Apenas dez dias depois da assinatura do acordo de Istambul, a complexa operação logística e diplomática foi devidamente montada e o primeiro de dez cargueiros para distribuição de cereais da Ucrânia está a navegar para Tripoli, depois de nesta terça-feira ser verificado no porto da cidade turca que é sentinela do Bósforo. Toda a gente ganha com o êxito do acordo de Istambul, mas há um triunfador principal: Erdogan, o sultão da atual Turquia.

O cargueiro Razoni, com bandeira da Serra Leoa, teve na manhã deste 1.º de agosto ordem para soltar amarras do porto de Odessa, no sul de Ucrânia. Zarpou às 9h17m e já navega pelo “corredor marítimo seguro humanitário”, com 26.527 mil toneladas de milho, em direção ao controlo no Centro de Coordenação Conjunta, no Estreito do Bósforo em Istambul - ponto de encontro entre Ocidente e Oriente - para depois seguir rumo ao destino da carga, o porto libanês de Tripoli. A carga deste navio é apenas um primeiro grão para a resolução da crise alimentar que atormenta centenas de milhões de pessoas. Mas é grão a grão que a crise pode ser superada.

É assim que avança o começo da concretização do tão arduamente conseguido primeiro acordo entre quatro partes: os dois beligerantes – a Rússia e a Ucrânia -, a ONU, que consegue fazer valer o estatuto de mediador e facilitador internacional e, sobretudo, a Turquia com um triunfo pessoal para o presidente Erdoğan.

Hábil a explorar a ambiguidade, Recep Tayyip Erdoğan impõe-se como o grande equilibrista, incontornável e única personagem-ponte entre as democracias liberais do Ocidente e a Rússia. É um êxito que tem substância, não apenas efeito de imagem.

Sendo presidente da Turquia, país membro da NATO, Erdoğan participa no Conselho Atlântico, e ao mesmo tempo que dá apoio à Ucrânia (fornece-lhe drones Bayraktar que são instrumento valioso para a guerra), entende-se bem com Putin.

O ”sultão” turco é o único dirigente da NATO que desde o começo em 24 de fevereiro da invasão russa da Ucrânia, manteve sempre aberta uma linha de comunicação cordial com o Kremlin.

Putin quis encontrar-se com Erdoğan na primeira viagem que fez fora do mundo ex-soviético depois de desencadeada a guerra: reuniram-se em 19 de julho em Teerão. Numa cimeira a dois e também a três com o presidente do Irão. Três dias depois, a 22 de julho, Erdoğan acolhia em Istambul António Guterres e os ministros da Defesa da Rússia e das Infraestruturas da Ucrânia para a muito habilmente coreografada assinatura do “Acordo sobre os Cereais”, determinante para que o milho e o trigo do grande celeiro ucraniano chegue ao mundo mais ansioso por cereais, em especial ao Médio Oriente e a África. Guterres chamou a este protocolo de Istambul “farol de esperança”.

Apesar dessa esperança, permaneceram receios sobre se Putin, cujo cinismo está demonstrado, iria cumprir o que fez subscrever. Já começou a cumprir com esta saída do primeiro dos dez cargueiros que estavam em espera.

Putin marca pontos com este acordo: mostra às frágeis economias africanas que não as quer penalizadas por efeito da guerra na Ucrânia.

Erdoğan mostra aos concidadãos turcos que ele é um peso-pesado determinante na diplomacia do mundo em fase tão instável.

Há eleições presidenciais na Turquia no ano que vem e o cenário interno destes últimos meses está-lhe muito adverso: a lira turca perde valor de dia para dia e a escalada da inflação turca aproxima-se dos 80%.

O presidente turco pode agora invocar que com o poder diplomático que lhe é reconhecido, cria condições para que o quadro económico interno possa melhorar.

A mediação de Erdoğan reforça o desempenho que a Turquia tem construído, designadamente no Médio Oriente mas também em África, como ponte para o “Sul do mundo”.

Ao mesmo tempo, Erdoğan mostra-se indispensável aos Estados Unidos e à União Europeia. Viu-se na Cimeira da NATO, no final de junho em Madrid: sem o acordo da Turquia não há luz verde para que a Finlândia e a Suécia se juntem à aliança militar ocidental. A negociação permitiu a Erdogan conseguir de Joe Biden a venda dos aviões F-16 há muito desejado pelas forças armadas turcas.

A presidência turca também conseguiu que a Suécia deixe de acolher refugiados turcos que se declaram perseguidos políticos mas que Ankara classifica de terroristas.

Erdoğan partilha com Putin uma visão autoritária do poder.

O Ocidente, apanhado pela guerra na Ucrânia para a qual não estava preparado, perante as novas urgências, deixa cair princípios morais (veja-se como Biden e Macron tiraram o saudita MBS do purgatório pelo macabro assassinato – em Istambul - de Kashoggi, porque precisam do abundante combustível de que ele dispõe) e vê-se obrigado a cortejar Erdoğan.

O pragmatismo tem antecedentes: Churchill e Roosevelt, dois fervorosos anticomunistas, aliaram-se com Estaline para derrotar Hitler.

Agora, há que alinhar com Erdoğan, o ambíguo líder, antes muitas vezes hostilizado ao ponto de a União Europeia ter fechado a porta de entrada à Turquia, mas que soube fazer-se influente e até determinante no áspero jogo diplomático internacional destes meses.

O acordo de Istambul, promovido por Erdoğan com o patrocínio da ONU, propicia um cessar-fogo nos mares e em portos navais como o de Odessa, potencial objetivo primário da campanha militar russa para além do Donbass.

A esperança mais desejada é a de que sobre esta rota agora acordada para os cereais também se abra um corredor que permita fazer parar a trágica inércia diplomática do conflito. Que possa ser negociado o cessar-fogo geral e que este seja ponto de partida para ser conseguida a paz.

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