Há sessenta 21s de Agosto atrás, casavam-se os meus avós. Ontem celebraram a data com toda a descendência familiar, inexistente na altura. Esta data pode espoletar logo duas reações diferentes, não antagónicas, mas pelo menos divergentes. A primeira, espero que a mais comum, o embevecimento, a ternura, a esperança, o “quem me dera” ou até o “se eu chegar a 10 anos de casado/a já é um milagre”. A outra, rara, tanto quando pude verificar, é de desconfiança, de “mas casados só por estar casados, ou companheiros a sério?”, ou até de “deus me livre”. Consigo rever-me neste último comentário.

Não que seja ativamente contra a monogamia, é mais porque a mim não é coisa que, ao longo da vida, com a minha personalidade se tenha coadunado. Quanto aos meus avós, obviamente que acho lindíssima toda esta vida de companheirismo, completamente dedicada à família, e não podia ser mais grato. E até posso assegurar aos mais desconfiados que eles não estão casados por estar, mesmo que todos conheçamos vários namorados ou casados cujo sentido de continuarem juntos é quase tão grande como em 2020 haver gente que acredita mesmo que a Terra é plana ou que as vacinas são um embuste. Mas que as há, há.

Sobre a monogamia, tenho genuinamente uma visão céptica. Não que não acredite na sua romântica possibilidade. O meu cepticismo deve-se, entre outras coisas, a essa tal abundância de casais de papel que se limitaram a seguir as instruções mecânicas da sociedade sem que acrescentem nada à vida de um outro, e até, pelo contrário, sejam fonte recíproca de infelicidade.

A monogamia é-nos imposta como a única solução possível para uma vida amorosa preenchida. Surpresa: não é. Quando digo imposta, digo enquanto pressão social, e até como é mal visto o poliamor, as não-monogamias consentidas e até a própria opção de se ser solteiro/a. Mas seria assunto longo para esta crónica. O ponto aqui é mesmo o amor dos meus avós um pelo outro e pela família ser tal que é capaz de abalar o mais céptico dos cépticos da monogamia e do amor eterno. Têm sido 60 anos de casados (mais uns poucos de namoro), 60 anos de “fecha o armário da cozinha” e de “já te sujaste, vai mudar a blusa que não vais assim para a rua”, 60 anos de viver exclusivamente para a família, de fazer tudo para ver a família unida e feliz, e de dar tudo aos netos (que, por acaso, bem merecemos por sermos os seis incríveis). A verdade é que eu teria de viver uns 500 anos para conseguir agradecer aos meus avós tudo o que são, tudo o que representam, tudo o que fazem um pelo outro e por nós. Por me fazerem pensar que se a monogamia é isto, até faz todo o sentido.

Continuo a não a querer para mim, mas isso é outra conversa.

Muitos parabéns, avós, e obrigado por tudo.

Sugestões mais ou menos culturais que, no caso de não valerem a pena, vos permitem vir insultar-me e cobrar-me uma jola:

- GAC: Grupo de Acção Cultural, conjunto de músicos de intervenção contra o fascismo do qual o meu pai fez parte e foi até dirigente. Podem ouvir no Spotify e YouTube.

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