Começou com mais de uma hora de atraso, mas quando arrancou, o presidente do Sporting não poupou ninguém. Começando pela imprensa e acabando no presidente da Mesa da Assembleia Geral do clube, Bruno de Carvalho esteve quase duas horas a falar não apenas da vida atual do clube de Alvalade, mas também da vida de um presidente que se sente alvo de “terrorismo” e "bullying” por parte da comunicação social.

“Eu não sei onde está a minha filha Diana porque a minha ex-mulher considera que estejam reunidas condições de segurança”, disse a dada altura o líder do clube leonino, ilustrando desta forma essa tal campanha que denuncia estar a ser feita contra ele.

Mas vamos por partes. Quatro grandes pontos a reter:

A sessão começa com Bruno de Carvalho a espalhar sobre a mesa diversos jornais. Foram eles o primeiro alvo: “Hoje isto chegou a um ponto inaceitável", afirmou.

"Nós somos pais, filhos e maridos, nós temos a nossa dignidade, honra, respeitabilidade, e esta campanha que se instalou, cuja comunicação social dá eco, chegou ao limite de hoje no 'Expresso' se dizer — e estamos a falar de um jornal de referência — Brunos de Carvalho devem ser mortos à nascença”, disse, aludindo a um artigo de opinião de Miguel Sousa Tavares, hoje publicado naquele semanário [acesso pago].

“Temos capas onde, com caricaturas, estou eu com um bastão a dizer: 'Bruno deu aval a agressões'. Temos capas que dizem que os jogadores consideram que seria uma afronta eu ir à final [da Taça de Portugal]. Outra capa que diz que os jogadores não querem o Bruno no Jamor. Outra que tentámos comprar mais atletas e que faltam duas demissões para o Bruno cair”, diz o líder do clube de Alvalade.

“E mais, e mais, e mais", continua Bruno de Carvalho. "Isto tem de ter o seu limite. E já foram ultrapassados, e isto já nem é uma questão de processos, já é um total desrespeito pelo sentido das regras mais basilares da democracia, um total desrespeito pelos princípios humanos e direitos humanos", atira.

"E aquilo que eu senti durante toda esta noite — nós temos estado a trabalhar — é que estamos a ser alvo (…) de completo de bullying, de completo terrorismo. E neste momento a única coisa que falta é entrar-nos aqui, como aconteceu naquele ato hediondo e criminoso na Academia, um grupo de pessoas e arrancarem-nos partes do corpo ou…”, disse ainda.

“Nós já sofremos tanto, tanto nas mãos das televisões e dos comentadores. Sportinguistas que estão a ser levados numa teia de perceções (…) e tenho pena de que a comunicação social esteja a contribuir para atos de verdadeiro terrorismo”, completou.

“Neste momento, perante o ataque mais vil, pessoal e indigno que nos estão a fazer, não vejo afinal onde é que estão as pessoas que sabiam da capacidade de manipulação da comunicação social e que estão a deixar morrer aquele presidente que juraram, em várias assembleias gerais e eleições, [proteger]. [O presidente] que podia dar 24 horas do seu tempo e o corpo às balas e denunciar tudo aquilo que são as coisas más do desporto”, afirma ainda Bruno de Carvalho, recordando ter sido o presidente e a direção mais votados de sempre, lembrando a última assembleia geral.

Crise "começa nos jogadores"

O outro grande alvo foram os jogadores. Acusa-os de, mesmo que de forma involuntária, serem os responsáveis pelo que aconteceu em Alcochete.

“Os nossos jogadores são muito profissionais e têm brio. Por vezes nos jogos não dão tudo o que podem, mas isso acontece um pouco a todos nós na vida. Mas pedir rescisão por um ato que começa numa rixa [na Madeira] — que eu acho que os jogadores não perceberam o impacto e a dimensão — mas que pelos vistos teve [grande impacto], e começa nos jogadores.”

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“O Rui Patrício não pode, não deve, nos estacionamentos do Sporting dirigir-se aos adeptos do Sporting chamando-lhes nomes e dizendo-lhes que sabiam que estavam pagos", explica Bruno de Carvalho, aludindo a eventos que se terão passado quando a equipa chegou da Madeira.

