João Miguel Tavares (JMT), ainda no debate que a polémica crónica de Maria de Fátima Bonifácio originou, escreve hoje que considera que há culturas superiores a outras. É mais uma de inúmeras crónicas que se têm escrito à conta do delírio da historiadora.

Eu concordo com JMT quando diz que “não é preciso levar ninguém a tribunal para que as ideias com que não concordamos sejam combatidas”, não concordo quando acrescenta: “Se um mau artigo deu origem a vários excelentes artigos, a sociedade perdeu o quê, exactamente? Nada. Só ganhou”. Não sei bem se é saudável alinharmos nisto. “Se Chernobyl deu uma excelente série, a sociedade perdeu o quê, exatamente? Nada. Só ganhou”. Fica estranho, não é? Por mim, um privilegiado com acesso a streaming, tudo bem. Talvez caia mal à malta que ficou a brilhar no escuro com radiação.

Mas enfim. Avancemos, superiormente, para o choque cultural.

“O pressuposto de que nenhuma cultura é superior à outra também já deu bastante barraca nas últimas décadas, nomeadamente na Europa, onde a paixão multiculturalista produziu os guetos que alimentaram o terrorismo.”

Ou seja, foram os adeptos da diversidade que promoveram o acantonamento em guetos das culturas inferiores. O que JMT quer dizer é que a esquerda gosta tanto de imigrantes que eles se sentiram sufocados com tanto amor ao ponto de decidirem começar a fabricar bombas caseiras, já que não tinham coragem para acabar com a relação por mensagem. E que a direita é uma amante kinky das minorias, que sente que estas gostam de BDSM, pelo que veste cabedal, algema os imigrantes, pega no chicote e grita “diz que a minha cultura é melhor que a tua!”, “diz que a minha cultura é melhor que a tua!”, “diz que a minha cultura é melhor que a tua!”.

“Se os homens produzem cultura como as abelhas produzem mel, então é fácil saber quais são as melhores culturas: é aquelas que mais homens desejam consumir.”

Em primeiro lugar, não sou antropólogo nem apicultor. Contudo, tenho a convicção de que os homens não produzem cultura como as abelhas produzem mel. As abelhas são mais organizadas e de certeza que não têm uma cultura tão estupidificante.

Reparem, duvido que as abelhas tenham uma canção infantil sobre como um desenho animado sodomizou um ser humano, já nós temos “o Calimero foi ao...”. Enfim, vocês perceberam.

Em todo o caso, acho perigoso assumir que o mais popular é o melhor. Mas isso é uma conversa para se ter com um copo do melhor vinho de sempre (Mateus Rosé) na mão, ao som do melhor músico da atualidade (Tony Carreira) enquanto passam reposições do programa da história na televisão (Big Brother), depois de decidir em quem votar para a eternidade (Marcelo).

“Não é por acaso que não foi um zulu a escrever Romeu e Julieta, nem foi em Portugal que o iPhone foi inventado.”

Deve ser um fardo para JMT carregar o peso da cultura superior todos os dias. Associando isso à família numerosa, imagino o estado da suspensão do seu carro. Pessoalmente, sou culturalmente inseguro. Considero difícil reconhecer essa identidade tão clara que JMT vê na cultura superior.

O iPhone é produto de várias culturas. A americana, a oriental e a europeia – para além de que o seu inventor era filho de um sírio. Shakespeare nasceu na mesma terra dos hooligans ou, pior, do fish and chips. Os vikings da Noruega, em princípio, tiveram pouca influência no Estado-providência implementado pelos trabalhistas no século passado nesse país.

Os zulus não terão escrito Romeu e Julieta, até porque só surgiram como tribo depois da morte do bardo. Mas deem-lhes tempo, já que muitos são cristãos (para grande desgosto de Maria de Fátima Bonifácio), pelo que não deverão estar longe de ter as ferramentas necessárias para serem tão bons, fantásticos, infalíveis, como nós, os brancos.

Já agora, eu também não escrevi o Romeu e Julieta. Não sei se o JMT escreveu. Só se viajou no tempo até ao fim do século XVI. Já que ia visitar a sua amiga Bonifácio, acabou por dar uma mãozinha ao poeta.

Isto das culturas do Mundo é uma coisa demasiado abrangente, eu preferia que JMT tivesse regionalizado. Do género, “não é por acaso que A Mensagem não foi escrita em Portalegre, nem foi na Madeira que inventaram a francesinha”. Podia ser que ficasse mais claro que é absurdo considerar que determinado local origina uma forma de viver que será tendencialmente superior para sempre. É que viver no passado é preguiçoso. Não podemos viver sempre à sombra dos Shakespeares e dos Steve Jobs.

O Código de Hammurabi também é um grande hit da Mesopotâmia e não me parece que JMT gostasse que um processo de Sócrates contra si fosse julgado num tribunal do atual Iraque.

JMT escreve que o texto de Bonifácio levou a uma excelente discussão. Não concordo que devamos dar esse mérito à historiadora. O discurso de JMT no 10 de junho, esse sim, originou um debate interessante e rico. Um debate sobre a desigualdade de oportunidades que quem vive fora da bolha cultural das elites de Lisboa e Porto sofre.

Semanas depois, JMT vem assumir que há culturas superiores onde se vive como deve ser, e outras culturas menores das quais ninguém quer fazer parte. Portanto, portalegrenses, saiam daí, salvem-se, venham para Lisboa. Desde que, claro, assumam a nossa superioridade.

Por estes dias está em voga o “não sou racista, mas”. Eu gosto de ler JMT, mas. Porque, sim, há JMTs superiores a outros.

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