Em 2016, um dos criadores do simulador Football Manager (FM), avisou que o 'Brexit' tinha chegado ao jogo e ia mexer com o onze dos seus treinadores (virtuais). E chegaria como? Miles Jacobson, diretor da Sports Interactive e produtora do FM, explicou que a partir da data em que o 'Brexit' entraria em vigor (no jogo), iam existir três cenários possíveis: o soft (tudo se mantinha porque a livre transição de pessoas não é afetada), o intermédio (há um visto especial e também não afeta grande coisa); e, por fim, o hard (aplicação de regras aos jogadores não britânicos idênticas às que hoje se aplicam aos que não provêm da União Europeia). Segundo Miles, esta era "a primeira vez que um computador tenta prever o futuro de um país".

Três anos depois, considerando o impasse entre União Europeia e o Reino Unido (e, sobretudo, dentro do próprio Reino Unido), a verdade é que a realidade se pode cruzar com o mundo virtual, nomeadamente com cenário hard. E há quem veja valor nisto. De acordo com o The Guardian, a Federação Inglesa de futebol vê o 'Brexit' como uma oportunidade para aumentar o número de jogadores nacionais na Premier League, assim como acredita que, com o aumento de jogadores ingleses, a seleção nacional vai, no futuro, tirar proveito desta escolha, muito em parte devido à nova exposição que estes ganharão.

Contudo, os responsáveis pela Premier League, a primeira divisão inglesa, rejeitam esta ideia, afirmando que não existem "quaisquer provas" que sugiram que tal medida funcione. Mais, indicaram que tiveram discussões com o segundo escalão inglês (Championship) e respetivos diretores da Liga Escocesa, sendo que as três identidades são da opinião de que o 'Brexit' não deve criar situações que enfraqueçam os plantéis do futebol britânico, nomeadamente com restrições à contratação de jogadores internacionais estrangeiros.

Phil Foden

Este tema da falta de jovens ingleses nas principais equipas não é novo, mas agravou-se desde a época em que os clubes ingleses ficaram (ainda mais) endinheirados com os novos contratos televisivos, atualmente em vigor. Pedro Carreira, cronista do SAPO24 e que escreve às sextas-feiras sobre a Premier League, abordou o tema, dando conta das dificuldades dos jovens talentos ingleses terem espaço para jogar nas suas equipas de formação. E, por isso, optam por emigrar para outros campeonatos.

Para contrariar esta tendência, parte do plano da Federação Inglesa de futebol (FA, na sigla original), passa por reduzir o número de jogadores não formados no país num plantel de 25 jogadores. Isto é, ao invés dos atuais 17 jogadores permitidos, o número máximo passaria para 12.

Atualmente, para se ter o estatuto de "jogador formado no país" o atleta tem que estar inscrito na Federação, pelo menos, 3 anos antes de fazer os 21, independentemente da sua nacionalidade. Em termos práticos, isto significa que esta regra permite, por exemplo, que o Manchester United qualifique Paul Pobga como jogador "formado no país", visto que o internacional francês assinou pelo clube inglês quando ainda tinha 16 anos de idade. Joga noutra seleção, mas para efeitos de "formação" é considerado como jogador inglês aos olhos da federação. Assim, por causa desta regra, a FA está a considerar reduzir a idade de um "jogador formado no país" de 21, para 18 anos.

Imaginando um avanço hipotético destas medidas, e considerando os atuais plantéis das 20 equipas que compõem a primeira divisão inglesa, a esmagadora maioria (cerca de 11 equipas) seria afetada. Fazendo uma interpretação do gráfico disponibilizado pelo The Guardian, é possível constatar que, por exemplo, se a medida dos 12 jogadores entrasse em vigor esta época, cinco dos seis primeiros classificados da Premier League (Arsenal, Liverpool, Tottenham, Manchester City, Chelsea) estavam nesse lote de "infratores".

