Está fora de casa e fica com sede. Procura o dispensador de água mais próximo, tira um copo de plástico, enche, bebe e atira-o para o caixote do lixo tão convenientemente colocado ali ao lado. Matou a sede... e talvez um bocadinho do planeta. Dir-me-á: que dramática, Inês! É verdade, mas o exemplo é apenas para mostrar como pequenos atos do dia-a-dia, multiplicados por milhares de milhões de pessoas, podem ter um enorme impacto no mundo que partilhamos. O ambiente não conhece fronteiras, as alterações climáticas não conhecem fronteiras e a água também não.

Sabia que três em cada dez pessoas não tem acesso a água limpa para beber? Ou que seis em cada dez não têm acesso a serviços de saneamento básico? Ou que há zonas do mundo em que as pessoas gastam cerca de 20% do seu rendimento em água? E que, por outro lado, cerca de 40% da água tratada no mundo é desperdiçada?

Estes foram alguns dos números partilhados hoje por Jay Iyengar, vice-presidente e responsável de Inovação da Xylem, empresa que desenvolve soluções para a gestão eficiente de água e que opera também em Portugal.

E este está longe de ser um problema distante: a DECO apurou que em Portugal se desperdiça por ano pelo menos o equivalente a 197 piscinas olímpicas, um valor que exclui 20 municípios que não têm quantificado o volume das suas perdas. A estimativa da DECO, apesar dos dados em falta, é de que, por ano, Portugal desperdice mais de 180 milhões de metros cúbicos de água. Isto corresponde a deitar fora — sim, leu bem, deitar fora — cerca de 90 milhões de euros. O desperdício de água na rede de abastecimento foi aliás um dos temas que o cronista do SAPO24, Marcos Sá, colocou em cima da mesa durante o debate sobre Ambiente e Promoção do Interior, conduzido na nossa redação dias antes das legislativas deste ano, e cujas palavras vale a pena recordar: "A prioridade neste momento [em Portugal] tem a ver com as perdas de água nos sistemas de abastecimento em baixa, em todos os municípios. A média de perdas de água é de 40%; e 40% significa que seria possível abastecer quatro milhões de pessoas por ano gratuitamente".

Estes números ajudam a dimensionar um problema de água que para Jay Iyengar se pode dividir em três dimensões: escassez de água, dificuldade no acesso a água e resiliência — numa referência às secas e cheias, fenómenos que são cada vez mais comuns e que têm um impacto direto na vida das populações. Mas o foco da conversa esteve sobretudo ao nível do desperdício de água potável.

Jay Iyengar créditos: Harry Murphy/Web Summit via Sportsfile

A Xylem está a endereçar este problema utilizando sensores e inteligência artificial, por forma a identificar e reparar cirurgicamente fugas na rede. Drew Fitzgerald, co-fundador da JUST Water e seu colega de painel, assinalou que, por exemplo, já foram desenvolvidos pequenos robôs resistentes à água, capazes de percorrer canos e fazer micro-reparações. Além disso, conta Jay, com os dados que existem, é possível redirecionar o curso da distribuição da água quando identificada uma fuga. Um dos problemas na gestão de redes de distribuição de água é estar "cego" relativamente ao problema, salienta. Com os canos enterrados é particularmente difícil detetar falhas. "Não podes controlar o que não consegues ver", salienta Jay, assinalando que há casos em que as perdas de água se podem prolongar por meses ou anos porque simplesmente não se sabe que existe uma fuga.

Estas soluções tecnológicas são exemplo daquilo a que Paul O'Callaghan, CEO da BlueTech Research e produtor do documentário Brave Blue World, chama de 4.ª Revolução. A primeira, relata, foi quando os romanos criaram os canos; a segunda quando se começou a tratar a água para não propagar doenças, a terceira foi com o saneamento básico e, agora, a Internet das Coisas, os dados e a Inteligência Artificial colaboram para a próxima grande transformação no setor da água.

"Há água suficiente para todos desde que seja bem gerida", salienta Paul.

E a gestão da água que fazemos passa também por pequenas decisões do dia a dia (as tais que referia no arranque deste artigo), destaca o produtor. "Estejam conscientes das marcas que vocês usam, como é que elas usam água para produzir o que quer que seja que vocês estão a comprar", alerta.

