O primeiro jogo de futebol que vi na vida, dentro de um estádio (e não no conforto do sofá e da televisão ligada, que é onde vejo a grande maioria do meu futebol), envolveu o Alverca.

Minto: o primeiro jogo de futebol que vi a sério, com deslocações, acepipes e uma família inteira de cachecóis ao pescoço, aconteceu no longínquo ano de 1995, no Estádio do Jamor, com o saudoso Iordanov a marcar dois golos ao Marítimo e a acrescentar mais uma Taça de Portugal ao vasto currículo do Sporting.

Mas esse não conta: houve Jamor, sim, mas só para quem chegou cedo – quem o não fez viu-se forçado a assistir ao jogo no meio da mata que ladeia o estádio, e uma criança de oito anos não tem propriamente altura suficiente para se erguer acima das árvores e da multitude de cabeças, por mais que tente. Restou a memória fugaz de uma cabeçada num dos ditos golos (e o YouTube confirma-a), e a ida posterior à antiga Feira Popular, onde a felicidade dos meus primos – sportinguistas – esbarrava no desprezo dos vampiros da casa assombrada:

- O Sporting ganhou!
- E o que é que eu tenho a ver com isso?

Pelo que o primeiro jogo de futebol que vi a sério, com deslocações, acepipes, etc. envolveu o Alverca. Não, também não. Foi um Sporting x Beitar de Jerusalém, para a pré-eliminatória da Liga dos Campeões, em 1997, que a turma de Alvalade venceu por 3-0 (Iordanov, novamente, e dois de Leandro).

Mas esse também não conta, porque a única lembrança que dele guardo foi o facto de não poder entrar com o meu Sumol de laranja e o meu pão com chouriço dentro do estádio, uma daquelas coisas que, quando se é puto, nos faz odiar para sempre o futebol moderno. Tive de comer aquilo tudo à pressa, e se calhar é daí que vem o meu péssimo hábito de comer todas as refeições à pressa, assim como a minha péssima tendência para o niilismo e a auto-destruição vêm daquela vez em que, aos três anos e numa auto-estrada, quase saltei pela janela do velho Peugeot fora com a minha mãe a aplicar, a tempo, os seus melhores dotes de guarda-redes.

Agora sim: Alverca. Durante a maior parte da minha vida, tem sido esta a minha cidade, o meu refúgio. Em agosto, cumpriram-se 25 anos desde que a minha família se mudou para cá, após cinco anos no Sobralinho (uma aldeia, hoje vila, mesmo aqui ao lado) e um curto aninho na 5 de Outubro, ao lado da RTP. Fiz aqui boa parte dos meus amigos – ainda hoje me dou com todos, e alguns até foram hoje ao estádio –, todos os meus estudos da 3.ª classe (ainda lhe chamo “classe” e não “ano”) ao secundário, foi aqui que aprendi a andar de bicicleta, a nadar, foi aqui que do alto do meu ennui adolescente rebentei bombas de cal em caixotes do lixo, foi aqui que beijei e fui beijado, foi aqui que descobri como a Cartoon Network pode ser um óptimo professor de inglês, foi aqui que o rock n' roll me salvou a vida antes de toda a música me ir salvando a vida.

E foi aqui que vi, pela primeira vez, a sério – com os chamados “olhos de ver” - um jogo de futebol dentro de um estádio.

Era o primeiro ano do Futebol Clube de Alverca na I Liga e a ocasião era luxuosa: Alverca x FC Porto, o clube que, para gáudio da minha mãe e desgosto absoluto do meu pai (sportinguista), passei a guardar no coração de tal modo que, se mo perguntarem, respondo sempre que a maior infelicidade da minha vida foi ter nascido em Lisboa. A cidade juntou-se. O meu pai, que foi comigo nessa noite ao estádio, comprou-me uma pequena bandeira do Alverca por uns míseros 500 escudos e levou-me para a bancada central, destinada aos sócios do clube (e fomo-lo, ambos: eu porque precisava disso para pagar menos pelas aulas de natação, ele para que eu não me sentisse muito abandonado).

