Alguns dos chamados treinadores de bancada dizem que com José Mourinho fora do Manchester United, os Red Devils têm todos os seus problemas resolvidos. O português foi apontado como o Rei de todas as vicissitudes do colosso inglês que estava seriamente doente, quase exclusivamente à conta dos “antics” (tradução: invenções) de um técnico que não tinha noção do que estava a fazer, destruindo toda a identidade e memória de um clube.

Mas e se colocarmos o problema de outra forma, para além do homem que se senta no banco. E se dissermos que o problema do maior campeão inglês de sempre está no topo, em quem decide quem contratar, quanto pagar e qual a estratégia para o clube?

O fim do futebol romântico e a era do "outro futebol"

Ponto prévio: o futebol moderno matou o futebol clássico. Isto é, o futebol do lirismo puro, do romântico, das histórias de heróis como Alex Ferguson, Arséne Wenger, Luis Aragonés ou Brian Clough morreu.

Existe sim uma máquina imparável e insaciável no que toca a fazer lucro com a “marca” dos clubes, mesmo que isso não signifique títulos como foi o caso do Arsenal, Manchester United, do Liverpool FC ou do AC Milan que até há dois anos integrava o top-10 das marcas mais valiosas do mundo entre os emblemas de futebol.

Enquanto que Manchester United e Liverpool FC (até à chegada de Jürgen Klopp) parecem ter perdido a "fome" de títulos, muito pela estratégia imputada pelas direções geridas por milionários, que vêm mais valor na “marca” do que no palmarés, emblemas como o Chelsea FC, Manchester City, Paris Saint-Germain ou RedBull Leipzig estão preocupados e conscientes de que precisam de títulos para encontrarem o seu “lugar” no Mundo, para deixar um legado e uma marca na modalidade.

Tão mortífero para o mais fiel adepto que carrega em si aquele pedaço de paixão desportiva durante toda a sua vida, mas tão necessário para continuar a fazer a máquina “girar” e a comer milhões: este é o caso deste Manchester United da segunda década do século XXI.

A mudança total de tons e vontades da administração sentiu-se principalmente a partir de 2009, altura em que a família Glazer começou a mexer profundamente nas operações estratégias para o futebol do Manchester United, com Ed Woodward a surgir já por trás. Entre esse ano e 2018 o clube somou apenas 10 títulos em contraste com os 14 conseguidos entre 1998 e 2008.

De notar que só três desses troféus foram na Premier League (todos com “Fergie”), com os restantes a dividirem-se por Taças da Liga Inglesa, Taças de Inglaterra, Liga Europa e Supertaça Inglesa. Com o envelhecimento de Alex Ferguson - e desenganem-se aqueles que pensam, de forma linear, que o treinador escocês teria sucesso atualmente, muito pela mudança de contrastes na liga inglesa - a própria estrutura começou a ficar “orfã” de ritmo e idealização estratégia do lendário treinador, entregando esta pasta à família Glazer que tinha adquirido os direitos do clube, por completo, no ano de 2006.

O fim da era Ferguson e o início da era Woodward

Em 2012, e num momento em que o United já estava seriamente a ser posto de lado pelos “novos” ricos Chelsea e Manchester City, Ed Woodward volta a dar o salto dentro do clube passando de diretor de marketing e comunicação para assumir o papel de vice-presidente da direção do clube.

Woodward era, e ainda é, considerado um génio no formular de acordos comerciais e de marketing tendo levado os Red Devils a concretizar encaixes publicitários na ordem dos quase 200 milhões de euros num só ano, mostrando-se um visionário em termos de lucrar com a imagem de um dos maiores clubes de Inglaterra.

créditos: PETER POWELL/EPA

Contudo, é precisamente com a entrada de Woodward no board of directors que tudo começa a correr mal à equipa sénior do Manchester United. Entre 2012 e 2018, passaram pelo clube três treinadores, com apenas sete títulos conquistados em seis épocas e meia, a maioria com José Mourinho, o "mau da fita".

Ferguson levantou o último troféu da Premier League em 2012/2013, no ano do “adeus”, David Moyes conquistou uma Supertaça (2013), Louis Van Gaal uma Taça de Inglaterra (2016) e José Mourinho uma Liga Europa, uma Taça da Liga Inglesa e uma Supertaça de Inglaterra.

Pelo meio, só Mourinho conseguiu ir além do quarto lugar, terminando em segundo, atrás do super-novo Manchester City e à frente do Klopismo do Liverpool, da penumbra do Arsenal de Wenger, do campeão Chelsea e da raça dos Spurs. Nas competições europeias o melhor que conseguiram foi uns oitavos-de-final da Liga dos Campeões, mais uma vez com Mourinho e a final da Liga Europa, novamente com o técnico português. Foi isto que se tornou o Manchester United e a culpa não pode somente ser atribuída aos indivíduos que se sentaram no banco de Old Trafford.

Coincidência ou não, Alex Ferguson retirou-se praticamente um ano depois de Ed Woodward ter assumido o cargo que durante anos pertenceu a um dos braços-direitos do escocês, David Gill. 2013, marcou por assim dizer o fim do antigo Manchester United e abriu espaço para o novo, virado principalmente para rentabilizar a marca e fazer crescer o clube a uma dimensão dominante em termos de imagem e reconhecimento, ficando as contratações, o scouting e a estratégia para o futebol de lado e entregue ao tempo-livre que Woodward disponibiliza para essas pastas.

José Mourinho desde 2016 que começou a lançar uma série de críticas à gestão atual dos Red Devils, queixando-se de constantes atropelos no que toca a reforços, às renovações ou até na relação direta com alguns jogadores, deixando muitas questões no ar em relação ao papel da família Glazer e à liberdade de Woodward na pasta “futebol”.

