Vitorino Silva, ou Tino de Rans, como ficou conhecido dos portugueses depois de se candidatar à presidência da República, apanhou um valente susto: o Tribunal Constitucional negou o registo do RIR - Reagir, Incluir, Reciclar por falta de assinaturas: foram validadas 5.891, quando o mínimo exigível para formar um partido são 7.500.

Tino tinha a certeza de ter entregado mais de 10.500, mas o Tribunal Constitucional garantia que não. A agonia durou vários dias, até o Tribunal Constitucional reconhecer as evidências: a 4.ª Secção perdera uma caixa com um número indeterminado de assinaturas e seria feita nova contagem. Feito o devido apuramento, "foram alterados os valores totais obtidos: 10.688 subscritores requerentes, 7613 cidadãos eleitores validados e 3055 cidadãos não deram cumprimento aos requisitos legais exigidos, na sua maioria por motivo de falta de indicação de número de cartão de cidadão".

As andanças eleitorais não são completamente novas para Tino de Rans, que em 2016 se candidatou à Presidência da República, conseguindo 3,28% dos votos (152.094 votos). Ficou a meio da tabela, à frente de Paulo Morais ou de Henrique Neto e apenas 44.626 votos o separaram de Maria de Belém, ex-ministra do governo PS.

Desta vez, concorre a 20, dos 22 círculos eleitorais. "Não concorremos nos Açores, não por falta de lista, mas porque a candidata, uma professora, julgou que a apresentação da candidatura seria mais tarde. Em Beja, a candidatura chegou atrasada cinco minutos".

O que aconteceu, afinal, com as assinaturas entregues no Tribunal Constitucional, obrigatórias para se registar um partido?

Entregámos mais de 10.500 assinaturas, mas eles só encontraram oito mil e tal, uma caixa delas estava ali para um cantinho do Tribunal Constitucional. Eles diziam que eu não tinha entregado, eu dizia que tinha entregado.

Não há um comprovativo da entrega das assinaturas?

Sim, mas o que entregam é um papel a dizer que eu entreguei o processo, não contaram logo ali o número de assinaturas ou de caixas. Nós contámos. Só sabem o número de assinaturas depois de as conferir, mas eu sabia que tinha à volta de oito mil limpinhas. Quando me candidatei à presidência da República, entreguei 8.118 e chegaram. Agora, um processo igual, a mesma equipa, conferimos tudo. Desta vez entreguei mais de dez mil, sabendo que pelos menos oito mil estavam certas. Mas eles [Tribunal Constitucional] diziam que só tinham oito mil e dessas, validaram cinco mil e tal.

São necessárias 7.500. Como é que ficou quando o informaram que faltavam assinaturas?

Diziam que iam dar-nos um tempo reduzido para arranjarmos mais assinaturas. E eu pensei: "Não pode ser". Tinha a certeza de ter entregado mais de dez mil, não era possível faltarem tantas. Passaram-se dias e cheguei a pensar que tinha perdido uma caixa. Só que eu tinha fotocópias de tudo e queria ir lá conferir. Até que me telefonam a dizer que tinham encontrado uma caixa com um lote indeterminado de assinaturas que por lapso não foram contadas. Nem fomos notificados, mas como o registo do partido nunca mais saía, fui lá perguntar e foi assim que eu soube. A minha gente estava lá e já ninguém acreditava em mim, achavam que eu é que me tinha distraído, sabe como é.

RIR não é inocente, é política à séria. Gosto muito de política, sou um homem que gosta de estar no meio do povo, dou muita importância ao voto

RIR de quê?

RIR não é inocente, é política à séria. Gosto muito de política, sou um homem que gosta de estar no meio do povo, dou muita importância ao voto, à força do voto, por isso sei que o povo precisa de vez e de voz.

Qual é o objetivo do partido, em primeiro lugar?

Esta é a altura certa para ajudar a combater a abstenção. Não posso esquecer-me de que há bem pouco tempo concorreram às eleições europeias 17 partidos, e só 30% dos eleitores votaram. É preciso haver partidos à séria, que mobilizem as pessoas e as levem a exercer o maior património que têm, o direito de voto.

Somos um partido sem extremos, não gostamos de radicalismos, as pessoas estão fartas de radicalismos

Porquê RIR?

