A obrigatoriedade de abordar outro tema vem pelo que aqui escrevi há uma semana. Na quarta-feira passada atirei-me a novidades sobre a Operação Marquês (não tanto referentes ao caso em si, mas às pessoas que estratégica e concertadamente sacudiram o Sócrates do capote) e acabei por redigir um texto tão extenso que decidi dividi-lo em duas partes. Hoje seria o dia de publicar a segunda, e só por isso me furto ao premente assunto sportinguista.

Por coincidência (ou providência), consigo fazer uma transição suave entre temas: à hora em que escrevo, está Carlos César na SIC Notícias a comentar o caso da Academia de Alcochete. O socialista, que integrou a Comissão de Honra do actual presidente leonino, acabou de repudiar Bruno de Carvalho. Em 2 semanas, Carlos César deixa cair José Sócrates e Bruno de Carvalho. Com esta preponderância recente para se posicionar no lado certo da História, daqui a nada César está a deserdar os familiares que ocuparam cargos públicos de forma questionável.

Avancemos. Ia, finalmente, trazer a segunda parte do que redigi na semana passada, mas acabam de ocorrer-me outros planos. Ao invés de concluir o tema socratino com o que escrevi de antemão, vou antes responder a alguns comentários que a minha última crónica recebeu. Creio que, mesmo assim, alcançarei as conclusões pretendidas.

Primeiro respondo a um comentário pertinente (nesta altura não percebo se foi apagado ou simplesmente remodelado). Face ao dilema/chavão que propus (vai assim: “Como presumir a inocência de alguém quando isso dá a presumir a nossa própria estupidez?”), um leitor insurgiu-se. A achega que me dá é esta: “Dura Lex, sed lex” – sugere que o que eu penso não importa aqui, e é a Lei que tem de prevalecer. Ora, o meu ponto é exactamente o de que a Operação Marquês não se extingue na sua legalidade.

A Justiça tem limites aflitivos mas compreensíveis, e o braço curto que às vezes nos frustra (por não chegar onde deve) é o mesmo braço que, na sua curteza, nos protege de apalpões e abusos imerecidos. Contudo, um facto usado para uma conclusão moral não tem que sofrer as mesmas restrições, nem provocar as mesmas discussões, que um facto usado no tribunal. Antes de qualquer veredicto dado por juízes, neste caso de Sócrates temos já dados suficientes para muitas deliberações políticas, e outras tantas morais. Basta não presumirmos a estupidez uns dos outros, e sabermos como jogar aos “alegadamentes”.

Para vincar esta ideia, recordo aquele famoso episódio de Rui Moreira no programa Trio de Ataque. O actual presidente da Câmara do Porto levantou-se e abandonou a emissão em directo, agastado com o comentador afecto ao Benfica, António-Pedro Vasconcelos. O benfiquista não se cansava de referenciar as escutas a Pinto da Costa (aquelas disponíveis no YouTube, onde se ouve o presidente do FC Porto a conferenciar com um árbitro, ou a cozinhar notícias com o jornalista António Tavares Teles). Rui Moreira indignou-se, afirmando que estava a ser feito um “auto-de-fé”. Na óptica do portista, uma vez que as escutas tinham sido inviabilizadas pela Justiça, também teriam de ser inviabilizadas no olho público; se o tribunal não podia utilizá-las, então era forçoso que toda a gente considerasse que nada daquilo contido nas gravações tinha acontecido.

Estarei com Rui Moreira nisto: se a obtenção das escutas foi ilegal, não pode haver maneira alguma de elas surgirem como prova em tribunal – mais uma vez, o braço curto da Justiça é frustrante, mas indispensável. Já noutras coisas é impossível estar com Rui Moreira: nesta tentativa de usar o apagador de memória à la Men in Black. É absurdo achar que os limites da justiça também nos devem forçar à amnésia. E quando Moreira lamenta os “autos de fé” faz, afinal, uma leitura correcta: se a lei não pode operar, como evitar que a consciência colectiva dos indignados opere? Os autos-de-fé modernos (em fóruns públicos, e em redes sociais) acabam por ser inevitáveis, senão indispensáveis.

Transpondo para o caso da Operação Marquês: se todas aquelas escutas e gravações fossem consideradas ilegais por algum motivo, teríamos nós de fingir que nunca as tínhamos escutado? Teríamos de apregoar que nunca aconteceram? Teríamos de estender a passadeira vermelha a José Sócrates e abrir-lhe as portas do Palácio de Belém?

Antes que me esqueça, uma palavra sobre o Segredo de Justiça: se a violação do Segredo de Justiça é rasteira ou não, a culpa não é minha – é o caso em que prefiro que se mate o mensageiro, não que se force alzheimer aos destinatários da mensagem. Esquecer, nunca! Não somos obrigados a ter a memória tão curta quanto o braço da Justiça. Não temos de ordenar a destruição dos arquivos do conhecimento - não temos de ser um Pinto Monteiro, nem um Noronha do Nascimento, para a consciência social.

O outro comentário a que me digno responder é também já um clássico: perguntam-me porque é que eu falo de Sócrates quando há os Passos e Portas e Dias Loureiros e Duartes Limas desta vida? Bem, vou ser sincero e sobranceiro na resposta: porque me apetece. Esse é mesmo o primeiro factor. Mas, antes que me acusem de engajamento político, friso que “me apetece” porque o caso socratino suplanta todos os outros, quer em enredo, quer em abrangência, quer em ambições, quer em consequências – neste sentido, o interesse maior suscitado pelo caso Sócrates é tão óbvio que, quem me colocou esta questão é que está logo a demonstrar o seu engajamento e o seu facciosismo.

O João Miguel Tavares (verdadeiro Van Helsing para o vampiro/engenheiro da Transilvânia transmontana) tem uma abordagem concisa sobre este último assunto e, portanto, deixar-lhe-ei o link no meu espaço de recomendações. Furtando-me a mais explicações, passo a revelações. Vou confessar qual a raiz do meu desdém pelo ex Primeiro Ministro:

Não é pelo que agora veio ao de cima. Também não é pelo que antes já era claro, apesar da vista grossa que se fazia (vista grossa que torna certos jornalistas e certos políticos, quase todos ainda em funções, numa de duas coisas: incompetentes ou cúmplices).

Não é pela retórica insana e martirizada que Sócrates nos deu a engolir – o ex Primeiro Ministro promovia esta conclusão inversa: quanto mais casos e mais suspeitas, mais se provava que havia uma perseguição óbvia, uma cabala óbvia, nunca um pulha óbvio.

Não é pelas matreirices egocêntricas, como a compra massiva dos próprios livros, ou as exigência em programas televisivos de entretenimento onde era convidado: alguns que eram em directo passavam a diferido; as questões teriam de ser-lhe enviadas de antemão.  Fazia depois o brilharete encenado, a improvisação burlona.  Oh, quanta elegância vigarista...

Não, não é por nada disto. É pela usurpação. Sinto-a na pele. A única casa que eu tenho situa-se em Tondela, divido-a com muitos co-herdeiros e está quase devoluta. Eu, senhor ex-Primeiro Ministro, eu é que sou um pobre provinciano.

SÍTIOS CERTOS, LUGARES CERTOS E O RESTO

Sócrates

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