Tudo isto acontece a meio ano do final do mandato de um presidente eleito em 2016 sem qualquer experiência política ou militar. Esta sublevação de agora, com o caos instalado nas ruas, tem raízes muito antes do tempo de Trump. Este mal social faz parte da vida dos EUA desde a declaração da independência e fundação da nação em 1776: é a hierarquia racial instalada e que nunca foi atada e harmonizada.

Os linchamentos e as injustiças são recorrentes na história dos Estados Unidos. Este passado de inferno está cheio de episódios em que esta América ficou em chamas. O momento mais dramático desta história é o de 4 de abril de 1968 quando um líder Nobel da Paz, Martin Luther King, foi assassinado com um tiro na garganta quando assomou à varanda do primeiro andar do pequeno motel Lorraine, em Memphis, no Tennessee.

Aquela década de 60 estava trágica nos EUA em guerra no Vietnam: em novembro de 63, foi o choque brutal do assassinato do presidente John Fitzgerald Kennedy; em fevereiro de 65, foram as ondas de revolta desencadeadas pelo assassinato do líder negro Malcom X. Nesse tempo, houve um homem sábio que soube mostrar sentimentos e as palavras certas para algum apaziguamento da fúria dos revoltados, ainda que dos protestos tenham resultado 43 mortos e 3500 feridos. Esse apaziguador com discurso inclusivo foi Bob Kennedy, o senador que estava destinado a ser presidente dos Estados Unidos, tal como o irmão John, assassinado em Dallas. Mas Bob também veio a ser morto, dois meses depois de Martin Luther King.

A turbulência dessas semanas foi tremenda.

Essa década de 60, tendo momentos prodigiosos na criação e em avanços para a Humanidade, foi muito cruel pelas tensões raciais nos EUA.

Uma força decisiva para a superação desses episódios de alta tensão, como agora acontece, é a afirmação de líderes que se esforçam para a conciliação e o apaziguamento. Quando, pelo contrário, o discurso é de confronto, fica mais combustível na fogueira.

A questão racial, é uma evidência, vem de muito antes de Trump, é de sempre na América. Mas o atual presidente, ao colar-se ao supremacismo branco, eliminou o espaço de manobra política para conduzir a procura de apaziguamento.

As imagens dos confrontos deste fim de semana em Nova Iorque mostram resposta desproporcionada da polícia aos protestos em Brooklyn, Queens e Manhattan.

Em várias das manifestações em diferentes cidades dos EUA estão a aparecer grupos violentos que, em ações deploráveis que só podem ser condenadas, pilham lojas e atacam carros e esquadras de polícia. Mas a maioria dos manifestantes é pacífica e, em muitos dos casos, a repressão policial trata todos como inimigos.

Em 1968, após o assassinato de Martin Luther King, o Mayor [presidente da Câmara] de Nova Iorque, John Lindsay, encabeçou marchas de protesto que ao longo de várias horas percorreram as ruas da cidade. Foi um gesto político de respeito que contribuiu para apaziguar a revolta de tanta gente.

A atuação de alguns guardas leva a que muitos dos manifestantes vejam a polícia não como uma força de proteção mas como um inimigo. O modo como muita polícia trata quem tem cor de pele escura é um mal persistente que vai agravando a brecha na sociedade dos Estados Unidos. O caso da detenção, na semana passada, de uma equipa de repórteres da CNN é exemplar: os negros foram detidos, os brancos, logo ao lado, continuaram a trabalhar.

Só no estado do Minnesota, onde há uma semana George Floyd foi morto, há registo de 193 mortes nos últimos 20 anos, em confrontos com a polícia. Mais de 70% dos falecidos eram de pele escura, latinos ou afro.

Estão na memória os muito violentos tumultos raciais de Ferguson, em 2014 (então era Obama o presidente, o primeiro mestiço no topo dos EUA), e os de Los Angeles, em 1992. A discriminação racial é de sempre nos EUA. Obama não conseguiu travá-la. Trump, mesmo sem ser a causa do problema, deu confiança ao supremacismo branco.

Não se vê quem cuide de, a partir do topo, sarar as feridas abertas. Quando à liderança falta autoridade moral e prolifera o discurso tóxico vulgar, a cicatrização fica mais distante. Falta quem mostre sensibilidade e seja capaz de empatia.

A realidade mostra que se acumulam, graves, nos EUA, a crise sanitária, a económica e a social.

Faltam cinco meses para a eleição presidencial, que vai decorrer em atmosfera altamente volátil, por isso imprevisível. As últimas sondagens mostram que Trump está a perder o país, mas tudo ainda pode acontecer. Em 68, após meses de máxima turbulência na sociedade e nas ruas, o republicano Richard Nixon, com o discurso “law and order” [lei e ordem], impôs-se por 550 mil votos ao rival democrata Hubert Humphrey e sucedeu a Lyndon Johnson na presidência dos EUA. Nesse tempo, Nixon beneficiou do desgaste dos democratas pela guerra do Vietnam e pela dissidência do ex-governador do Alabama, George Wallace, cujo discurso a favor da segregação racial levou a que muitos eleitores negros voltassem costas à eleição.

Agora, o presidente macho ainda tem argumentos para seduzir eleitores, dar a volta às sondagens e vencer o democrata Joe Biden, que não entusiasma muito da oposição nesta América onde a vida de um afroamericano está cotada muito por baixo. George Floyd foi algemado e imobilizado até morrer por uma nota de 20 dólares, presumivelmente falsa.

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