Porque Portugal vive numa democracia fictícia. O nosso I é de incluir, e fico muito triste quando se fala em incluir e nós fomos excluídos dos debates políticos. Têm medo da voz do povo porquê? Questiono os poderes que existem e questiono se o principal poder não será a comunicação social. O símbolo do nosso partido é 360 graus, cabemos todos, somos um partido sem extremos, não gostamos de radicalismos, as pessoas estão fartas de radicalismos - é muito fácil dar respostas radicais - queremos estar todos unidos, as pessoas querem estar todas à mesma cota.

créditos: Pedro Marques | MadreMedia

Afirmou que RIR não é inocente. Em que sentido?

Tentei perceber quais as preocupações do mundo e quis resumi-las em palavras. Estamos numa fase em que o planeta está a ficar desequilibrado e, para o equilibrar, é preciso reagir, e esse é o significado do primeiro "R". Porque o Homem comporta-se como se fosse dono disto tudo, mas é apenas mais uma espécie. Eu até estou à vontade, nasci em 1971 [19 de abril], tive todas as condições. Mas tenho pena que os meus filhos, os meus netos venham a dizer: "O meu pai, ou o meu avô, é que teve sorte, nasceu na mouche. Nós nascemos um bocadinho ao lado". Cada vez mais as pessoas que vierem para este planeta vão estar mais ao lado. Não somos só o partido das pessoas, somos também o partido das árvores, eu quero o voto das árvores. E isso dá origem a outro R, de reciclar.

Ou seja?

Reciclar simboliza o pequeno gesto, o pequeno contributo de cada um. A colaboração de todos que pode fazer a diferença. Fico muito triste quando vejo que houve eleições em maio, para as europeias, e parece que ainda não houve eleições europeias, há cartazes por todos os lados, implantados em rotunda. Os partidos têm muitas responsabilidades e isto é uma falta de vergonha. O mínimo que um partido com responsabilidade pode fazer é: há eleições no domingo, segunda-feira tira os cartazes. O RIR não vai colocar cartazes, porque o povo quer que se poupe, não só dinheiro, mas também a natureza. Só usaremos material da reciclagem, dando-lhe nova vida. Não foi à toa que fiz o primeiro congresso do partido no coreto do Jardim de São Lázaro, no Porto, onde havia mais árvores do que pessoas.

Quando tinha 15, 16, 17 ou 18 anos, queria o que todos os jovens querem: queria bola, queria tascas, queria amor, queria voar

Sei que já contou esta história dezenas de vezes, mas quero saber o que o levou a interessar-se por política.

Nasci numa casa em colchão de palha, em Folhelho, que fica em Rans, [concelho de Penafiel], mesmo ao lado da Junta de Freguesia. E, desde pequenino, via as pessoas juntarem-se ali. Mas quando tinha 15, 16, 17 ou 18 anos, queria o que todos os jovens querem: queria bola, queria tascas, queria amor, queria voar. Tudo menos política. Um dos meus irmãos, somos oito, o Neca [António] - era o nosso Neca, o nosso Quim, o nosso Turo, o nosso Zé Manel, o nosso Nando, a nossa Liza... - dez anos mais velho do que eu, foi para o Porto com 13 anos e na altura do 25 de Abril conseguiu perceber o que era a revolução. E ele gostava muito de Rans, era muito ligado à nossa terra, que é um presépio, olhava para o mapa de Portugal e via Lisboa, via Coimbra, via Santarém, mas não via Rans. Era um homem que gostava de incomodar, um visionário, mas chamavam-lhe louco.

Foi assim que entrei na política, pela morgue de um hospital

Foi ele que lhe incutiu o gosto pela política?

O Neca estava cansado que lhe chamassem louco. No Natal de 1992, à mesa, quando estávamos todos juntos em família, ele vira-se para nós e diz: "Eu não posso mais, isto é uma terra de controladores, a única pessoa capaz de pôr Rans no mapa é o Vitorino". O Vitorino era um dos irmãos que se ria; eu dizia, "esta gajo está parvo, está tolo". A minha mãe passava o tempo a pedir-lhe para "não meter ideias na cabeça do miúdo". No Ano Novo ele voltou a perguntar-me: "Já decidiste? Vais pôr Rans no mapa". Entretanto fui para a tropa, e no dia 5 de janeiro de 1993 vão lá buscar-me: "Vai-te embora que há problemas em casa". O Neca tinha morrido de acidente. Fui ter à morgue do hospital, olhei para ele e disse: "Vou pôr Rans no mapa". Foi assim que entrei na política, pela morgue de um hospital. O meu pai também tinha morrido de acidente de trabalho. Trabalho é honra. Mas fui para a política contra tudo e contra todos, as pessoas riam-se.

