As imagens que chegam da cidade moçambicana de Palma são escassas, mas os relatos não deixam dúvidas: milhares de pessoas, locais e estrangeiras, mergulharam em três dias de pavor. Centenas de terroristas, com armas automáticas, mas também catanas, tomaram de assalto a cidade, violentaram a paupérrima população civil, roubaram e vandalizaram três agências bancárias, atacaram o hospital e aterrorizaram as centenas de estrangeiros que trabalham para as multinacionais que exploram os riquíssimos recursos energéticos da região.

Os locais de Palma tentaram fugir, juntando-se assim às outras 670 mil pessoas que nos últimos três anos se sentiram forçadas ao êxodo.

Os estrangeiros, que constataram como as forças de segurança contratadas pelas multinacionais são impotentes perante a brutalidade dos terroristas jihadistas, confrontaram-se com um dilema: barricarem-se no interior do hotel Amarula Palma onde tentaram abrigar-se ou ousar a fuga? As duas opções eram de alto risco. Alguns ousaram escapar pelo mar. Outros conseguiram lugar num helicóptero sul-africano das multinacionais mobilizado para a evacuação. Cerca de 150 juntaram-se num cortejo com 17 jipes e carrinhas e, enquadrados por seguranças privados, tomaram a estrada para Pemba, a cidade costeira capital da região. Dos 17 veículos só sete chegaram ao destino. Os outros dez ficaram apanhados por uma emboscada armada pelos terroristas.

Está ainda por contar o número de pessoas mortas nestes três dias de vandalismo. Há relato de ataques com extrema crueldade, com corpos decapitados. Estes três dias de terror jihadista são apenas mais um episódio de uma ofensiva em escalada nos últimos três anos.

Este ataque com tomada da cidade de Palma pelos terroristas (há que lhes chamar o que são: terroristas) mostra que estes bandos, conhecidos como franchisings do modelo “Estado Islâmico”, passaram a ter organização — e até sofisticada. Essa galáxia terrorista avança onde há vazio de Estado. É o caso do Boko-Haram na Nigéria. Também de outros bandos terroristas que atacam na África Central.

As autoridades de Moçambique estão confrontadas com um desafio tremendo, que começaram por enfrentar com relativa indiferença. Está evidenciado que as forças de segurança do estado moçambicano não estão aptas para garantir a segurança na região de Cabo Delgado, onde vive gente paupérrima, mas em terra com recursos riquíssimos, que começam a ser explorados, mas sem benefício para os locais.

Moçambique precisa de ajuda externa para instalar bases de segurança. Portugal chegou-se à frente, vai enviar especialistas para o treino de militares. Mas é uma intervenção especialmente sensível, sendo Portugal a antiga potência colonial. A CPLP seria uma boa alternativa, se pudesse ter essa capacidade de intervenção pacificadora, que não se vislumbra que algum dia possa ter.

A ONU teve ação preciosa a levar socorro às pessoas com vida devastada pelo efeitos do ciclone Idaí e as grandes cheias de há precisamente dois anos na região da Beira. A ONU tornou-se nas últimas décadas um serviço internacional (vital) de assistência humanitária.

Mas foi muito mais do que isso, foi também força de paz e construtora de alicerces para o nascimento de um país, em Timor-Leste, entre 1999 e 2002. Esta intervenção é a maior glória recente da ONU.

A Organização das Nações Unidas nasceu sobre as ruínas da Segunda Grande Guerra Mundial. Foi em 26 de junho de 1945, em San Francisco. Três mil delegados de 50 países aplaudiram a aprovação da Carta das Nações Unidas. Estavam assentes as bases para a reconstrução de um mundo melhor, depois do inferno de duas guerras mundiais.

Para tomar a cabeceira da ONU foi criada uma estrutura, batizada como Conselho de Segurança, composta por 15 países membros, dos quais, 10 em lugares rotativos entre todos os membros (agora, 195) e cinco permanentes: Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França, que se colocaram como garante da paz mundial.

À medida que o tempo avançou ficou evidente que a ONU, apesar de cada vez maior, não estava à altura da ambição generosa dos fundadores.

A tão promissora ONU foi ficando, apesar de gigante, mais modesta e cada vez menos politico-diplomaticamente agressiva, e cada vez mais longe do idealismo fundador.

O Conselho de Segurança tornou-se parte essencial do problema: o direito de veto atribuído a cada um dos cinco países permanentes tornou-se um modo de obstrução que bloqueia a eficácia de qualquer decisão maioritária. A solução binacional para a questão palestiniana tem sido continuamente adiada, por efeito do continuado veto dos Estados Unidos, aliado de Israel, apesar de enorme maioria dos países querer o reconhecimento do Estado da Palestina. Outras resoluções determinantes são bloqueadas pela Rússia. Ou pela China.

Assim se arrastam crises como a da Síria, da Líbia ou da Venezuela. Foi possível consenso internacional para que, nos anos 90, fosse a ONU a conduzir a força militar internacional de estabilização da estilhaçada Jugoslávia.

Mas não temos a ONU a liderar o combate aos jihadistas, como os que atacam em Cabo Delgado, que estão a pretender levar para a África Central e Oriental as fronteiras do terrorismo do “estado islâmico” que cultivam. Também não temos a ONU legitimada para fazer parar o martírio das populações de Myanmar expostas à repressão da junta militar.

A presidência Biden, nos Estados Unidos, já está a dar novo impulso ao multilateralismo. São notícias de esperança para resgate da ambição inicial da ONU, embora não seja ainda claro se Biden escolhe a ONU como plataforma central para impulso de nova ordem internacional.

A velha ordem internacional assentava no predomínio, por um lado, dos EUA com os aliados ocidentais, por outro, da URSS e aliados no Pacto de Varsóvia.

O mundo de hoje, global e fragmentado, é caraterizado por poderes múltiplos. O equilíbrio anterior – que chegou a ser o assustador o equilíbrio do terror nuclear – desfez-se com o fim da URSS. Os EUA tiveram um período em que foram a única potência mundial.

Agora, emerge a China, que desafia a potência existente. Estamos a voltar ao mundo bipolar. Encaixa aqui uma definição que o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, acaba de expor: vivemos no tempo das tecno-democracias frente às tecno-autocracias.

Está implícita uma espécie de nova Guerra Fria, com a China a ocupar o lugar que antes era da Rússia, em que as ameaças militares e ideológicas passam a ser tecnológicas e económicas. Terreno em que a China está fortíssima.

É assim que Biden está a convocar uma “cimeira das democracias” para formar um bloco com os aliados europeus e alguns na Ásia (Índia, Japão), frente ao que aparece como aliança autoritária encabeçada pela China, com a Rússia como parceiro menor e vários outros satélites.

Será que vai ser possível, desta vez, conseguir a par da competição extrema entre blocos adversários, a cooperação sobre questões globais, a principal das quais é a emergência climática?

Será que esta evolução em perspetiva pode possibilitar à ONU um modelo de intervenção definitiva para afastar ameaças como a que atormentam Cabo Delgado?

Apetece acrescentar: e intervir para defender a democracia e os direitos humanos em Myanmar? Aparece logo o obstáculo: a China não iria deixar.

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