O resultado foi aquele que, mais ou menos, se esperava: goleada do FC Porto, que nessa época seria campeão. Mas, para além daqueles cinco golos – Zahovic, Jardel duas vezes, Capucho e João Manuel Pinto – o que ficou foi o erro clamoroso, inadmíssivel, vexatório de um tal de Ivica Kralj, que permitiu aos alverquenses festejar como se estivessem a ganhar a meio segundo do fim. Um frango, um pato, um perú, toda e qualquer espécie aviária, imortalizada para sempre em reposições de telejornais e páginas humorísticas no Facebook. Festejaram os alverquenses e o seu presidente, o então desconhecido Luís Filipe Vieira, o qual vi em amena cavaqueira sorridente, no final do jogo, com Jorge Nuno Pinto da Costa.

Não se pode menosprezar aquilo que o futebol faz por uma cidade. Ainda para mais uma cidade como Alverca, que vive e viverá para sempre na sombra da vizinha Lisboa – demasiado suburbana, demasiado perto e demasiado longe ao mesmo tempo, demasiado abafada pelo estatuto que Vila Franca de Xira foi ganhando através da tauromaquia.

As temporadas na I Liga deram nome a Alverca, que ao longo dos anos se foi tornando conhecida por dois motivos apenas: as portagens e o futebol. Ou, melhor dizendo, as portagens e Mantorras, essa pérola que demos a conhecer ao Mundo, antes de o seu joelho revelar ser feito de porcelana.

Mas o nome não faz uma cidade, uma polis, digamos, como ela deve ser feita. Alverca, repito-me, é subúrbio. E um subúrbio nunca escapa a essa mesma condição. A esmagadora maioria dos alverquenses, como eu, tem em Alverca o seu dormitório: a casa e a cama estão aqui, a vida é toda ela feita em outros lugares, nomeadamente a capital. Há bons restaurantes, mas não há os melhores restaurantes. Há nove super e hipermercados (todos: Minipreço, Pingo Doce, Auchan, Continente, Lidl, Aldi) para uma população de pouco mais de 30 mil pessoas. Trabalho? O pouco que há mal compensa (a não ser na OGMA, e para isso são precisos muitos conhecimentos de mecânica). Oferta cultural? Quase zero.

(Uma vez tive uma discussão com uma senhora que me disse que Alverca tinha oferta cultural, sim, porque temos três ranchos folclóricos. A palavra que melhor define a minha reação é “estapafúrdia”.)

O futebol salvava isso. Porque o futebol primodivisionário permitia-nos isso: um orgulho estranho nesta cidade onde residimos (e “residir” é diferente de “viver”), uma crença inabalável em futuros risonhos, em cosmopolitismos por descobrir. Alverca já não era a do Ribatejo: era a que batia o pé aos três grandes, que lograva boas posições no campeonato, que tratava por filhos não só o supracitado Mantorras como também Deco, Ricardo Carvalho, Maniche, Ovchinnikov ou Poejo e Tinaia e Veríssimo, os melhores jogadores de sempre para quem nunca viu ao vivo os melhores jogadores de sempre.

E era-o mesmo sem adeptos, que uma cidade como Alverca, descaradamente próxima dos grandes centros urbanos, não tem adeptos genuinamente seus: nos jogos contra o Benfica, 95% da bancada central usava adereços relativos ao clube da Luz, e em jogos contra o Sporting esse número baixava para uns 60% (Portistas, assim com P maiúsculo, conto-os pelos dedos de duas mãos desde que cá moro; Alverquenses genuínos, também em maiúscula, soube de dois – mas acredito piemente que eram só benfiquistas com vergonha. Estávamos nos anos 90, no fim de contas). Mas mesmo não os tendo genuínos, tinha-os orgulhosos. Porque era o clube da terra, era “o” Alverca, era a malta que conhecíamos e de quem éramos amigos na direcção, nos plantéis, a cuidar da relva no estádio.