Por que motivo se riam as pessoas?

Nós somos gente muito humilde. O meu pai morreu tinha eu nove anos de idade. A minha mãe ficou com oito filhos pequenos, uma mulher sem apoios. E quem fez de novo pai foi um campo que tínhamos, em que cavávamos o campo para plantar hortaliças, onde tínhamos galinhas, tínhamos porcos... Aquele campo ajudou a nossa mãe a criar-nos, a nunca termos de pedir esmola. A nossa mãe, quando o nosso pai morreu, uma das coisas que disse naquela mesa foi "nunca tenham vergonha de dizer que são filhos de Toneca Covilhão. E o vosso pai nunca vos quereria ver a pedir esmola, porque quem pede esmola perde a dignidade". Mas muitos olham para mim como se um simples calceteiro não pudesse pensar, não pudesse ter ideias.

Muitos olham para mim como se um simples calceteiro não pudesse pensar, não pudesse ter ideias

E exatamente que ideias tem?

A nossa primeira grande luta é a dos portugueses pelo mundo - e, por falar nisso, somos contra o aeroporto no Montijo. Porque não ter um aeroporto a meio caminho entre o Porto e Lisboa, ao centro, a funcionar como íman de um país? E assim aproveitávamos a Base [Aérea] de Monte Real. O Alentejo todo elege oito deputados, enquanto o centro do país inclui Coimbra, Leiria, Aveiro, Fundão... Portugal não pode ser só Lisboa e Porto, é por isso que também defendemos a regionalização. Fico muito triste quando vejo que é no Terreiro do Paço que estão os campos que apanham a água. Lá, soltam dinheiro para os que estão ao pé da porta, que é onde há gente, onde estão os votos. E o RIR acha que os políticos também têm de investir onde não estão os votos, isso é que é difícil. Sintra, Cascais, Lisboa, Porto, Gondomar, Matosinhos, Vila Nova de Gaia, esses são os campos regados. O investimento deve incluir todas as regiões, não deve ir apenas para onde há votos.

O RIR acha que os políticos também têm de investir onde não estão os votos, isso é que é difícil

Mas o que ia a dizer sobre o Alentejo?

O Alentejo elege dois deputados por Portalegre, três por Beja e três por Évora. Porque não fazer um grande círculo eleitoral? Faz sentido eles não terem poder de decisão? Porque só com estes deputados, eles não tem poder de decisão. Não há portugueses de primeira e de segunda.

Acredita que as regiões se entenderiam sobre isso? Um dos defeitos de Portugal é a dificuldade de associação...

As briga são normais e é importante as pessoas pensarem diferente. A minha mãe teve oito filhos, era uma pessoa sábia, e dizia com orgulho que eram os oito pontos cardeais. Conto isso no livro que escrevi e apresentei em junho na biblioteca de Nova Iorque. Outra das máximas do nosso partido é que os descontentes contam, por isso a importância dos nossos emigrantes. Às vezes os partidos não ligam aos descontentes, pensam que se vão abster, abster, abster. Há pais que têm três filhos e dão aos três a mesma educação. A minha mãe percebeu que tinha de dar educações diferentes a cada um de nós, porque éramos todos diferentes. Era uma pessoa muito à frente no tempo. E dizia uma coisa engraçada, que penso que é muito importante para a vida política: quando estávamos chateados à mesa, ela levantava-se dizia: "Quem manda sou eu, e mais, nunca aprofundem o que não tem sentido". Penso que na política as pessoas aprofundam muito o que não tem sentido, perdem muito tempo e dão muito destaque ao que não tem sentido.

