Os 97 minutos deste sábado deram cabo dos nervos aos adeptos, mas a história da dimensão deste jogo começou há vários séculos.

Antes do início da partida, dava para antever a emoção que se seguiria. A final da Taça Libertadores, que põe todos os anos frente a frente as duas melhores equipas da América do Sul, trouxe para o campo dois dos maiores clubes do continente, do mundo até - e já vamos perceber porquê.

De um lado, o argentino River Plate, campeão em 2018 - e assumidamente obcecado com a competição, como se ouve neste fortíssimo cântico entoado por milhares de adeptos. Do outro, o brasileiro Flamengo a correr atrás do seu segundo título, depois de 38 anos sem chegar à final, e com o “endeusado” português Jorge Jesus no comando.

Para encaixar 500 anos num breve texto nada melhor do que fazê-lo com o ritmo que este desporto tão bem conhece. Senhoras e senhores, convido-os a ler as linhas que se seguem como se de um relato de um jogo se tratasse (se quiser saber efetivamente o que se passou dentro das quatro linhas, a crónica do João Dinis conta-lhe tudo).

Apito inicial

Começamos em abril de 1500. Pedro Álvares Cabral avista terra no seu caminho para a Índia. Está lançada a bola para o que haveria de vir a ser um tema de controvérsia mais tarde. O passe sai ao lado - não é isto que nos traz aqui hoje - mas importa reter a jogada: a ida de portugueses para o Brasil ainda nos vai ser útil mais à frente.

O relógio segue rápido e avançamos mais uns séculos. A rivalidade entre Argentina e Brasil é histórica. Os países tentam tirar a bola um ao outro, mas no século XIX a Argentina leva a melhor. Numa jogada de ataque que traz o Uruguai por arrasto, a Argentina avança no terreno. Olha para a frente, mede forças com os rivais e ganha o controlo das terras a sul junto ao valioso rio da Prata. Está aberto um flanco que vai valer vantagem estratégica e económica do país até aos dias de hoje: a zona dominada pelos argentinos está entre os terrenos mais valiosos do continente, e o rio da Prata permite a circulação fluvial até Buenos Aires, e dos seus portos para o mundo.

Mas o ritmo é difícil de aguentar e a instabilidade política e social que chegam no século XX não dão tréguas - se há cem anos, a Argentina ocupava um lugar no topo dos países mais ricos do mundo (à frente até de França e de Itália), nas últimas décadas caiu a pique.

O Brasil não poupa o adversário e transforma a perda de bola em anedota - “Só pessoas tão sofisticadas conseguiriam um falhanço tão grande”, ouve-se na boca do povo. A picardia social está lá. O braço de ferro político e económico também (embora sem gerar preocupações de maior). Mas nada se compara à rivalidade no desporto. É aqui que a tensão histórica entre os dois países cresce com força e também por isso o jogo deste sábado tinha tantas medidas de segurança. Por isso e porque a vida real prega fintas ao desporto. 

As jogadas estavam bem planeadas até há pouco tempo - a final de ontem era para ter sido disputada em Santiago, capital chilena - mas às vezes pequenos movimentos fazem a diferença e a bola muda de rumo. Uma intensa crise social no Chile, começada pelo aumento do preço do metro, está a levar a população às ruas e a intervenção policial já fez pelo menos 22 mortos e dois mil feridos. Um fora de jogo evidente para todos: a final teve de ser disputada noutro sítio. Lima, capital do Peru, foi a cidade escolhida. A 5 de novembro, as equipas brasileira e argentina ficaram a saber que percorreriam mais de quatro mil quilómetros de avião cada uma para chegar ao estádio onde 80 mil pessoas as iriam receber em apoteose.

E sem darmos por isso chegámos ao final da primeira parte deste relato. Caro leitor, não saia da nossa companhia. Durante este intervalo vamos explicar-lhe como é que as equipas chegaram até aqui. A história inclui um barco a afundar-se, porque o Flamengo não começou com a bola nos pés, e um caixote que deu o nome à equipa da Argentina.

Na pausa para hidratar, a água que os ergueu e a água que os separa

Ontem cada um torcia para seu lado e uns meteram mais água do que outros, mas há mais de cem anos - sim, os dois clubes já são centenários - a água unia de alguma forma as origens das duas equipas.

Estávamos em 1895 quando um grupo de seis remadores brasileiros resolveu comprar um barco. Com a energia da juventude no corpo, meteram-se a caminho da praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, mas uma tempestade havia de os atirar à água. Determinados, queriam fundar um grupo de regatas, e por isso nem o naufrágio nem o roubo de uma nova embarcação os demoveu. Poucas semanas depois, fizeram uma “vaquinha” com mais quatro, compraram um novo barco, e ali, na praia até onde a tempestade os tinha levado, fundaram o Grupo de Regatas do Flamengo.

Nos primeiros anos, eram os remos que reinavam, mas a bola havia de lhes chegar aos pés. Tudo começou com um desentendimento interno no Fluminense - atual adversário da equipa. Foi em 1911 que alguns jogadores deste clube da mesma cidade inauguraram o Departamento de Esportes Terrestres flamenguista. Um ano depois, eram campeões no Rio de Janeiro.