Foi-se o futebol – dívidas, falências, refundações – e o que ficou foi um enorme vazio, o sentimento gritante de anomia. Alverca deixou de ser “o” Alverca. Passou a ser o hipotético aeroporto que por cá ninguém quer, passou a ser a estação de comboios pela qual todos passam a caminho de outros lugares, passou a ser as rotundas espalhadas pela Nacional 10, passou a ser a igreja com “o segundo maior carrilhão da Europa”, passou a ser o primo bastardo e hoje anti-touradas da Vila Franca vestida com um Colete Encarnado (sim, há uma rivalidade brutal entre ambas as cidades, e é melhor que saibam isso para que depois percebam que na realidade não querem saber).

A cidade que é esquecida ganha contornos distintos sem um orgulho que a alimente e aos seus, remete-nos para uma condição que não é bem de amor-ódio, mas de indiferença quase absoluta – aguenta-se a cidade, o subúrbio, porque ainda é lá que estão os camaradas de guerra e as cervejas e as futeboladas e a ideia de que estamos todos a crescer, a casar, a ter filhos, a ter empregos, e brevemente (mais do que se pensa) a morrer, ficando com mais nada que não as recordações e as fotografias e flashes minimamente ofuscantes de sorrisos passados.

Mas esta noite – e ao longo desta noite, desta madrugada, e dos próximos dias, quiçá semanas – Alverca voltou a ser “o” Alverca, os blaugrana do Ribatejo, o Orgulho desse mesmo Ribatejo, o nome escrito em tudo o que seja manchetes e parangonas. Alverca voltou a ser “o” Alverca: não o hotel gigantesco que teima em ser tendo capacidade para mais mas a família que nunca deveria ter deixado de ser. “O” Alverca: os meus amigos de infância a surgirem-me na cabeça com as idades que tinham quando os conheci. “O” Alverca: o meu pai, hoje em paradeiro desconhecido, a levar-me pela mão ao estádio e a comprar-me uma bandeira. “O” Alverca: Cidade-Viva, Nossa Cidade, Minha Cidade – essa parte intrínseca da pessoa que sou e que estava meramente adormecida.

Quando há quem fale que o futebol não devia existir, lembrando apenas as mágoas e as violências, a resposta a dar aos antis que nunca tiveram a anedonia e o marasmo tatuados na pele deve ser uma e única: experimentem ver um jogo no meio dos “vossos”, a torcer com os “vossos”, a chorar e a rir com os “vossos”. Experimentem ver uma cidade pequena superar a metrópole, ganhar fama, ganhar mito. Experimentem sair da bolha de ódio em que se enfiaram, e comecem a perceber que o orgulho, mesmo que a Bíblia diga o contrário, pode ser algo de extraordinariamente belo – e mágico.

Hoje a Nossa Cidade, a Minha Cidade, não é Pã, o Deus que se dá ao luxo de se aborrecer; é David, o que derrubou Golias, o que viria a ser Rei, aquele cuja estrela reluz azul sobre fundo branco. Hoje a Nossa Cidade é Alverca, é Alex Apolinário e Luan Silva, é os “olés” ouvidos perto do final do jogo, é os sorrisos amarelos dos amigos sportinguistas (que encheram a bancada dos sócios do Alverca), é todo o parágrafo que envolva as expressões “escândalo”, “surpresa” e “tomba-gigantes”.

É o esquecimento que será dado aos heróis que, a partir do Campeonato Nacional de Seniores, eliminaram o Grande Sporting da Taça de Portugal – todos os “comentadores” e “programas desportivos” preferirão abordar “a crise no Sporting” em vez de honrar os pequenos Leicesters desta vida.

Mas mesmo que esses se esqueçam, Nós não nos esqueceremos jamais de quando voltámos a ser “O” Alverca.

Todo o ser humano tem direito a um sonho bonito de vez em quando.

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