Eu, se fosse líder do PS ou do PSD, tinha vergonha de debater só com quatro ou cinco partidos. Era a mesma coisa do que se o Porto, o Benfica e o Sporting só jogassem entre eles e tivessem medo de jogar contra o Famalicão

E o que é que não tem sentido?

Não tem sentido, por exemplo, um partido defender uma coisa quando está no poder e depois, quando vai para a oposição, defender o contrário. É hipócrita. Outra coisa que não tem sentido é as urnas serem abertas ao mesmo tempo, o quadradinho ser do mesmo tamanho, mas uns vão a debates e outros não. É uma democracia inquinada, uma democracia fictícia. Eu, se fosse líder do PS ou do PSD, tinha vergonha de debater só com quatro ou cinco partidos. Era a mesma coisa do que se o Porto, o Benfica e o Sporting só jogassem entre eles e tivessem medo de jogar contra o Famalicão - que atualmente vai em primeiro lugar. O Porto perdeu contra o Gil Vicente... Os grandes não se querem encontrar com os pequenos porque têm medo de perder, os pequenos são imprevisíveis. Não gosto do termo pequenos, prefiro novos, recentes, porque o RIR é um partido novo. Mas o nosso alvará é do tamanho dos outros alvarás, foi registado da mesma forma. É um direito que temos, à igualdade, a palavra mais fina da democracia.

créditos: Pedro Marques | MadreMedia

O que acredita que vai trazer de novo à Assembleia da República, se for eleito?

Precisamos de um Parlamento com Tino, precisamos de tino na política. Eu gosto muito da palavra tino, que significa equilíbrio. E gosto de ver um bocadinho do povo na primeira fila, porque eu olho para a primeira fila do Parlamento e não vejo ali povo, povo mesmo.

Nunca me perdoaram isso, eu saber o que estava a fazer, não ser tolinho

É preciso mudar a lei, para que os pequenos partidos possam concorrer em igualdade de circunstâncias?

Eu até não tenho razão de queixa, porque dez milhões de pessoas me conhecem, toda a gente sabe quem é o Tino. Quando estive no Congresso, as pessoas riam-se. Eu falei na terra, na arte, na família, e as pessoas riam-se, porque não estão habituadas a ouvir uma pessoa genuína falar. Riram-se e algumas ainda continuam a rir. As pessoas pensaram que eu era um produto do marketing, mas não, eu cheguei aqui sozinho. Venho de Rans e não ia falar para dentro do Coliseu, quando percebi que há gente cá fora, milhões. E nunca me perdoaram isso, eu saber o que estava a fazer, não ser tolinho.

Perguntas à queima-roupa

O que fazem ou faziam os seus pais?

O meu pai era cordoeiro, a minha mãe era agricultora e vendedora de ovos.

Quem são os seus amigos?

Os meus amigos - a família não conta... A palavra amigo é uma palavra de que gosto muito, porque não tenho amiguinhos nem amigões. É quase como a palavra povo, não há o povinho e nem há o povão. Os meus amigos são poucos, e não quero ter muitos.

Quem foi o pior primeiro-ministro de todos os tempos?

Em Portugal, o pior primeiro-ministro foi Cavaco Silva, o homem que derreteu as pescas e a agricultura, e Portugal demorou muito tempo a recuperar.

Qual o seu maior medo?

É o medo de não ter medo.

Qual o seu maior defeito?

O meu maior defeito é talvez a minha maior virtude, que é ter o coração ao pé da língua.

Quem é a pessoa que mais admira?

Catarina. Catarina, mas a Silva, a minha filha.

Qual a sua maior qualidade?

Sou uma pessoas desinteressada. Eu quero bocadinhos de felicidade, não quero a felicidade toda de uma vez, não quero apanhar uma overdose de felicidade. Não me importo de ser feliz aos pouquinhos.

Qual a maior extravagância que já fez?

Acho que foi ser pai. Foi a coisa mais grandiosa, ser pai.

Qual a pior profissão do mundo?

Político. Político para mim não é profissão, mas aqueles que vão para a política a pensar que político é profissão, essa é a pior profissão do mundo.

Se fosse um animal, que animal seria?

Eu gostava de ser um vegetal e gostava de ser um animal. Como vegetal gostava de ser uma árvore, uma árvore com pernas. E se fosse um animal, gostava de ser um homem com asas.

