A história — de Portugal, de Espanha e do mundo — teria sido muito diferente. No entanto, podemos tentar imaginar o que teria acontecido se a história do país vizinho tivesse seguido um rumo parecido ao que seguiu no nosso mundo, só que com Portugal lá dentro.

Comecemos por reconhecer que o castelhano era, em 1580, quando Filipe I se tornou rei de Portugal, uma língua de muito prestígio em Lisboa. Lembremo-nos de que Camões também escreveu em castelhano, assim como muitos outros escritores portugueses. A situação não mudou em 1580 e, se 1640 tivesse sido um ano como os outros, a língua dos vizinhos continuaria a ser uma língua de prestígio e muito usada em Portugal.

No entanto, estou convencido de que o português continuaria ser usado e a ter bastante prestígio, provavelmente mais que as outras línguas não castelhanas de Espanha, por ter sido a língua de um reino tão importante até tão tarde.

O verdadeiro problema — a verdadeira ameaça à nossa língua — começaria no século XVIII e continuaria pelos séculos XIX e XX. Depois da Revolução Francesa, muitos Estados europeus tentaram reinventar-se como Estados-nação. As elites da tal Espanha imaginária com Portugal lá dentro começariam a ver-se, cada vez mais, como as elites de uma Nação una, com uma História inevitável e uma língua acima de todas as outras.

Foi, aliás, o que aconteceu no nosso mundo. Ainda antes da Revolução Francesa, no início do século XVIII, Espanha impôs as leis castelhanas à velha coroa de Aragão. No século XIX, o Estado espanhol continuou o processo de limpeza. O território foi restruturado: eliminaram-se os velhos reinos e divisões antigas e impôs-se um novo mapa de províncias, com limites que não seguiam as velhas fronteiras. Foi então que, formalmente, a Galiza deixou de ser um reino (e é só um exemplo). 

Ora, no mundo que estamos a imaginar, em que o golpe de 1640 não ocorreu, teria sido esse, provavelmente, o destino de Portugal: no século XIX, deixaria de ser formalmente um reino e passaria a ser apenas um conjunto de províncias.

A língua portuguesa deixaria de ter qualquer uso oficial. Seria crescentemente considerada um resquício antigo, local, provinciano. Talvez a força de Lisboa como uma das principais cidades dessa Espanha imaginária garantisse alguma fortuna literária à língua, como a força de Barcelona garantiu ao catalão, mas esses seriam desenvolvimentos vistos com muita desconfiança pelo poder central.

No Brasil, já agora, é bem provável que o português nunca se tivesse espalhado. Afinal, em 1640 não havia ainda muitos falantes da nossa língua por lá. O português só se tornou a língua de quase todos os brasileiros durante os séculos XVIII e XIX. Com o prestígio do castelhano, e enquanto colónia espanhola, é bem provável que o Brasil se tivesse tornado um país de língua castelhana — ou, talvez, em vários países de língua castelhana.

Voltando a Portugal, pensemos como teria sido o século XX. O processo de castelhanização seria imparável. A escolarização da população teria sido feita em espanhol (o nome que a língua assumiria) e muitas gerações de portugueses teriam aprendido a escrever apenas em espanhol, mesmo se falassem português desde a infância.

No século XX, teria havido uma ditadura como a de Franco, que reimaginaria a história para garantir que a história de Portugal, como muitas outras histórias ibéricas, fosse desvalorizada e integrada na grande História de Espanha. 

Durante décadas, a rádio e a televisão também teriam sido apenas e só em espanhol. Uma possível RTP teria surgido apenas nos anos 80, depois da transição para a democracia. 

Nessa democracia, como aconteceu com as outras línguas de Espanha no mundo a sério, teríamos tentado recuperar o prestígio da nossa língua, lembrando Os Lusíadas e outros grandes autores anteriores a 1580 (ninguém teria escrito Os Maias, provavelmente). Talvez agora, no século XXI, o português estivesse presente na escola, mas sempre com grandes reservas por parte dos outros espanhóis.

A língua, essa, estaria certamente ainda mais influenciada pelo castelhano do que esteve na época de Camões.

Muitas pessoas mais velhas saberiam falar português, mas não saberiam escrever português. Muitos mais novos saberiam escrever em português, mas falariam cada vez mais castelhano.

Algumas famílias teriam ensinado apenas castelhano aos filhos, julgando que os estavam a ajudar.

Ouviríamos muito castelhano pelas ruas deste país, principalmente nas cidades. 

Muitos estrangeiros nem saberiam que falamos outra língua e muitos espanhóis diriam que o português é um dialecto do espanhol. O próprio uso da nossa língua seria visto com desconfiança por muitas pessoas. Nas redes sociais, textos escritos em português seriam inundados de comentários a pedir que escrevêssemos em castelhano. 

Ainda bem que não estamos nesse mundo.

Mas, se quisermos ver uma situação muito parecida com esta, não é preciso ir muito longe: basta ir à Galiza. Fala-se por lá uma língua com a mesma origem que a nossa e muito parecida com o português — só que ficou dentro de Espanha.

Marco Neves | Professor e tradutor. Escreve sobre línguas e outras viagens na página Certas Palavras e publica um episódio diário no canal Pilha de Livros

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