Joe Gardner, um professor de música numa escola preparatória em Nova Iorque, tem um sonho: ser um pianista de jazz profissional. Mas a sua história, que parece ir numa certa direção, muda por completo quando um incidente o atira para um lugar fantástico conhecido como "O Grande Antes", o sítio onde as almas novas descobrem e ganham as suas características antes de descerem à Terra para nascerem numa pessoa.

O que há antes da vida, o que há depois e o que é ser alguém e lutar pelos sonhos. Esta é a premissa do novo filme da Pixar, "Soul", que estreou no serviço de ‘streaming' Disney+ a 25 de dezembro. É a primeira longa-metragem do estúdio de animação que se centra num protagonista negro, interpretado pelo ator Jamie Foxx — e foi incluída na lista de melhores filmes de 2020 do antigo presidente dos Estados Unidos Barack Obama.

Contudo, se a história aparenta ter sido bem recebida por todos — até porque traz uma mensagem apropriada ao contexto de pandemia que se vive em todo o mundo, fazendo refletir sobre o sentido da vida —, o mesmo não se pode dizer quanto à versão portuguesa do filme.

Poucos dias depois da sua estreia, foram várias as personalidades que mostraram o seu descontentamento: o filme tem um protagonista negro e a voz de atores negros na versão original mas, na versão portuguesa, a dobragem foi feita por atores brancos, nomeadamente por Jorge Mourato, que dá voz à personagem principal.

As críticas levaram a Disney a reagir ao sucedido. "Esforçamo-nos por ser inclusivos nos nossos castings, contudo reconhecemos que há trabalho a fazer e estamos comprometidos em diversificar os talentos nas nossas dobragens, independentemente da geografia onde atuamos", disse uma fonte à revista Sábado.

Mas as vozes críticas continuam a surgir. Hoje, 2 de janeiro, diversas personalidades da cultura e sociedade portuguesa assinaram uma petição para uma nova versão portuguesa do filme, pedindo a entrada em cena de vozes negras que representem a "importância histórica" do momento.

"Em Portugal, a Disney tratou este filme como mais um, não tendo o mesmo critério e ignorando a intenção original na escolha de atores exclusivamente afrodescendentes para dar voz aos personagens. Não está em causa o habitual bom trabalho em dobragens feitas em Portugal ou a qualidade dos atores da versão Portuguesa mas há aqui a expectativa de respeito pela intenção original e pelo que este representa historicamente", diz a petição hoje tornada pública.

O texto é assinado por sete personalidades: Ana Sofia Martins, Dino D´Santiago, Mamadou Ba, Mayra Andrade, Nástio Mosquito, Pedro Coquenão e Sara Tavares. Às 21:00 de Lisboa, a petição tinha mais de 1.700 assinaturas.

Os signatários sustentam que o filme tem o "propósito assumido de querer retratar a cultura musical e a comunidade afro-americana", sendo que "todo o processo foi muito rigoroso na escolha de argumentistas, equipe técnica e, claro, dos atores que dariam vida a este filme assumido como um manifesto contra a iniquidade na indústria do entretenimento".

"A nossa história está cheia de factos consumados que não podemos reparar mas podemos aprender com eles, reconhecendo-os para podermos avançar. O que vamos fazer em 2021 está nas nossas mãos e a avaliação sobre a importância deste cuidado ou da falta dele cabe, antes de mais, a quem não se vê aqui representado. A responsabilidade de não aceitar, não relativizar ou não deixar normalizar é de cada um. O que foi um equívoco e descura na tradução para Portugal pode e deve ser reparado. Não deixamos passar mais uma oportunidade de fazer a coisa certa", pode ler-se.

No final do texto é pedido que a Disney e Pixar apresentem uma nova versão portuguesa, "respeitando a intenção original e reconhecendo a importância histórica deste momento". "Porque este filme não é apenas mais um filme e o que ele representa importa", relembram.

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