1. Água em latim

Para olharmos para o percurso destas duas línguas de forma mais concreta, olhemos para uma palavra em particular: "água".

A nossa «água» vem do latim, onde tinha a forma «aqua». Do /k/ do latim, passámos ao /g/. A mudança foi um pouco mais profunda do que parece. O nosso /g/ começou a não interromper por completo o ar e tornou-se numa consoante fricatizada. Se reparar bem, o /g/ de "água" sai continuamente da nossa boca − a consoante deixou de fechar o fluxo do ar, como acontece com o /k/. Usando o Alfabeto Fonético Internacional, o /g/ da nossa água é realizado como [ɤ]. Desse som corrente, sem interrupções, talvez venha a impressão enganadora que eu tenho de que a palavra água é muito… aquática! "Enganadora", digo − que isto de tentar encontrar a realidade na própria forma das palavras é uma ilusão. Até o ladrar dos cães é diferente de língua para língua… Apesar de tudo, nós pouco estragámos a "aqua"  latina. É certo que alguns portugueses fazem uma troca ali dentro e transformam a «água» em "auga". Nada a assinalar: as palavras dão estas belas piruetas nas suas navegações pelos séculos fora. Aliás, na Galiza, a palavra também tem estas duas formas ("água" e "auga"), mas, curiosamente, a forma adoptada pela norma oficial do galego é aquela que relegámos para o purgatório do português fora da norma: "auga" − sim, a forma popular da palavra em partes do nosso país, quando salta a fronteira, torna-se na palavra oficial.

Não acusemos, no entanto, aqueles que dizem "auga" de estragarem a bela palavra latina. Se eles estragaram, o que dizer dos catalães, que lá enfiaram uma letrita ("aigua")? O que dizer dos romenos, que a transformaram em "apă"? E, se podemos deixar descansada a palavra nas mãos dos italianos (pelo menos os que falam o toscano a que chamamos italiano), o que dizer dos franceses? O francês transformou o latim de forma mais profunda que outras línguas latinas. Não olhemos para as palavras escritas, que essas enganam bem, engalanadas como estão daquela ortografia pirotécnica.

Oiçamos com atenção os sons… Aí, encontramos uma língua que passou o latim pela trituradora. Pensemos na conjugação verbal, que na escrita ainda distingue as várias pessoas, mas na fala vai a meio caminho de deixar os verbos tão simples como os ingleses. Pensemos no velho mês de Agosto, que os franceses escrevem "août", mas lêem apenas "u". E pensemos na pobre "aqua" latina, que acabou transformada em "eau", três vogais que se lêem como um "ô". Quando referi os verbos franceses a caminho de ficarem tão simples como os ingleses, estava a pensar no presente do indicativo dos verbos regulares. A conjugação francesa ainda é bastante mais complexa do que a inglesa − ainda!… Ainda outra nota: os franceses também podem ler o belo mês de Agosto com um "t" final: "ut".

Vejamos a palavra numa selecção de línguas latinas:

AQVA

  • água − português
  • auga − galego
  • agua − castelhano
  • aigua − catalão
  • aiga − occitano
  • eau (ou melhor, /o/) − francês
  • acqua − italiano
  • jacqua − dálmata
  • apă − romeno

2. Água grega

E o grego? O que fez à água?

O grego antigo tinha "δωρ" ("húdōr"), de origem indo-europeia. Esta palavra é, aliás, a origem de várias palavras portuguesas relacionadas com água, como "hidráulico"… No entanto, se perguntarmos a um grego de hoje qual é o nome do líquido transparente que está no mar ou sai das torneiras, o que ele irá dizer é "νερό" ("neró").

O que se passou? Donde apareceu este "neró"?

Durante muitos dos séculos que nos separam da Grécia Antiga, os gregos usaram a expressão "νεαρόνδωρ" ("nearón húdōr") para denominar a água doce. A palavra "nearón" é uma declinação de "nearós", que significa algo como "jove"». Ou seja, "água doce" seria "água nova" − e com os séculos a expressão foi deixando cair uma das palavras.

Qual? Curiosamente, a palavra que caiu nessa expressão foi "húdōr", ou seja, "água". O termo para doce passou a designar todo o tipo de água, doce ou não − um pouco como se hoje o nome português para o líquido precioso fosse "doce" e tivéssemos a expressão "doce salgado" em vez de "água salgada". Nada que nos fizesse torcer o nariz se tivesse sido esse o caminho percorrido pela água na nossa língua. A velha palavra clássica grega ainda hoje se encontra em textos muito formais, talvez uma reminiscência das guerras linguísticas do katharévussa.

As línguas têm dificuldade em ficar quietas. Já vimos porquê: a nossa própria biologia, sempre ligeiramente diferente de pessoa para pessoa, implica que a língua não seja aprendida de forma perfeita por cada falante; além disso, as condições de uso nunca são as mesmas; há ainda tendências em precário equilíbrio para pouparmos o esforço e melhorarmos a expressividade…

Haverá maneira, uma vez inventada a escrita, de parar uma língua? Não será impossível, mas o resultado talvez não seja o esperado. Aliás, o próprio latim ficou conservado durante muito tempo e ainda hoje é usado em certas situações e aprendido por muitas pessoas (infelizmente, cada vez menos). Há outras línguas que se mantiveram aparentemente paradas no tempo.

Baseado num capítulo do livro História do Português desde o Big Bang.

Marco Neves | Professor e tradutor. Escreve sobre línguas e outras viagens na página Certas Palavras. O seu livro mais recente é Assim ou Assado: 100 perguntas sobre a língua portuguesa.

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