse.

"E o da Amnistia Internacional também não deixa ninguém indiferente", sublinha, referindo-se ao uniforme branco com listras negras que espelha a difícil situação dos presos políticos.

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