Alguns exemplos da gestão atual do Manchester United: Luke Shaw, a certa altura um elemento “dispensável” para Mourinho, renovou em 2018; relatos constantes de reuniões para planos-estratégicos com Van Gaal e Mourinho com Woodward a falhar no dia e sem aviso quando podia voltar a reunir-se; o desinvestimento da família Glazer no United desde 2015 que já obteve cerca de um bilião de lucro do clube.

José Mourinho culpado... sozinho?

Não significa tudo isto que o futebol instável, bipolar e, por vezes, depressivo do Manchester United seja só culpa de factores exteriores a José Mourinho. Pelo contrário, o leitor pode e deve reler este parágrafo vezes sem conta para perceber que o artigo não se trata de um auto-de-fé ao treinador português.

Erros na adaptação da equipa a vários jogos, comunicação por vezes demasiado “bélica” com os jogadores (como foram exemplo as críticas feitas à personalidade de Martial na altura altura em que o francês estava em boa forma), más escolhas de alguns reforços (Eric Bailly, Victor Lindelof, Alexis Sánchez ou Henrikh Mkhitaryan por exemplo) e sempre a “denegrir” a dimensão do Manchester United. Mourinho não está ileso de culpas.

Contudo, e olhando para o que se tornou o clube desde a ascensão meteórica de Woodward, não farão sentido as críticas de Mourinho à forma pobre como o “futebol” dos Red Devils tem sido tratado pela sua administração? Como é que um vice-presidente do clube se reúne com jogadores à revelia do treinador, toma decisões de renovação sem discutir com o staff e opta por sonegar as recomendações de reforços feitas pelo treinador durante o período de defesa?

É só visitar as páginas oficiais e redes sociais do Manchester United para ler alguns comentários bem interessantes de adeptos que apontam uma série de erros e problemas, colocando o “problema Mourinho” como secundário.

Ao contrário da maioria da imprensa que passou o tempo a dar voz aos tablóides ingleses, os adeptos mais comuns do Manchester United sentiram uma mudança profunda na vida do clube, ao ponto de que tudo o que importava para eles deixou de importar para quem manda, tirando toda a mística e capacidade de rasgo que os Red Devils tiveram durante duas décadas.

José Mourinho teve dificuldades em dar outra dimensão ao futebol jogado, mas deu títulos; teve poucos reforços ao ponto que teve de converter Ashley Young num lateral-esquerdo útil e interessante, que viria a ser, inclusive, um dos melhores no Mundial 2018; e nunca deixou de defender o clube ao ponto em que os adeptos, jogo após jogo, com ou sem vitórias, aplaudiam de pé o treinador e apontavam o dedo a Ed Woodward, sentado sereno e impávido na bancada, como se o “seu” Mundo não se alterasse com a falta de sucesso desportivo do clube.

Até que ponto este “tipo” de futebol moderno vai continuar a desvirtuar os maiores emblemas mundiais? Até que ponto é que os treinadores vão ser os únicos analisados escrupulosa e minuciosamente?

O aviso que fica para o futuro: nada vai mudar

O United há-de melhorar nos próximos tempos, Paul Pogba vai sair no próximo verão e chegarão reforços do nível de Lindelof, Rojo ou Ander Herrera ao emblema, iniciando-se um novo processo de “destruição”. Será que treinadores como Zinedine Zidane serão mais defendidos por serem da “nova escola” de treinadores, melhor preparados para lidar com os comportamentos estranhos deste tipo de estratégia no futebol, deixando de ter tanto poder de decisão sobre, por exemplo, quem entra e sai da equipa?”

Mourinho teve e tem culpa no sexto lugar do Manchester United, foi responsável por alguns dos jogos mais “tristes” dos últimos anos, mas também conseguiu infligir dano tanto no brilhantismo de Sarri, ou no excentrismo de Klopp, faltando o título da Premier que o próprio Mourinho disse ser impossível aos Red Devils de atingir nos próximos anos, mantendo-se a estratégia e visão atual.

Mourinho: O que se dizia Vs. A realidade

Gastou mais do que o City, Chelsea ou Liverpool em transferências. O Manchester City de Pep Guardiola adquiriu cerca de 22 jogadores pela módica quantia de 601 milhões de euros (ME) nas últimas três épocas; no caso de Jürgen Klopp só contabilizámos os últimos três anos, senão ultrapassaria largamente José Mourinho, mas ficou nos 466 ME; e o Chelsea sob a égide italiana de Conte e Sarri só fez um “arrombo” nas finanças de 529 ME. O Manchester United de José Mourinho ficou nos 464 ME, tendo só lucrado 125 ME;

O plantel do United é tão bom como o do Manchester City, Chelsea, Liverpool ou mesmo Arsenal e Tottenham. É só olhar e perceber que deste onze mais “fixo” de Mourinho e comparar com os restantes clubes. Do onze apresentado, só David De Gea poderia lutar definitivamente por um lugar contra Ederson ou Alisson Becker, sendo que no Chelsea ou Arsenal seria definitivamente titular. Já Paul Pogba pela cultura tática, entraria a titular em qualquer uma das equipas, mas isto sempre assente no princípio que o rendimento seria o mesmo, sem vacilar durante toda a temporada. A defesa do Manchester United é mediana comparada com qualquer um dos rivais, assim como o ataque, apesar do virtuosismo de Martial e da promessa (até quando) de Marcus Rashford

Até que ponto Van Gaal e Moyes não foram feitos de empecilhos medíocres à conta da falta de estratégia diretiva? São estas perguntas que ficam para o Manchester United dos próximos 5 anos.


Artigo atualizado às 19:50

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