Quem não merece uma segunda oportunidade?

Eu já errei tanto e vou continuar a errar... Há milhões de oportunidades.

Quem foi o melhor presidente de sempre?

Ramalho Eanes.

Se fosse uma personagem de ficção, que personagem seria?

Eu gostava de ser o Toneco. O Toneco é a personagem da longa-metragem que estou a produzir, "Santo António à Deriva", e que vai para o mundo para aprender. Eu quero ser conhecido como um "Pequeno Leonardo", não quero ser o melhor a nada, quero experimentar um bocadinho de tudo. O Toneco é uma personagem do meu livro "A... Corda P'rá Vida", inspirada no meu pai.

Que traço de perfil obrigatório tem de ter alguém para trabalhar consigo?

Comigo é fácil trabalhar, porque a coisa de que eu mais gosto é delegar. Seriedade.

Qual o seu filme de eleição?

O filme que mais gostei, que mais vi, foi "Titanic".

O que o faz perder a cabeça?

Uma bola ao poste no último minuto da Selecção Nacional e que não é golo.

O que o deixa feliz?

Respirar.

Um adjetivo para Marcelo Rebelo de Sousa?

O adjetivante.

Como gostaria de ser lembrado?

Queria ficar na história como o pai da Catarina.

Com quem nunca faria uma aliança?

Com o diabo. Eu não tenho problemas de me sentar com A ou com B, cabemos todos.

Descreva a última vez que se irritou.

É muito difícil eu irritar-me. Às vezes, quando estou distraído e bato com o martelo no dedo.

Tem uma comida de conforto ou de consolo? Qual?

Sou augado por línguas de bacalhau. Massada de línguas de bacalhau. E sou um devoto da sopa.

Se fosse primeiro-ministro, qual a sua prioridade - o que mudaria imediatamente quando chegasse ao governo?

O sistema eleitoral. Dava direito de antena à emigração.

A que político compraria um carro em segunda mão?

Comprava o carro, se gostasse dele, no stand onde o politico o deixasse. De certeza que o carro não ia valer mais ou menos por ser do político.

Há pouco falava de novos círculos eleitorais. É preciso reformar o sistema eleitoral?

Penso que temos de fazer círculos maiores para as regiões serem mais fortes. Aqueles deputados de Évora, de Beja, de Portalegre quase não contam. Às vezes vejo as pessoas atravessarem aqueles mares calmos em que morre tanta gente... Neste momento, as pessoas estão todas no litoral e o barco vai virar. Temos de levar o país a todos, temos de jogar no campo todo. E para isso tem de haver políticos com coragem.

O que é preciso fazer para ocupar também o interior?

É criar incentivos. Incentivos com força, não é só para alimentar agenda, por circunstância, para o número e para o flash. Muitas vezes as pessoas são cobaias para alimentar o ego dos políticos e fazem-se umas experiências.

Há dias telefonaram-me de uma empresa de sondagens a perguntar onde é que eu ia votar. Disseram o nome de quatro ou cinco partidos e, quando respondi RIR, desligaram a chamada. Uma vergonha

Se está tudo assim tão mal, se os políticos no poder são tudo o que diz, como justifica as sondagens apontarem António Costa e o governo PS como vencedores incontestáveis?

São as empresas de sondagens. A dignidade de um partido começa quando o chamam pelo nome, mas a nós, RIR, chamam-nos "outros". Ainda não tivemos um frame de televisão, nem na RTP, nem na SIC, nem na TVI. Um partido que existe e que foi registado, que leva a política a sério. Há dias telefonaram-me de uma empresa de sondagens a perguntar onde é que eu ia votar. Disseram o nome de quatro ou cinco partidos e, quando respondi RIR, desligaram a chamada. Uma vergonha. Quem é que paga as sondagens, que é que as patrocina? Somos os "outros". Nas eleições presidenciais tive 152 mil votos e na quinta feira anterior fizeram uma sondagem que me dava 0,1%. A três dias das eleições. Tive 3,28%, quase 33 vezes mais. Não há respeito, penso que toda a gente sabe disso.

O Tino mudou?

Penso que não, eu sou autêntico. Quem usa as frase do "fazer melhor" ou "somos Portugal" são as agências de comunicação, não são os políticos. O que eu percebi foi que não há facas com quilómetros. Isso percebi, ninguém espeta uma faca a um quilómetro.