Drew Fitzgerald créditos: Harry Murphy/Web Summit via Sportsfile

E nesta matéria a JUST Water tem uma história para contar. Lançada em 2015, é mais conhecida por causa do seu co-fundador, Jaden Smith, filho de Will Smith e Jada Pinkett Smith. Drew é o outro lado desta equação. A história começa com Jaden a surfar e a questionar-se sobre a quantidade de plástico que encontrava a flutuar no mar. O incómodo fê-lo abordar Drew e juntos criaram uma empresa que distribui água engarrafada. Mas o que é que isso tem de inovador? Antes de mais, 82% da garrafa que utilizam é feita a partir de materiais renováveis, nomeadamente papel e plástico produzido a partir de cana-de-açúcar. Depois, o modelo de negócio adotado é pouco comum: a JUST paga seis vezes acima do preço de mercado pela água que sobra — aquela que não é necessária para consumo da população local — à comunidade de Glens Falls, em Nova Iorque. Mas existe um compromisso: 50% do valor pago tem de ser utilizado para reparar a infraestrutura de distribuição de água da cidade. O preço da garrafa de 500 ml ronda 1,60 dólares (1,44 euros).

Falando em garrafas, são muitas as de plástico que o surfista de ondas gigantes Garrett McNamara — o que quebrou um recorde na Nazaré — encontra entre braçadas. McNamara partilhou o painel "Porque é que o Oceano não está condenado" com Diana Cohen, co-fundadora e CEO da Plastic Pollution Coalition. Ela que segurou a primeira parte da conferência porque o surfista teve dificuldades em estacionar no Parque das Nações e chegou atrasado (Gareth, não sei como está o teu português, mas... eu bem avisei).

A conversa andou sobretudo em torno dos plásticos descartáveis — que é como quem diz plástico de usar e deitar fora, como garrafas de água ou sumo, palhinhas, talheres, etc. Ainda em tom introdutório, Diana Cohen lamentou que este ano ainda se veja muito deste plástico na Web Summit — "parece mais do que no ano passado", diz — apesar dos esforços da organização, que colocou postos de reabastecimento de água em vários locais, substituiu os copos de plástico por copos de papel e incentivou os participantes a levar as suas próprias garrafas reutilizáveis para o certame.


As imagens do 2º dia da Web Summit 


Otimista com o futuro, Diana foi à Web Summit encorajar empresas e consumidores a fazer "escolhas mais inteligentes", isto é, que tenham um impacto positivo na sua saúde e ao nível do ambiente e dos ecossistemas. Para uma plateia de empreendedores, a CEO da Plastic Pollution Coalition defende que ser "plastic free" [livre de plástico] deve ser uma condição de partida dos novos negócios e não algo para remediar mais tarde. "Se estás a produzir um produto para outros deves perguntar-te se o que estás a criar é um problema, se é tóxico", defende.

Esbaforido, mas sorridente, McNamara juntou-se à conversa pouco depois e trouxe ideias para cima da mesa. Para o surfista, as grandes responsáveis pela poluição provocada pelo plástico são "as petrolíferas, são elas que estão a criar estes plásticos descartáveis", e parte da solução pode passar por taxar — ou multar — as grandes empresas que utilizam estes plásticos na sua produção sempre que os restos dos seus produtos são encontrados na natureza. A Coca-cola, a Nestlé e a PepsiCo podem ter uma palavra a dizer, elas que foram apontadas num estudo recente entre as multinacionais que mais produzem os resíduos de plástico que poluem o planeta. O relatório Break Free from Plastics, divulgado em outubro deste ano, acusa ainda estas empresas de não se responsabilizarem pela remoção do lixo causado pela sua atividade.

Quando sonha alto, o surfista fala num "género de íman capaz de atrair todo o microplástico que há no mar", mas há coisas que "são super fáceis" e podem ser feitas "já a partir de amanhã", ressalva, como garantir que os locais onde as pessoas trabalham, por exemplo, têm sempre postos de reabastecimento de água, facilitando e incentivando desta forma o uso de garrafas reutilizáveis. E aqui há uma distinção importante a fazer: nem todo o plástico deve ser demonizado, ressalva Diana. Uma garrafa de plástico que é utilizada várias vezes não é tão prejudicial como um copo que usamos em determinado momento para matar a sede e deitamos fora logo de seguida. "Deixem de usar plástico descartável, é irresponsável", resume.

A mensagem está em linha com os esforços levados a cabo em Portugal e na Europa para acabar com este tipo de plásticos de utilização única. O atual Executivo, liderado por António Costa, reiterou o compromisso de abolir, até ao final de 2020, os plásticos não reutilizáveis. Na Europa o prazo é distendido até 2021.

"Cabe-vos fazer escolhas conscientes todos os dias e não comprar plásticos descartáveis, e eles [as empresas] vão deixar de os produzir", insta McNamara.

E porquê agir? "Por nós, pelo planeta e pelas futuras gerações", diz Diana. Não será isso motivo suficiente?

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