Muito se falou do Rendimento Social de Inserção nos últimos dias, mas os debates para as legislativas é que o deviam receber, uma vez que são extremamente pobres e não têm capacidade para serem úteis à sociedade. Na base das insuficiências, está a sua inacreditável curta duração. O país que concede menos de meia hora para ouvir os candidatos às eleições mais relevantes do calendário não pode ser o mesmo país que tem noticiários televisivos de duas horas e dezenas de painéis de comentário político. Nem vale a pena comparar com o interesse dedicado ao desporto, mas ainda assim, no futebol, por muito que os programas de comentário durem muito, pelo menos os jogos têm hora e meia. Na fase a eliminar da Champions da política portuguesa, há 12 minutos em cada parte.

Durando apenas 25 minutos, os debates já são suficientemente parecidos com uma sitcom. Como se não bastasse, ainda temos de levar com o Kramer da política portuguesa. Sim, sim, é esse. Tanto André Ventura como Cosmo Kramer entram de rompante, interrompendo com pouca educação - que lhes é perdoada por causa da extravagância - são inconvenientes, mexem muito as mãos, são desligados do mundo real, trazem sempre uma narrativa rocambolesca e já arranjaram problemas por causa de racismo na praça pública. Esta ofensiva associação obriga-me a endereçar desde já o meu pedido de desculpas aos visados (os fãs da série, claro).

Tal como Michael Richards lucrou com a sua presença em Seinfeld (sem a qual a sua carreira provavelmente seria irrelevante), André Ventura também beneficia do formato debate-sitcom (sem os quais não conseguiria parecer minimamente credível). Na ausência de tempo para debates sobre propostas concretas para a resolução dos problemas dos portugueses, é natural que as pantomimas de Ventura sobressaiam como momentos-chave da discussão. Para criar um destaque, basta-lhe imprimir uma notícia; e todos sabemos como gosta o líder do Chega de gastar consumíveis. A esmagadora maioria do orçamento de campanha do seu partido já terá ido parar à caixa registadora de uma tipografia. André Ventura é um raro caso de deputado da nação que passa mais tempo na casa de cópias do que na casa da democracia. Por outro lado, faz sentido que Ventura seja um entusiasta de reprografias: o seu projecto político não passa de uma fotocópia do manual de regras do Steve Bannon.

Só que isto não é uma comédia de situação, é a 48ª temporada da série “Democracia Portuguesa”, uma narrativa dramática primeiramente entusiasmante, hoje cada vez mais enfadonha. Se queremos combater o fastio com participação democrática, talvez valesse a pena conceder a quem se apresenta a eleições um tempo de antena ligeiramente mais longo do que um intervalo comercial. Caso contrário, o país enquadrar-se-á de facto no formato de sitcom, em que há uma série de mal-entendidos para entreter, mas nada muda no fim do episódio. Não foi para estes 25 minutos que se fez o 25 de Abril.

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