A covid-19 obrigou a parar, por falta de material de proteção e desinfeção, mas no recomeço as solicitações multiplicaram-se. Das 27 parcerias em março, só na Covilhã, a Xico’s passou a ter mais de cem também no Fundão e Castelo Branco, onde se instalou, e quase outros tantos contactos a aguardar resposta.

Se antes da pandemia, a empresa funcionava com 16 pessoas, são agora 52, entre as quais 23 com vínculo laboral.

Quando começaram, há dois anos, a fazer entregas no carro particular, com recurso ao telemóvel, e o sótão de casa a servir de armazém, João Rodolfo, de 22 anos, e André Mendes, de 24, estudantes de Design Industrial na Universidade da Beira Interior (UBI), não antecipavam um crescimento tão rápido.

Por vezes, é no desvio que está o caminho. Que o digam João e André. Deram-se conta que quando faziam os trabalhos para a universidade, como as maquetes, não havia onde comprar material às horas a que se costumavam dedicar a essas tarefas.

Pensaram que, fazendo esse tipo de entregas à noite, supriam uma necessidade também de muitos colegas. A pensar na rentabilidade, juntaram ao material de papelaria artigos de quiosque e três restaurantes: um vegetariano, um de sushi e outro de comida tradicional, mas desde cedo a restauração começou a registar a maior procura.

A Xico’s, nome em homenagem ao amigo falecido, resultou de "uma necessidade" e de "uma mistura de ideias que se foi alinhando até dar nisto", explica André Mendes, a quem, tal como João Rodolfo, o improviso da vida mudou os planos. Passaram a dedicar-se à empresa e deixaram os estudos em suspenso.

Cinco meses depois de terem identificado "a oportunidade de negócio", conta João Rodolfo, compraram as primeiras três motas, com recurso a um empréstimo.

"Chegámos a um ponto em que se deu o ‘boom’ e decidimos fazer uma coisa a sério. Montar escritório, recrutar estafetas, investir em motas, e foi aí que a coisa começou a crescer, a desenvolver", recorda André Mendes, na base logística da Covilhã, que entretanto se tornou pequena, com capacetes na parede, um cabide com casacos refletores, terminais de multibanco numa prateleira e as mochilas térmicas empilhadas junto à janela.

Com o confinamento, os pedidos dispararam e durante o estado de emergência de novembro o número de clientes e de parceiros voltou a aumentar.

André Mendes frisa que os clientes se fidelizaram durante o confinamento e o serviço deixou de ser apenas uma questão de comodismo. "Tornou-se de um luxo numa necessidade e depois ficou um hábito", sintetiza o jovem empresário.

Pedro Nascimento, 40 anos, informático, é cliente da empresa desde o início, mas o teletrabalho fá-lo recorrer mais vezes à Xico’s, pela possibilidade de ter acesso aos restaurantes sem ter de se deslocar.

Entretanto surgiram duas multinacionais do setor na Covilhã, mas Pedro Nascimento privilegia a empresa que já conhecia, para estimular a economia local e por preferir que o dinheiro fique na região.

Enérgica, auricular na orelha, a receber os pedidos ao telefone, enquanto cozinha e atende ao balcão, Hortênsia Martins, 42 anos, proprietária da churrasqueira Frango na Brasa, prepara mais uma encomenda para fora. Chama a todos os estafetas Xico. Hoje é "o Rapunzel", pelo tamanho do cabelo.

A parceria com a Xico’s ganhou preponderância quando as pessoas passaram a sair menos à rua. "É vantajoso para ambas as partes", considera a empresária.

Apesar de terem aparecido outros serviços, prefere trabalhar com uma empresa "da Covilhã" do que "com uma multinacional". "Dou prioridade à Xico’s por ser uma empresa jovem, dinâmica e local", acentua.

A entrega de refeições acabou por se mostrar fundamental para que outros negócios continuem de portas abertas, como a Casa das Muralhas, que sofreu "um golpe duro" com a covid-19 e teve de fechar. "O verão quase fez esquecer o efeito da pandemia", comenta Jaime Rendeiro, 32 anos, mas a afluência voltou a ser diminuta e tem sido o ‘take-away’ a amenizar "o rombo".

Com um conceito de “fine dinning", teve de "tentar alternativas" que permitissem "chegar aos clientes". Para o proprietário, a importância das entregas "foi tremenda" e 80% desse serviço é feito através da Xico’s, por valorizar a proximidade.

"É muito mais fácil reportar problemas, dar sugestões e sermos ouvidos, coisas que com as plataformas mais globais é mais difícil", enfatiza Jaime Rendeiro.

Pedro Ribeiro, 24 anos, desafia a soberania do relógio, a calçada molhada, e isso já lhe valeu "umas dez quedas". É estafeta há mais de um ano a tempo inteiro, mas foi o também licenciado em Design Multimédia quem desenvolveu a mais recente plataforma ‘online’ da empresa.

João Rodolfo, voz pausada, explica que desde março foram comprando mais motas, já saldaram o segundo crédito e as viaturas mais recentes já foram pagas "com recursos próprios".

A Xico’s dá lucro e as perspetivas são de crescimento. João Rodolfo prevê "mais uma ou duas expansões" e depois apostar "no franchising", mas mostra-se preocupado com os efeitos da covid-19 nos parceiros e com a "possibilidade de que nem todos consigam sobreviver".

*** Ana Ribeiro Rodrigues (texto), Franque Silva (vídeo) e Mário Cruz (fotos), da agência Lusa ***

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