Estavam a passar diante de Rui Moreira os finalistas de Farmácia quando o presidente da câmara do Porto e vários convidados institucionais abandonaram a tribuna de honra, montada pela autarquia no topo da avenida dos Aliados. Os estudantes de Farmácia entoavam cânticos — mas não para os convidados. Como protesto por vários problemas que a Academia da Invicta tem sentido nos últimos meses, os festejos foram direcionados para outro lado, que não a tribuna.

Nessa altura, após um dos apresentadores dos grupos de finalistas — que pertence à Praxe do Porto — ter sublinhado ao microfone que o sucedido não era uma coincidência, o presidente da autarquia abandonou a estrutura, testemunhou o SAPO24 no local.

Outros convidados na tribuna, como António Sousa Pereira, o reitor da Universidade do Porto, desceram do palco. Também o presidente da Federação Académica do Porto (FAP), João Pedro Videira, desceu da tribuna, para onde não regressou.

As cadeiras foram depois ocupadas por vários membros do conselho da praxe portuense, incluindo o ‘Dux Veteranorum’, Américo Martins.

Cortejo da Queima das Fitas do Porto 2019
Américo Martins (c) com o grupo de Veteranos da Praxe do Porto. créditos: PEDRO SOARES BOTELHO / MADREMEDIA

O cortejo da Queima das Fitas é organizado pela FAP em conjunto com o Conselho de Veteranos da Praxe do Porto. A iniciativa conta com a parceria da câmara — que, por exemplo, monta gratuitamente a estrutura da tribuna diante do edifício da autarquia, nos Aliados.

"O Cortejo é académico, portanto, é para todos", afirma o presidente da FAP. "Para quem faz praxe e para quem não faz praxe. A FAP não faz segregação de estudantes — nem pode".

João Pedro Videira explica ao SAPO24 que "aquilo que se passou foi um triste episódio onde alguns elementos da Praxe tentaram protagonizar um momento que não era deles — aquele momento é dos estudantes, não é daqueles elementos da Praxe.”

António Sousa Pereira (esq.), Rui Moreira (c) e João Pedro Videira (dir.) na tribuna do Cortejo. créditos: PEDRO SOARES BOTELHO / MADREMEDIA

"Todas as pessoas que estavam na tribuna, onde eu me incluo, foram completamente apanhadas desprevenidas e de surpresa. Nenhuma das pessoas que ali estava sabia ou imaginava sequer aquilo que se iria passar", conta o dirigente.

O presidente da FAP disse já a Rui Moreira que a federação "se desmarca completamente daquela forma de atuação e daquele protesto", esperando, por isso, que não seja posta em causa a relação com a autarquia.

No discurso que antecedeu a passagem dos finalistas pela tribuna de honra, a Praxe do Porto teceu duras críticas à forma como a cidade está a tratar a Academia. Da falta de alojamento à insegurança no Pólo Universitário, sem esquecer alegadas dificuldades na requisição de espaços municipais para os eventos.

O protesto passou pela afirmação de que pelo menos aqueles veteranos estavam a manifestar-se e que os finalistas passariam em silêncio diante dos convidados.

créditos: PEDRO SOARES BOTELHO / MADREMEDIA

Videira considera que algumas das críticas são válidas, e diz que “o cortejo é um momento de sátira e é normal haver um momento de sátira e crítica política”. Para o dirigente, “o problema não se coloca no conteúdo, mas na forma”.

À agência Lusa, confrontado com esta posição da FAP, o ‘Dux Veteranorum’ da Academia do Porto, Américo Martins, assumiu que o momento escolhido para demonstrar desagrado “talvez” não tenha sido o mais indicado. “O momento talvez não tenha sido o certo, mas foi uma manifestação de um estado de alma e de um sentimento”, sublinhou.

Ainda segundo a Lusa, Américo Martins considerou que aquele momento devia ter sido coordenado ou comunicado à FAP porque é quem representa os estudantes. Apesar de admitir que a situação foi “irrefletida”, o ‘Dux Veteranorum’ realçou que as razões que motivaram o protesto são “justas e válidas”, cita a mesma fonte.

O presidente da Federação Académica diz acolher “algumas das questões levantadas e algumas das problemáticas na intervenção feita”. Porém, concorda com a atitude do presidente da câmara e do reitor — atitude que a direção da FAP acompanhou.

Também a direção da FAP abandonou o cortejo por os seus elementos se terem sentido “desrespeitados”, uma vez que, afirma também João Pedro Videira, a FAP tem feito um esforço com os seus parceiros — como a câmara ou as instituições de ensino superior — "para mitigar todos aqueles problemas: seja ao nível do alojamento, seja ao nível da segurança no Pólo da Asprela, seja ao nível do compromisso com a cidade".

Recorde-se que nas últimas semanas vários estudantes das faculdades no Pólo da Asprela, junto ao Hospital de São João, se têm queixado de insegurança devido aos vários assaltos na zona. O tema foi esta semana levado por um aluno da Faculdade de Engenharia à reunião do executivo.

Com a FAP a celebrar trinta anos em 2019, Videira diz que este "é um ano de celebração, não um ano de virarmos costas à cidade”. Mas o ano de celebração está a ser manchado por vários incidentes nesta semana da Queima.

Esta terça-feira, para além da polémica em torno do abandono da tribuna, vieram a público vídeos que mostram vários excessos nas barraquinhas do Queimódromo. Uma jovem foi também hoje encontrada inconsciente e semi-nua nas imediações do recinto da festa académica.

O dirigente da FAP diz que "tem havido mais situações, com mais exposição mediática", mas acredita que, para a Federação Académica, "tem sido um grande ano". "A Queima das Fitas está a ter algumas questões pontuais, mas acreditamos que vamos dar a resposta certa, na medida certa, com o comportamento certo que a Academia merece”, conclui.

O SAPO24 tentou falar com Américo Martins, logo após o incidente, porém, o responsável pela Praxe do Porto não se mostrou disponível, remetendo contacto para mais tarde — contacto esse que até ao momento da publicação deste texto ainda não foi possível.

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