“Rui Patrício sabe mais do que isto, tem mais inteligência emocional do que isto", acusa." Não devemos entrar neste tipo de situações com os adeptos, temos de saber medir aquilo que fazemos e dizemos”.

“As coisas tiveram um início e não foi no presidente, administração ou direção”, acrescenta Bruno de Carvalho.

Bruno de Carvalho acusou ainda a comunicação social de se aproveitar de um “homem abatido” e de tirar do contexto as suas afirmações sobre um ato [agressões em Alcochete] que considera “bárbaro” e, desta forma, “desonrar um homem que é honrado, digno e merecedor de respeito e que tem os seus direitos enquanto ser humano e enquanto presidente do Sporting Clube de Portugal e Sporting Clube de Portugal SAD. Um ato hediondo”.

“O que sabemos é que na Madeira houve atletas do Sporting que por impulsividade não conseguiram aguentar a frustração [dos adeptos]. Eu confesso que os percebo, é duro, para pessoas de sangue quente, que se sentem injustiçadas.”

E explica: “A verdade é que, sem o nosso conhecimento, foi dito por um dos ex-líderes da claque Juventude Leonina que iria, na terça-feira, falar com esses atletas que lhes chamaram nomes [na Madeira] e que se viraram — e continuo a dizer que os atletas não têm culpa do que se passou na Academia, que foi um ato vil, mas que teve uma origem, de facto”, sublinha o presidente do Sporting.

Já sobre o suspeito BMW azul, que entrou na Academia de Alcochete após as agressões e cujo alegado proprietário tem dado várias entrevistas à imprensa nas últimas horas, Bruno de Carvalho assegura que a autorização para a entrada da viatura não foi dada pela administração da SAD.

Acrescenta ainda que estaria na Academia, como combinado, pelas 16:00, caso não tivesse sido obrigado a reunir-se com o gabinete jurídico por causa da operação 'Cashball' — que investiga a alegada compra de árbitros e adeptos para influenciar jogos de andebol e futebol.

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“Os atletas são para mim família”, diz Bruno de Carvalho, acrescentando que “em tempo algum deixaria que se fizesse mal à [sua] família”.

Apesar dos acontecimentos de terça-feira, Bruno de Carvalho reitera que a Academia de Alcochete é um local seguro. “Sempre foi um local seguro. Eu garanto a segurança de todos os atletas de todas as modalidades”, reforçou. Bruno de Carvalho pediu ainda aos adeptos que façam da Festa do Final da Taça no Jamor “uma verdadeira festa”.

“Não provoquem o mínimo de distúrbio. O mundo está a olhar para nós”, disse salientando que a equipa de futebol e instituição merecem apoio.

O Presidente do Sporting lamentou ainda que, no que diz respeito aos acontecimentos em Alcochete, o clube não tivesse recebido uma nota de solidariedade de qualquer órgão de soberania.

Questionado sobre se o primeiro treino após a derrota na Madeira não justificava um reforço em Alcochete, Bruno de Carvalho reiterou que não fazia ideia de que elementos da claque tinham prometido ir a Alcochete e reiterou que os jogadores deveriam ter dado o alarme.

Jaime Marta Soares e o alegado convite para encontro com o "amigo" Luís Filipe Vieira

Apontando também baterias a Jaime Marta Soares, Bruno de Carvalho acusa do presidente da Mesa Assembleia Geral de lhe fazer um convite para um encontro secreto com “o seu amigo” Luís Filipe Vieira.

Bruno de Carvalho acusa ainda Jaime Marta Soares de mentir ao dizer à comunicação social que presidente e treinador da equipa principal de futebol trocaram parcas palavras ou que os jogadores se recusaram a reunir com ele. “Jaime Marta Soares não tem o direito de mentir”, salientou.

"Estamos num clima de terror"

Bruno de Carvalho abordou ainda as críticas que têm sido feitas pelos chamados notáveis do Sporting, bem como das críticas de acionistas como Álvaro Sobrinho, dizendo que a Holdimo já devia ter vendido a sua participação.

“A Holdimo é um caso curioso da comunicação social portuguesa. Álvaro Sobrinho era um dos homens mais mal falados — só parou esta semana porque passei a ser eu — (…) e neste momento aparece quase como um herói nacional”, diz Bruno de Carvalho.

