(1) Sorte e (2) quantidade

Como não sei o que aconteceu ontem, mas quero falar duma vitória qualquer, volto a um jogo em que sabemos o resultado: a final do Euro 2016, vai para um ano.

Porquê? Só para falar da palavra "sorte". Muitos acham que Portugal ganhou porque teve sorte.

E a verdade é que teve. Podíamos ter perdido — só por exemplo — o jogo com a Hungria (foi à rasca!) e hoje o Euro 2016 seria recordado como uma prestação vergonhosa em que nem chegámos aos oitavos-de-final.

Portugal passou entre as gotas da chuva e depois, num golpe de sorte, o Éder mandou a bola para o fundo da rede e o país enlouqueceu.

Ora, mas há aqui algo a ter em conta: nós tivemos sorte porque tentámos muitas vezes. Chegámos às meias-finais em 2000; chegámos à final em 2004; chegámos aos quartos-de-final em 2008; chegámos à meia-final em 2012; chegámos à final em 2016 — e aí ganhámos. Em 2016, era a nossa sexta participação consecutiva no Campeonato Europeu. E nessas seis participações, chegámos cinco vezes às meias-finais. Tudo isso foi um prólogo desse pontapé do Éder.

Isto leva-me à segunda palavra ("quantidade"): há muitos que afirmam, a bater orgulhosos no peito, serem defensores da qualidade e não da quantidade.

Só que a qualidade vai beber, muitas vezes, à quantidade. Temos de tentar muitas vezes para conseguir alguma coisa. E não é só no desporto: na escrita, na arte, em todas as profissões — cada um de nós tem de fazer muito e às vezes tem de fazer mal para depois, devagar, começar a fazer bem.

E isto também se aplica à maneira como surgem os grandes atletas, os grandes artistas, os grandes nomes da ciência: é quando há muita gente a tentar e a falhar que aparecem, lá pelo meio, os génios e as descobertas.

Sim: do trabalho de muitos nasce o génio de alguns — que, felizmente, todos nós podemos aproveitar.

(3) Eurovisão e (4) geografia

Quanto a isto da Eurovisão... Lembro-me de ser mais novo e ver aquela votação final com a emoção de quem vê a bola a rolar no campo de futebol. As canções, em si, enfim... O problema é que as bandeiras nos enfeitiçam a mente e torcemos por Portugal seja no futebol seja no Campeonato da Música Kitsch da Europa, Arredores e Austrália.

Ah, e lembro-me também — no fim de mais uma tradicional derrota a toda a linha da canção portuguesa — de ouvir aquelas desculpas esfarrapadas, ditas com tristeza: "isto é só política..." Ou: "isto são lobbies..." Ainda hoje estou para saber por que estranha razão os tais poderosíssimos lobbies haveriam de estar preocupados com um festival de música europimba, mas tudo bem.

Pois hoje invento mais uma desculpa (para o caso de termos perdido outra vez): é um facto incontestado que os vizinhos, na Eurovisão tendem a votar uns nos outros, o que não deixa de ser muito curioso e algo contraditório com a sensação geral de que os vizinhos, na Europa, dão-se sempre mal. Podem dar-se mal, mas no Festival votam uns nos outros.

Pois nós só temos um vizinho! Partimos em desvantagem. Se queremos realmente ganhar a Eurovisão, o melhor é defender a divisão de Espanha em vários países. (Há muitos espanhóis à força que concordam comigo.)

(Também é verdade que a Irlanda só tem um vizinho e ganhou sete vezes. E assim se afunda uma bela teoria. Que os irlandeses façam bom proveito.)

Ora, isto tudo serve para quê? Para falar da Eurovisão sem poder dizer grande coisa — porque todos os leitores saberão em que lugar ficou o Salvador e eu não.

(5) Pirataria e (6) o gosto

Não sei o resultado, mas já sei a carga de trabalhos que foram as discussões à volta da canção pela internet fora. Sim, estava o mundo no meio da primeira guerra cibernética a nível mundial — e os portugueses digladiavam-se em fúrias tremendas sobre a qualidade daquela canção em particular.

Confesso: o que ainda me faz confusão é a confusão que tantos sentem perante este facto absolutamente banal: as pessoas têm gostos diferentes! Sim, bolas: a mesma música é horrível aos ouvidos deste e divinal aos ouvidos daquele. E ainda há aquelas canções que não aquecem nem arrefecem. E ainda umas outras quantas que parecem perfeitas à segunda-feira e, à sexta, já não podemos com elas — e vice-versa.

E agora? Agora nada. Sempre em frente, em busca de boa música — ou pelo menos de música que nos aqueça os dias ou arrepie a pele.

(7) Dar um pontapé no quase

Voltando um pouco atrás: a verdade é que o trabalho que a sorte dá é pouco interessante. As vezes que vamos a jogo para perder não interessam muito e deixamos na gaveta das más memórias.

As vitórias... Essas lembramo-nos delas para sempre. É por isso que temos a ilusão que a vitória é sempre um golpe de sorte. Mas raramente a vitória aparece sem muitos jogos perdidos pelo caminho.

O pontapé do Éder não foi uma vitória isolada daquela selecção de 2016: foi o resultado de todas as vezes que lá fomos e não trouxemos o caneco. Aquele foi um pontapé do Éder, sim — mas também do Deco, do Figo, do João Pinto, do Abel Xavier, do Rui Costa e de todos os outros jogadores que andaram sempre a chutar para a frente e a chegar ao quase. Um dia, o quase lá foi parar, com alguma sorte, ao fundo da baliza — e a explosão foi mais do que merecida.

Porque se a sorte dá trabalho, é também deliciosa — ou não é?

Vá, digam-me lá: afinal o Salvador ganhou ou não ganhou?

Marco Neves é autor do blogue Certas Palavras. Publicou em Janeiro o seu segundo livro, com o título A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa (Guerra e Paz). É tradutor na Eurologos e professor na Universidade Nova de Lisboa.

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