A Maria Teresa Horta é uma das mulheres que acompanho e admiro, tenho o privilégio da sua amizade. Confinadas, falamos muito ao telefone. Ela conta-me histórias da sua vida, pergunta-me o que acho disto e daquilo, partilhamos o gosto por certos poetas, pasmamos com as mesmas coisas. Somos uma irmandade de duas pessoas construída ao longo dos anos. A Maria Teresa Horta é o objecto da minha dissertação de mestrado. É de quem me lembro se algo me chama a atenção. É quem eu gosto de ouvir. E leio o que escreve desde a minha adolescência.

Diria que a palavra que melhor se adequa a esta mulher extraordinária é Desobediência. Ela explica muitas vezes que não consegue cumprir com imposições, que é desobediente, feminista convicta e sempre pronta para o dizer alto e bom som. Mulheres que falam e agem como a Maria Teresa não são amadas por este país de brandos costumes. Uma mulher que não se cala é um aborrecimento, faz mossa, custa aturar-lhe a ousadia. Eu celebro a liberdade da escritora que em 2020, aos 83 anos, comemora seis décadas de carreira literária. Procuro seguir-lhe o exemplo.

Diz sempre que é a sua poesia, que a poesia a salva, a mantém à tona e a ajuda a lidar com as maldades do mundo. Não tem o número de prémios literários que deveria ter, não é celebrada com alarido como outros, na sua maioria homens, o são. Por junto, lembro-me de três prémios ao longo de 60 anos de carreira: em 2011, foi distinguida com o Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus, pelo seu livro Luzes de Leonor. Um ano depois, o Prémio Máxima de Literatura, com o mesmo romance. Dois anos depois, recebeu o Prémio Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores, por conta do livro de contos intitulado Meninas. Conclusão? Nenhum prémio para a sua poesia, sendo Maria Teresa uma grande poetisa.

Ela não se admira, é natural que este país não considere grandemente uma mulher como ela. Eu diria que é o contrário, é absurdo que não se reconheça a excelência da sua obra, a importância da mesma. E o mesmo consideram outras tantas pessoas – até na academia – que a festejam e divulgam. Maria Teresa Horta fica sempre pasmada quando reparam nela, é um pasmar genuíno de quem sabe que as mulheres trabalham mais, têm de provar mais. O caminho faz-se caminhando, o das mulheres é só mais comprido. Mais atribulado.

É incontornável referir as Novas Cartas Portuguesas que escreveu com Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno. Um livro que podemos classificar de monumento. Quando saiu, em 1973, valeu às autoras um processo. A edição foi retirada do mercado, escapou às malhas apertadas do regime e tornou-se uma causa, a primeira causa do primeiro congresso feminista norte-americano, realizado nesse mesmo ano em Boston. Toda a história sobre este livro é contada por Maria Teresa Horta com graça e de maneira desassombrada, como só ela. A Natália Correia a telefonar-lhe para verificar isto ou aquilo num dos textos; o pacto que as autoras fizeram e que se manteve ao longo das décadas: nunca dizer quem escreveu que carta do livro.

Mas a Maria Teresa Horta é mais do que uma das Marias, mesmo que as Marias tenham espaço no cânone e isso seja justo. A poesia e ficção da autora mostram 60 anos de um percurso, de uma ideia, e são um património inigualável. Não conheço muitas mulheres como a Teresa, ainda assim conheço algumas, desobedientes e incapazes do silêncio, do politicamente correcto. Devemos festejar a sua existência. Devemos dizer que mulheres como a Maria Teresa Horta, e outras tantas, são mulheres inteiras. Que bom que é, serem portuguesas. E serem reconhecidas no seu imenso valor e excelência. É só preciso mais atenção? Sim, diria que isso e – ainda! – uma mudança nas mentalidades.

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