“Quero vos dizer que nós não tivemos nenhum relacionamento em especial com a Holdimo", disse o presidente do clube de Alvalade. "Há muito tempo que para nós, enquanto sportinguistas e comissão executiva da SAD, a Holdimo devia ter vendido a sua participação, porque a Holdimo não é uma marca ideal para dar nome e prestígio ao Sporting", acusa.

O presidente leonino lembrou ainda que a Holdimo tem um 300 mil euros de dívida ao clube.

Baterias apontadas também a José Maria Ricciardi, que Bruno de Carvalho acusa de ser "o estratega de tudo isto o que se está a passar.”

“Porque é que José Maria Ricciardi mudou a sua posição e com ele tantos dos que se diziam nossos apoiantes? Porque José Maria Ricciardi é um sobrevivente, vai passando pelos pingos da chuva nem que tenha de ter a família toda na cadeia.”

Bruno de Carvalho acusa, então, José Maria Ricciardi de ser “autor moral” dos ataques ao Sporting, atribuindo a sua inimizade a esta direção ao momento em que lhe foi recusado fazer negócio com o clube — prestando assessoria através de uma das suas empresas. Ricciardi “homem de muitas promessas”, diz Bruno de Carvalho, terá prometido 15 milhões de euros na contratação de Jesus, porém, atira Bruno, o clube continua “à espera até hoje”.

“Nós, direção e administração, estamos neste momento num clima de terror”, diz Bruno de Carvalho.

Numa reação à SIC Notícias, já na tarde deste sábado, Ricciardi considera que as palavras de Bruno de Carvalho são "um grande elogio" e só vê dois destinos para Bruno de Carvalho: ser arrastado pela justiça, ou internado numa instituição psiquiátrica.

Outras menções honrosas

Talvez não possam ser menções honrosas, dado o contexto, mas há uma passagem, em resposta aos jornalistas, em que Bruno de Carvalho antevê uma teoria para a razão desta alegada campanha contra a sua liderança do clube: "As pessoas não gostam de que eu diga a verdade sobre o Presidente da República — que eu posso dizer o que quero porque ele andou comigo ao colo, tenho pena de que se tenha esquecido — eu digo o que tenho para dizer sobre o secretário de Estado, sobre o IPDJ [Instituto Português do Desporto e Juventude], sobre a Procuradoria, Ministério Público, Federação, Liga, Governos, digo o tenho para dizer sobre tudo e isso não agrada”.

Jogadores treinam esta tarde no Jamor

Recorde-se que esta declaração acontece horas antes de o plantel de futebol treinar no Estádio Nacional, em Oeiras, na véspera da final da Taça de Portugal.

Este será o primeiro treino de grupo dos 'leões' esta semana, marcada pelo ataque de terça-feira na Academia do Sporting, em Alcochete, onde dezenas de encapuzados invadiram as instalações e agrediram jogadores e elementos da equipa técnica no balneário.

O programa de atividades divulgado ontem pela Federação Portuguesa de Futebol, em que constava um treino do Desportivo das Aves também no Jamor, às 11:00, não previa qualquer conferência de imprensa.

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Por volta das 11:30 desta manhã, porém, Alvalade fez saber que o Sporting ia fazer uma conferência de imprensa, no estádio do clube, em Lisboa, às 13:00, sem adiantar o tema.

O Sporting e o Desportivo das Aves defrontam-se a partir das 17:45 de domingo, na 78.ª final da Taça de Portugal.

O clube de Alvalade atravessa momentos de crise na sequência das agressões da passa terça-feira, 15 de maio, em que a equipa de futebol foi atacada na Academia de Alcochete por um grupo de cerca de 50 pessoas, que agrediram técnicos e jogadores. A GNR deteve 23 dos atacantes.

Paralelamente, a Polícia Judiciária deteve na quarta-feira quatro pessoas na sequência de denúncias de alegada corrupção em jogos de andebol, incluindo o diretor desportivo do futebol, André Geraldes, que foi libertado sob caução e impedido de exercer funções desportivas.

O cenário agravou-se com as demissões na quinta-feira da Mesa da Assembleia Geral, em bloco, e da maioria dos membros do Conselho Fiscal e Disciplinar, instando o presidente do Sporting a seguir o seu exemplo, mas Bruno de Carvalho anunciou ao fim do dia que se irá manter no cargo.

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