Nos grandes partidos as pessoas não podem dizer o que pensam, perde-se a liberdade

Em 1993, foi eleito presidente da Junta de Freguesia de Rans pelo Partido Socialista, o mesmo em 1997. Agora concorre contra o PS. O que mudou?

Nos grandes partidos as pessoas não podem dizer o que pensam, perde-se a liberdade. Temos de funcionar como cordeiros e não faz sentido a pessoa não poder dizer o que pensa.

E agora, como se posiciona no espectro esquerda-direita?

Não tenho dúvida nenhuma de que vamos ter um cantinho no Parlamento. Mas as cadeiras são todas iguais, quando me pergunta onde me vou sentar - já olhei para o Parlamento e estive lá na tomada de posse de Marcelo [Rebelo de Sousa] - não vejo diferença. Para mim, a esquerda e a direita foi uma coisa que inventaram: dividir para reinar.

Os emigrantes são mais portugueses do que nós, gostam muito mais de Portugal do que nós

Fez a apresentação do seu livro em Nova Iorque e diz que o partido quer reforçar a importância dos emigrantes. Já tinha estado fora do país?

O meu passaporte ainda não tinha nenhum carimbo, mas já tinha viajado para fora do país. Mas uma das coisas que tenho a certeza é que estamos fortes junto dos emigrantes, agora que estive na América, que corri vários países, estive a ouvir os emigrantes. Os emigrantes são mais portugueses do que nós, gostam muito mais de Portugal do que nós. E nas presidenciais fiquei em segundo em Nova Iorque, fiquei em segundo na América.

Do que se queixam e quais são as aspirações dos emigrantes?

Dizem que se tivéssemos bons políticos e bons banqueiros, éramos dos países mais ricos do mundo. Tenho a certeza de que nenhum emigrante vota num banqueiro ou num político daqueles que teve ligações aos bancos. Estive na América dez dias, estive em Nova Iorque, em Newark, onde há gente que foi para lá há 50 anos e ainda fala português. Têm muito orgulho e aquela pedra no sapato, não me falem em banqueiros e não me falem de política. Há uma coisa que tenho a certeza, vou ter um bom resultado no círculo da Europa e no círculo fora da Europa. Disso não tenho dúvidas.

O país está melhor agora do que há quatro anos?

Temos de ver o país a olhar para o mundo. E se me perguntar se o mundo está melhor ou pior, respondo que está melhor. Tenho muito respeito pelos políticos, por todos os partidos políticos, assim como sou calceteiro e também não digo mal de nenhum calceteiro. É uma questão de ética. Sou pai de uma miúda que acabou o mestrado na Católica, em Lisboa, com 20 valores a Ética e Responsabilidade Social. A Catarina tem 21 anos e acabou o curso de Economia na FEP [Faculdade de Economia da Universidade do Porto], foi uma das melhores alunas de todos os tempos. É um orgulho, porque, como disse, sou um simples calceteiro, tenho a quarta classe e uns trocos. E tenho uma filha que veio para a Católica com 90% de bolsa e acabou o curso no quadro de honra, a concorrer com alunos de todo o mundo.

créditos: Pedro Marques | MadreMedia

A Catarina é a sua admiradora número um?

A Catarina é a minha maior crítica. Eu não queria que a minha filha fosse minha fã, isso seria pequenino. Diz-me sempre para ser eu próprio. Quando fiz o livro, o "A... Corda P'rá Vida", tinha umas 200 páginas, dei-lho para ela safar [apagar] o que quisesse. E ela pegou na safa e safou um monte de páginas. E eu disse: "Ó Catarina, safaste tanto..." É para ficar mais bonito, respondeu-me. Há coisas que posso achar bonitas, mas os outros não. E sou distraído e ela impede que eu me distraia.

Se estivesse no governo, o que faria de diferente?

O RIR nunca entraria numa geringonça em que está três anos e meio porque lhe dá jeito, para defender os seus lugares. Se não fosse assim, eles tinham sido fiéis até ao último dia. E também não gosto do termo geringonça, há palavras tão bonitas e simples...

Que nome daria a esta aliança entre PS, PCP e Bloco de Esquerda?

