A diferença entre Besta e Bestial é mínima no futebol. Um golo pode mudar tudo, pode ser a diferença entre o sucesso e o fracasso de uma ideia. No cruel mundo do futebol — e ainda mais no brasileiro, onde a avaliação dos trabalhos é superficial e dependente dos resultados —, é preciso ter coragem para tomar as decisões corretas e ainda contar com um pouco de sorte.

O atual campeão, Flamengo, mudou de treinador e, com isso, o seu estilo de jogo. Como criticam os seus adeptos, passou do estilo de videojogo de Jorge Jesus para os matraquilhos de Dome. O seu jogo posicional, ainda repleto de passes inofensivos, está a criar problemas com o plantel e com os adeptos. Domenec teve a coragem de tentar mudar uma equipa que tinha a cara do seu antecessor. Foi fiel às suas convicções e tenta impor um estilo de jogo posicional, mas sofre com a sua escolha. O Flamengo ainda parece perdido e longe de repetir o bom futebol do último ano. Por que mexer no que dava certo?

No Vasco, a coragem foi criada pela necessidade. Sem dinheiro e sem opções, apostou no jovem treinador Ramon, ex-médio do clube nos anos 90 e 2000. Com um plantel muito jovem e alguns bons reforços, o Vasco tem vindo a surpreender. Com um jogo organizado, adaptando-se aos adversários, e um goleador iluminado, Cano, o Vasco vai tendo um começo promissor. Planeamento ou sorte?

Sorte foi o que deu Fernando Diniz no São Paulo. Com uma equipa em crise de confiança após o desastre na reta final do Paulistão (Campeonato Paulista), pressionado pelos longos nove anos sem títulos e com conflitos e rescisões dos seus jogadores mais experientes, como Alexandre Pato, Diniz teve coragem, inegavelmente, ao tirar a dupla de defensores (responsáveis pela melhor defesa do último campeonato) para apostar na melhor saída de bola de dois jovens, sendo um deles lateral improvisado. Arboleda e Bruno Alves deram lugar a Leo Pelé e Diego, que mostraram logo resultados.

Duas vitórias seguidas, com alguns lapsos de bom futebol durante as partidas, deram sobrevida a um treinador ameaçado de demissão. Diniz teve a coragem de fazer um “all in” ao arriscar mudanças que favorecem o seu estilo de posse, mas teve coragem, também, para não ser tão fiel às suas convicções e priorizar as vitórias para ganhar confiança e estabilidade. Se ganhar o clássico de domingo, contra o Corinthians, sairá desta crise muito fortalecido. Se perder, dá outro passo atrás e a crise continua. Será que a coragem compensará?

No Inter, líder do Brasileirão, o jovem treinador Coudet soube planear e priorizar a solidez defensiva para vencer as suas eliminatórias na pré-Libertadores antes de começar a implantar a sua filosofia de jogo. Depois, com calma, foi dando a sua cara à equipa e largou muito bem no campeonato. Claramente em construção, o Inter mostra sinais em campo da proposta do jogo intenso que Coudet já havia implementado na Argentina. A aposta num treinador estrangeiro era a melhor opção e nem precisava de muita coragem, mas o técnico tem mostrado que coragem sem preparação é loucura. Teve calma e soube lidar com a pressão para, aos poucos, mudar a equipa. Mas, como sempre, é o resultado em campo que ditará sua avaliação no final do campeonato.

São apenas 5 jornadas. Nada do que aconteceu aqui pode ser considerado definitivo neste campeonato e qualquer análise ainda é precoce. Num torneio com muitos jogos e pouco tempo, este Brasileirão em tempos de Covid será muito diferente. E se o golo é um detalhe, como dizia o ex-treinador Parreira, são detalhes que separarão os bestas de bestiais. Sem o exemplo de futebol acima da média do Flamengo de 2019, o Brasileirão começa com a caça à vitória acima de tudo, para dar tranquilidade aos trabalhos no meio de tanta mudança.

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