Na manhã de 1 de novembro de 1755, um terramoto destruiu quase completamente Lisboa. Em dia de Todos os Santos, as igrejas da capital estavam repletas de gente que não esperava que tudo mudasse dali a instantes. Às 9h30, em plena oração, a terra começou a tremer — e assim ficou por cerca de sete minutos, atingindo os 8,75 pontos na Escala de Richter, só com dois pequenos intervalos.

Casas ficaram completamente destruídas, igrejas, conventos e outros edifícios arderam, pessoas morreram e ainda veio um maremoto que continuou a levar a onda de sofrimento à cidade. Feitas as contas, dois terços das ruas lisboetas sofreram danos e só três mil casas das vinte mil existentes ficaram habitáveis.

Quanto às vidas perdidas, o Núncio de Lisboa calculou quarenta mil mortos, outros falaram em setenta ou noventa mil, mas Sebastião José de Carvalho de Melo, o futuro Marquês de Pombal, reduziu o cálculo a seis ou sete mil, embora os números mais fidedignos, provenientes de um inquérito enviado às paróquias do Reino, apontassem para quinze mil vítimas.

Calculada a desgraça, foi preciso agir e mudar de vida. A reconstrução arquitectónica fez-se de maneira diferente — surgiu a chamada gaiola pombalina, uma construção anti-sísmica — e foram implementadas medidas que visavam alterar a ordem económica vigente, o que se repercutiu na própria sociedade e até no sector industrial e comercial.

No fundo, tudo o que aconteceu se baseia na frase atribuída ao Marquês de Pombal, como resposta a um D. José I desorientado com o que tinha diante dos olhos: era preciso "sepultar os mortos e cuidar dos vivos".

Neste 1 de novembro de 2021, a terra que treme diz respeito a mais do que uma cidade. E a onda que ameaça destruir tudo não tem outro nome que não alterações climáticas. Por isso, qual Sebastião José de Carvalho de Melo do século XXI, mais de 120 líderes políticos e milhares de especialistas, ativistas e decisores públicos estão reunidos em Glasgow, na Escócia, na 26.ª Conferência das Nações Unidas sobre alterações climáticas, a COP26, para tentar salvar o planeta da destruição.

Discursos apocalípticos, uma promessa indiana a cinquenta anos de distância e a China em tom evasivo marcaram o primeiro dia de cimeira de líderes mundiais na COP26. Vejamos então alguns dos avisos e poucas promessas que foram feitos:

  • O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, apelou aos líderes mundiais para salvarem a humanidade das alterações climáticas, alertando que se está "a cavar a nossa própria sepultura" e que é tempo de dizer "basta". "Basta de brutalizar a biodiversidade, basta de matarmo-nos a nós mesmos com carbono, basta de tratar a natureza como uma latrina (…) e de cavar a nossa própria sepultura”, afirmou.
  • O naturalista britânico David Attenborough apelou a que se possa trabalhar em conjunto e salvar o planeta do aquecimento global. "Se somos suficientemente fortes para desestabilizar o nosso planeta, também somos suficientemente poderosos para o salvar se trabalharmos juntos".
  • Boris Johnson, primeiro-ministro britânico, avisou que a "raiva e impaciência do mundos serão impossíveis de conter" se não conseguirem entender-se para conter as alterações climáticas, uma "máquina do apocalipse" que é preciso desarmar.
  • A chanceler alemã, Angela Merkel, defendeu que fixar um preço para as emissões de dióxido de carbono é a melhor maneira de garantir que as indústrias e atividades económicas se empenham em atingir a neutralidade carbónica. "Se o fizermos, podemos garantir que as nossas indústrias, as nossas atividades económicas desenvolvem as melhores tecnologias e métodos para atingirem a neutralidade carbónica", frisou.
  • O chefe do Governo espanhol, Pedro Sánchez, anunciou um aumento da contribuição de Espanha de 50% a partir de 2025 para o Fundo Verde para o Clima, correspondendo a 1.350 milhões de euros anuais. Dirigindo-se aos líderes mundiais, o chefe do Governo espanhol pediu à comunidade internacional mais ambição para travar as alterações climáticas, considerando que o objetivo orçamental do Fundo é uma das “provas de fogo” desta cimeira.
  • A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou mais 4,3 mil milhões de euros de financiamento a países vulneráveis. A dirigente europeia destacou a importância de mobilizar o financiamento para apoiar os países vulneráveis a adaptarem-se e avançarem para energias renováveis. "A Equipa Europa já é o maior fornecedor de financiamento climático. Quase metade do nosso financiamento é para adaptação", vincou.
  • A Índia, terceiro país mais poluidor do mundo, atingirá a neutralidade carbónica em 2070, anunciou o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, reduzindo até 2030 as suas emissões poluentes em mil milhões de toneladas.
  • Numa declaração escrita enviada à cimeira, o Presidente do país do mundo que mais polui a nível mundial, Xi Jinping, centrou-se na defesa do "multilateralismo" como "a receita certa" para enfrentar as alterações climáticas". Sem anunciar nenhuma alteração substancial às metas que a China já estabeleceu, afirmou que é dos países mais desenvolvidos a responsabilidade de fazerem eles próprios mais e ajudarem os países em desenvolvimento a fazerem melhor.

Ao jeito do grande terramoto em Lisboa, que deixou a população em alerta, com novas medidas a surgir, parece que o mundo precisa mesmo de uma "gaiola pombalina" para continuar a haver mundo e podermos "cuidar dos vivos".

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