Ao sabor das marés.

Se for para a Assembleia da República, o que vai fazer de diferente dos partidos que já lá estão?

Eu quero ser a voz do povo.

O que quer dizer isso exatamente? Ouvi-o falar na natureza, mas isso de querer o voto das árvores faz lembrar o PAN com o voto dos animais...

Mas a natureza não é só do PAN, nem dos outros partidos. Quando digo que somos um partido 360 graus, quero dizer que somos um partido sem extremos, somos um partido planetário, sem muros nem fronteiras. Na minha profissão uma pessoa precisa da mão do martelo e da mão da pedra, senão não consegue fazer calçada. Da direita à esquerda há ideias muitos positivas e com as quais concordo e outras das quais discordo. Estaremos ali para dar o nosso contributo, para ajudar, para representar o povo.

Se olhar para as sapatilhas do Costa e para as minhas sapatilhas, percebe facilmente que as minhas estão mais rotas

O que é que para si é representar o povo?

Não é só gastar sapatilhas a três dias das eleições. Se olhar para as sapatilhas do Costa e para as minhas sapatilhas, percebe facilmente que as minhas estão mais rotas. Ando sempre no terreno, tenho a certeza de que as minhas estão mais rompidas, não ando só tipo ave de rapina. E os políticos têm de mudar, têm de estar sempre ao lado do povo, não é só em tempo de eleições. Eles pensam que o povo é totó, mas o povo não é totó, não anda a dormir, está muito bem acordado.

Quais são, afinal, as prioridades do RIR?

Primeiro é lutar contra a abstenção, este é o meu primeiro grande adversário político. Faz sentido haver um partido que não esteja ali no meio de todos,  dizer o que todos dizem, porque à volta também é caminho. Se houver um político que fale abertamente, com uma linguagem simples, próximo do povo, vai conquistar a abstenção. O lema da nossa campanha é próximo e simples, dois ingredientes muito importantes. Quem fala simples é percebido, mas os políticos têm um discurso muito distante, há palavras que mesmo com dicionário as pessoas não entendem - e aos políticos dá-lhes jeito que o povo não perceba. Como dizia D. Manuel Martins: "Tino, quando falas o teu discurso vem de dentro, da alma". Era uma pessoa que me ouvia e de quem eu gostava muito.

Há duas coisas que eu nunca consumi: fé e medo

É católico?

Bem, tenho fé na natureza. Há duas coisas que eu nunca consumi: fé e medo. Nunca tive medo e nunca precisei de ter fé. Mas respeito muito quem tem fé e gosto da religião católica e de todas as religiões. Porque eu sou um homem da cultura, um homem da história, um homem que gosta das raízes, e as religiões dão-nos isso. Acredito que todas as religiões cabem, e gosto muito de um político chamado Cristo, que subiu ao cimo do monte, abriu os braços e todos cachimbaram. O único pecado de Cristo foi falar a todos de maneira simples, estar próximo. Não acredito em milagres, mas acredito no milagre de passar a mensagem.

Ainda a propósito da natureza, pode enumerar outras medidas do seu programa?

Medidas que têm a ver com a água e com o ar. Temos uma mensagem: cada voto uma árvore. Também pretendemos criar a comissão de proteção de pessoa idosa, baixar a idade de voto para os 16 anos... Só para dar alguns exemplos.

Foi candidato à Presidência da República. Como vê a relação de Marcelo Rebelo de Sousa com o atual governo?

Gosto muito de símbolos, gosto muito da bandeira do meu país, do hino do meu país e do presidente, que também é um símbolo, independentemente de ser Marcelo, Cavaco ou outro qualquer. Respeito muito o voto do povo. É claro que somos duas pessoas muito diferentes, pensamos diferente, somos de escolas diferentes, mas tenho a certeza de que Marcelo bebe um pouco da minha escola e ele sabe que eu também bebo um bocado da escola dele. Somos duas pessoas inteligentes e não temos nenhum problema em assumir isto. Quando telefonei a dar-lhe os parabéns pela eleição, disse-lhe: "As minhas ideias ao seu dispor". Foi genuíno, foi sincero, porque a partir do momento em que se contaram os votos ele passou a ser o meu presidente.

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