A 4 de julho de 2016, um tweet de Kevin Durant mudou a paisagem da NBA. Desta vez, não era uma «burner account», mas sim o próprio KD a anunciar que ia deixar os Oklahoma City Thunder e rumar a Oakland, para reforçar os Golden State Warriors. Em dois anos, dois títulos. E talvez fossem três se Durant e Klay Thompson não se tivessem lesionado nas Finais de 2019, diante dos Toronto Raptors. Uns dias depois, KD mudava-se para a costa Este para se juntar a Kyrie Irving nos Brooklyn Nets e os Warriors ficavam órfãos do MVP das Finais de 2017 e 2018.

Pior do que isso, iniciavam aí uma caminhada de dois anos sem Klay Thompson - depois do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo no jogo seis frente aos canadianos, o "atirador" rompeu o tendão de Aquiles direito na preparação para a época 2020-21. Dois anos sem Klay. E um ano sem Curry, também por lesão. Caíam dois terços do núcleo duro da equipa e três terços da motivação de Draymond Green. E, mesmo com o regresso de Curry a tempo inteiro na última época, a dinastia dos Warriors parecia ser passado.

Por tudo isto, não era difícil descartar os Warriors das luzes da ribalta, antes do início desta época. Steph Curry, já com 33 anos, vinha de dois anos sem sucesso - na temporada passada os californianos nem sequer passaram do torneio play-in -, Draymond Green parecia ter perdido o foco e a forma que fizeram dele Defensive Player of the Year Award (DPOY) em 2016-17 e membro das All-Defensive Teams em seis ocasiões, e Klay Thompson não joga desde as infames Finais de 2019. Só muito «wishful thinking» suportaria a defesa destes Warriors.



Mas tudo o que podia acontecer de bom aos campeões de 2015, 2017 e 2018 está a acontecer.

Steph Curry está a jogar a um nível muito próximo daquele que lhe mereceu o prémio de único MVP unânime da história da NBA. O melhor lançador de sempre está a marcar um máximo de carreira de 5.4 triplos por jogo (com uma eficiência de 41.8%) e, pela primeira vez em 13 anos como profissional, lança quase o dobro das tentativas de três pontos (12.9) do que de dois (6.9). Com percentagens de carreira de 48/43/91, Curry é o epicentro de tudo o que de bom acontece no ataque da equipa, tenha ou não a bola nas mãos.

Hoje, é muito mais do que apenas um lançador exímio. As duas épocas sem idas aos play-offs permitiram a Steph descansar e trabalhar o corpo para aguentar o poder físico dos bloqueios da NBA e a cada novo ano apresenta novos truques e finalizações nas áreas próximas do cesto. O controlo do corpo, a velocidade, a perceção do campo continuam a melhorar a olhos vistos e tudo isso beneficia-o não só a ele, mas também aos colegas. Draymond Green, por exemplo, é um dos que mais ganha com a evolução de Curry.

Com todas as atenções dos defensores adversários sobre esta versão de Curry, ainda mais perigoso e a lançar com mais volume da linha dos três pontos, a visão de jogo de Dray é potenciada no meio-campo ofensivo. Abre-se todo um mundo novo - leiam-se linhas de passe - para um dos jogadores da NBA com maior capacidade para explorar ângulos e timings para fazer a bola viajar do ponto A ao ponto B. Mas não só. Green está mais eficaz do que nunca no capítulo do "tiro", com máximo de carreira de 55.8% nos lançamentos de campo.

Se no ataque está a jogar o melhor basquetebol da carreira, o mesmo poderá ser dito do lado contrário. Depois de ter assumido que perdeu a motivação nos últimos dois anos, ao perceber que os Warriors não seriam competitivos frente às equipas de topo da liga, Draymond Green diz, sem rodeios, que quer ser novamente All-Star e aponta ao prémio de DPOY. E não são só palavras. Tem sido a âncora defensiva, nas ações e nas palavras, de um sistema defensivo concebido na perfeição e ajustado a este plantel.

Mas há mais motivos que justificam este extraordinário arranque dos Warriors. Andrew Wiggins tem sido uma terceira referência muito consistente, Jordan Poole está a lançar uma candidatura ao prémio de Most Improved Player, Kevon Looney oferece minutos de qualidade na rotação interior e o banco de suplentes é, pela primeira vez em alguns anos, profundo. Os veteranos Andre Iguodala, Otto Porter Jr. e Nemanja Bjelica entraram sem problemas na rotação, enquanto Damion Lee, Gary Payton II e Juan Toscano-Anderson acrescentam mais-valia em tarefas específicas. E os «rookies» Jonathan Kuminga e Moses Moody ainda estão a aparecer.

Com este conjunto de atletas, todos com condições para ter minutos noite após noite, os Warriors têm o melhor registo da liga (16 vitórias e 2 derrotas) e são líderes em inúmeras categorias estatísticas: pontos por jogo (114.3), triplos marcados (15.2), assistências (29.4) e têm o segundo melhor ataque da NBA (113.0 pontos marcados por cada 100 posses de bola). Na defesa, são mesmo os melhores da liga em eficiência (99.7 pontos sofridos por cada 100 posses de bola) e ressaltos defensivos (37.6), são a equipa que menos pontos sofre na área restritiva (39.7), a que obriga os adversários a piores percentagens nos lançamentos de campo (42.0%) e uma das que contesta mais "tiros" longos (24.2) e das que provoca mais perdas de bola (16.3).

A única equipa da liga que marcou, pelo menos, 100 pontos em todos os jogos da época prepara-se, ainda, para receber mais dois reforços. Para além do poste de segundo ano James Wiseman, o lançador Klay Thompson foi autorizado a treinar com contacto e já integra os treinos 5x5 do conjunto californiano e o regresso é aguardado com muita expectativa. Depois das duas lesões gravíssimas que sofreu, o "Splash Brother" de Steph Curry está com fome de bola, de campo e de (mais) títulos.

Se Klay for capaz de aguentar as agruras do jogo ainda mais físico do que os novos critérios de arbitragem, mais permissivos aos contactos, têm proporcionado, e se provar que lançar bolas ao cesto é mesmo como andar de bicicleta, os Warriors acrescentam um provável futuro Hall of Famer e poderão assumir-se como um dos mais sérios candidatos ao título. Com Steph, Klay, Draymond e uma mão cheia de jogadores de rotação, entre miúdos e veteranos, os Warriors querem voltar atrás no tempo e provar que é possível ganhar, sem Kevin Durant, outra vez.

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