Se o título deste texto soa a ditado popular, é porque estamos na altura em que os santos do povo são celebrados de norte a sul do país, a começar por Lisboa. Ou melhor, seriam celebrados, caso as circunstâncias fossem normais.

Por força da pandemia da covid-19, não haverá Santos Populares, as festas de Santo António, na capital, e de São João, no Porto, foram, para todos os efeitos, canceladas. A funesta novidade foi dada em simultâneo pelas duas autarquias em inícios de abril.

Mais de dois meses depois, esses cancelamentos, porém, tiveram de ser esclarecidos à luz daquilo que é a atual situação do país. 

Em abril, no pico da pandemia, era consensual a decisão de cancelar tudo aquilo que se pudesse traduzir em grandes ajuntamentos, algo em que as festas populares são pródigas. No entanto, agora, com o país em fase de desconfinamento, a própria noção de “ajuntamento” começa a ser repensada, pois na grande maioria do país já é possível que 20 pessoas se juntem, reduzindo-se esse número para 10 na Área Metropolitana de Lisboa, dada a situação mais delicada que por aí ainda se vive.

Por outras palavras, se era certo que, em Lisboa, as Marchas ou os Casamentos de Santo António teriam de ficar para 2021, menos claro era se seria possível fazer arraiais de modesta escala na capital.

A resposta é “não”, mas antes foi um “talvez, consoante o caso”.

Expliquemos: como se tem sabido ao longo das últimas semanas — e fazendo jus aos avisos da diretora-geral da Saúde de que a pandemia poderia fazer-se sentir a diferentes ritmos por todo o país — a Área Metropolitana de Lisboa é, neste momento, o epicentro da covid-19 em Portugal. 

Os dados mais recentes confirmam-no: a região de Lisboa e Vale do Tejo concentra 90% dos novos casos. Por isso mesmo, até dia 15 de junho, a região vai continuar a ser sujeita a regras sanitárias mais apertadas, o que significa que o Santo António, a 13, vai ocorrer numa fase de alerta ainda.

Todavia, a dúvida se seria possível ter um gostinho dos Santos na capital nos próximos dias foi hoje instalada por Graça Freitas. “Nada impede que haja uma boa esplanada e que essa esplanada tenha música e que essa música seja acompanhada de um grelhador e de umas belas sardinhas”, disse a diretora-geral da Saúde, "desde que se cumpram as regras do distanciamento".

Por outras palavras, a diretora-geral da Saúde abriu a porta à realização de arraiais, chegando mesmo a admitir que poderiam ocorrer, desde que fossem "diferentes" dos do ano passado.

O problema é que, proferindo estas palavras, a responsável não só contradisse o que Mariana Vieira da Silva ditou ontem ao seu lado em conferência de imprensa — “festas populares e arraiais estão expressamente proibidos” — como também as medidas que o município de Lisboa implementou até dia 14, a ver:
  • Todos os arraiais, marchas e desfiles estão proibidos.
  • Todos os estabelecimentos estão proibidos de instalar no espaço público novo mobiliário urbano como cadeiras, mesas e equipamentos de confeção de alimentos, como grelhadores ou fogareiros e está proibida a expansão da área de esplanada.
  • Os cafés, pastelarias e similares também vão ter horário especial. Fecham às 19h00 e só abrem às 8 horas do dia seguinte.
  • Os restaurantes vão ter igualmente restrições no horário de funcionamento. Fecham o mais tardar às zero horas e só podem abrir às 8 horas do dia seguinte.
O problema, como quase sempre acontece, está nos detalhes. É que "esplanada", "música", "grelhador" e "sardinhas" são, por definição, os ingredientes de um arraial. E, na verdade, nenhum destes ingredientes está proibido per se. É a sua junção que está, por enquanto, banida, pois poderá proporcionar ajuntamentos.A título de exemplo, os restaurantes que já tivesses antes esplanadas ao ar livre, podem mantê-las, não podem é ter mobiliário novo e alargar o espaço. O que é proibido é instalar agora material com o propósito específico de, de forma mais ou menos declarada, celebrar a quadra.
E não foi só Lisboa a cancelar todas e quaisquer formas de festejo. Também o Porto se apressou a dizer que, não obstante a melhoria da situação pandémica na cidade, a autarquia ia impedir que o São João se celebrasse.

Tal confusão potencialmente problemática obrigou a diretora-geral da Saúde a retratar-se durante a tarde, admitindo um excesso de linguagem e lembrando que não se referia em exclusivo a Lisboa.

Findada a confusão, uma coisa é certa: este ano, Lisboa vai continuar a cheirar a flores e a mar, mas não a sardinhas.

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