Passados 107 anos, o “Mengo”, “Mengão”, “Fla” tem a maior massa de adeptos do mundo. A chamada “Nação Rubro-Negra”, pelo vermelho e preto do equipamento, conta com uma “torcida” de mais de 33 milhões de pessoas só no Brasil.

Do outro lado do campo, esteve este sábado uma equipa que também não tem dificuldade em fazer valer a sua história - e humor não lhe falta. Quando se entra no site do argentino River Plate, a página que recorda a cronologia do clube demora a abrir. Inconveniente? Nada disso! Uma perfeita oportunidade para a equipa se vangloriar: “A nossa história é muito grande. Tantos anos de glória podem demorar a carregar”, aparece de imediato no ecrã.

São conhecidos hoje em dia por “Los Millonarios” (“Os Milionários”) - ganharam o nome quando compraram um ponta de lança por dez mil pesos nos anos 30 -, mas nasceram nas docas do porto de Buenos Aires quando um grupo de homens se pôs a jogar durante uma simples pausa no trabalho. No fundo do cenário, uns caixotes de madeira diziam “River Plate”. E ali, no tal porto que dá vantagem económica à Argentina em relação ao Brasil, nasceu, em 1901, o clube que ontem meteu água.

Estamos a chegar ao fim do intervalo. Resta-nos dizer que os 118 anos de história do clube argentino são uma prova da sua resistência: depois de uma rota de crescimento, com especial força nos anos 30 e 40, as dificuldades económicas puseram a equipa perto da falência e, em 2011, o River desceu ao impensável segundo escalão do campeonato argentino. Mas a equipa não se resignou, a massa de adeptos acompanhou incansavelmente os jogadores ao longo dessa época, e um ano depois estavam de volta. Em 2015 já tinham a Taça Libertadores nas mãos de novo - a terceira de quatro.

Avancemos sem demoras para a segunda parte deste relato. Tal como no jogo deste sábado, é aqui que a emoção aumenta e que o Flamengo ganha destaque.

Mais de 500 anos depois, um português chegou ao Brasil para virar a história - e as emoções - do avesso

Rola a bola de novo. Viremos o foco agora para o treinador português. Chegou ao Rio de Janeiro a 8 de junho deste ano, e cinco meses depois passou de Jesus a Deus - até o Cristo Redentor vestiu ontem a camisola do Flamengo. Para onde quer quer olhemos ele lá está.

No campo? Claro. Ontem, conduziu a equipa até à vitória nos últimos minutos da final da Taça Libertadores, a “obsessão” de qualquer clube da América do Sul. Repare no ilustrativo texto do tweet publicado na conta oficial do Flamengo no momento do golo da vitória:

No campeonato nacional brasileiro, em apenas cinco meses, JJ levou a equipa do terceiro lugar até ao topo da tabela - e pode ganhar este fim de semana mais esse título (o João explica).

Nos ecrãs de televisão? Também. A ponto de a partida do Flamengo para o Peru ter sido acompanhada ao minuto desde o estádio até ao avião. Todos quiseram fazer parte deste momento histórico do clube: o piloto, que acenou com uma camisola vermelha e negra, a tripulação, que quis sair na fotografia na hora da partida, e os milhares de adeptos, que foram apoiar o Mengão na despedida.

Na sociedade? Sem dúvida! O efeito “Jorge Jesus” vai muito para além dos relvados - que, aliás, são controlados pelo técnico literalmente ao centímetro; a minúcia do treinador vai ao ponto de querer estar a par do tamanho da relva do campo de treino e do estádio onde a sua equipa joga. Diz um português emigrado no Brasil que Jorge Jesus “facilitou muito a vida” daqueles que lá vivem. Hoje em dia, qualquer conversa é facilmente desbloqueada e gera um ambiente de boa disposição nas relações pessoais e no trabalho - académico, comercial, diplomático.

Na música também? Do lado de cá do oceano, há quem se tenha inspirado no sucesso do treinador por terras brasileiras e criado uma música para o celebrar. José Malhoa e o tema “Jesus, Flamengo te aplaude de pé” chegaram à imprensa brasileira.

Até na política? É verdade. Jorge Jesus tornou-se de tal forma referência que a Câmara Municipal do Rio o vai condecorar como cidadão honorário da cidade esta segunda-feira.

O apito final está a chegar, mas o Flamengo ainda pode ir mais longe. Hoje, o clube rubro-negro voltará a estar na ribalta. Se o Palmeiras não ganhar ao Grémio, os Mengões vencem o campeonato nacional.

Primeiro, estranhou-se, mas agora entranhou-se. Cinco meses depois de ter chegado ao Brasil, Jorge Jesus tem as atenções viradas sobre si. No dia em que entrou para a história do futebol brasileiro, sul-americano, mundial, há um cântico que está a unir os adeptos pelo mundo. Do Rio de Janeiro às docas de Alcântara em Lisboa, em todo o lado se ouviu: “Olé, olé, olé, olé! Mister, Mister!”.

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