Southampton e Manchester United, por exemplo, estavam no limite, pois ambas as equipas têm 12 "jogadores não formados localmente". Numa situação mais delicada estaria o plantel do Liverpool ou Manchester City, que contam com 13 e 14, respetivamente. Pior, no entanto, estaria mesmo o Tottenham, que tem 16. Ou seja, nestas equipas alguém tinha de ser vendido em prol da vaga dos jogadores ingleses. No entanto, isto não é apenas problema "dos grandes". Clubes de menor dimensão, como Brighton (15), Huddersfield (15) ou Fulham (14) também iam ter que emagrecer a equipa principal e sofrer um duro golpe em termos qualitativos de qualidade.

Porém, há outro aspeto a considerar. É que convém não esquecer que 9 dos clubes 20 clubes mais ricos do mundo, de acordo com um estudo feito pela consultora Deloitte, são ingleses. E se esses clubes ricos não puderem contar com os seus melhores jogadores em prol de quotas obrigatórias a preencher com jogadores formados localmente, os clubes podem ficar menos competitivos e menos atrativos do ponto de vista de negócio. Em suma, há receio que os jogadores valiosos rumem a outros países, levem os seus talentos para outros clubes e exista uma mudança paradigma no mundo do futebol (e de receita).

Basta olhar para a lista dos melhores marcadores para entender um pouco desta aritmética: do TOP-10, apenas 2 são ingleses (Kane, do Tottenham, com 14 golos; Sterling, do Manchester City, com 12). Quer isto dizer que, 8 jogadores são estrangeiros e jogam todos dispersados por Arsenal, Liverpool, Tottenham, Manchester City e Chelsea, os tais clubes mais ricos do mundo e que muito dinheiro fazem gerar à Premier League. (Em abono da verdade, Callum Wilson e Glenn Murray, ambos ingleses, também têm 10 golos, os mesmos que Richarlison, que ocupa a 10 posição, mas têm mais minutos que o brasileiro treinado por Marco Silva, no Everton).

O Brexit pode significar que jogadores oriundos da União Europeia (UE) e da Zona Económica Europeia sejam submetidos às mesmas restrições (VISA e a licença de trabalho) do que os jogadores fora da UE. E, a ver-se efetivamente esta medida em vigor, vai ser mais difícil trocar jogadores entre as equipas. E jogadores que estão no topo dos melhores marcadores como Agüero ou Salah, podem fazer o brilharete noutros campos.

O último mercado de Inverno, em que o SAPO24 acompanhou as últimas 24 horas em direto, foi morno e sem grandes movimentações, se comparado com o período homólogo do ano anterior. E uma das razões para que isso tenha acontecido pode ser o facto de muitos clubes já estarem a pensar no futuro e naquilo que o ‘Brexit’ pode significar nos seus negócios. Nesta janela de transferências, gastar muito dinheiro numa contratação seria arriscado, uma vez que o clube podia ser obrigado a vender o jogador num futuro próximo.

O tema divide opiniões. Jürgen Klopp, treinador do Liverpool, já afirmou que o ‘Brexit’ não "faz qualquer sentido". Por seu turno, Neil Warnock, técnico do Cardiff City, é da opinião contrária e disse que mal pode esperar "por sair da União Europeia". 

O processo de saída do Reino Unido da União Europeia está num impasse, depois de o acordo de saída negociado por Londres com Bruxelas ter sido rejeitado no parlamento britânico a 15 de janeiro. No entanto, dias mais tarde, a 29 de janeiro, uma maioria de deputados aprovou uma proposta de renegociação dos termos divórcio com a União Europeia — estando o ponto fulcral centrado em alternativas à solução a uma fronteira física para a Irlanda do Norte conhecida. Ontem, todavia, a primeira-ministra britânica, Theresa May, voltou a sofrer uma derrota pesada no parlamento, onde uma moção de apoio ao seu governo foi derrotada. A moção apresentada pelo seu governo foi simbólica e visava ratificar o apoio da Câmara dos Comuns à estratégia Brexit.

A Federação Inglesa já não tem muito tempo e a hora de tomar decisões está francamente próxima. Restam apenas 43 dias para o Reino Unido sair da União Europeia, pelo que é imperativo arranjar uma solução e um meio-termo que agrade tanto aos que defendem o crescimento de jogadores ingleses nas equipas, mas que também vá de encontro com os interesses económicos que permitam que a Premier League continue com o estatuto que hoje ostenta: a de melhor, competitiva e mais rica liga do mundo.

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