As decisões económicas do Presidente da maior economia mundial (cujo PIB é maior do que a soma das três economias seguintes) afetam o planeta, de um polo ao outro. Goste-se dele ou não, não se pode ignorar o que faz. Então, se decide alterar as taxas alfandegárias dos Estados Unidos, todos sentem os resultados, mesmo aqueles países que não transaccionam direitamente com os americanos.

Cabe aqui um brevíssimo resumo histórico das transações internacionais: até à primeira metade do século XX, as taxas sobre importações serviam para proteger a produção nacional contra os produtos importados. Mas na década de 1930, sobretudo graças ao economista inglês John Maynard Keynes, chegou-se à conclusão que era melhor reduzir as taxas para aumentar a oferta e obrigar a produtividade nacional a ser mais eficiente. Foi o começo da chamada “economia global”, que se tornou o cânone a partir do fim da II Guerra Mundial.

Embora tivesse aspetos negativos em casos pontuais, no balanço geral era favorável aos Estados Unidos (nessa altura já a maior economia mundial) e a todos os países; as taxas foram baixando e até acabaram em muitos mercados. Assim se assistiu a um crescimento constante da economia mundial - e também a uma dependência cada vez maior entre as economias nacionais. As taxas de importação foram usadas apenas em casos específicos, como punição. (Na actualidade, a Federação Russa é um exemplo desta situação).

Note-se que o valor das taxas era sobretudo determinado por interesses económicos e não como arma política. 

E assim viveu o mundo, criando uma teia de produção em que certos produtos têm partes fabricadas em dezenas de países. Os produtores vão buscar essas partes onde lhes sai mais barato e podem controlar a qualidade. Um bom exemplo (entre milhões) são os iPhones da Apple, que não têm nenhuma parte fabricada nos Estados Unidos. Os ecrãs vêm do Japão e Singapura. O alumínio vem da Austrália. Os microprocessadores são de Taiwan ou Singapura, de empresas que compram impressoras a lazer feitas na Holanda.

E assim foi até à próxima segunda feira, dia em que começam a ser aplicadas as taxas de importação norte-americanas, anunciadas por Donald Trump num discurso no Jardim das Rosas da Casa Branca que decerto ficará para a História.

A primeira coisa que salta à vista é a impossibilidade de saber porque é que Trump quer taxar países que não tem negócios com os Estados Unidos e até ilhas que não têm habitantes! (Se quer ver a lista completa, está aqui.

Fica imediatamente visível que a lista foi feita por alguém que não conhece geografia ou economia, além de não se perceber a razão para a discrepância de critérios.

Outro “detalhe” que mostra o amadorismo dos economistas, ou fiscalistas, ou apenas servos obedientes do Rei, é que hoje em dia o tráfego de mercadorias tem um valor diferente das transacções de serviços. Na prática, no comércio e serviços (bancários, legais, de assessorias várias, software) os Estados Unidos têm um saldo muito positivo e um valor em muitos casos superior ao dos produtos “físicos”. Não é preciso ser economista para saber que no mundo desenvolvido o sector terciário é maior do que o secundário (indústria) e o primário (agricultura).

Portanto, fica claro como a clara do ovo que esta decisão de Trump é política e não económica. Os especialistas começaram a fazer contas aos critérios e a Casa Branca, depois de muito instada, apresentou uma fórmula algébrica complicada. Mas os ditos especialistas logo viram que o cálculo foi muito mais simplista: o nível presumível do protecionismo dum país é igual ao seu superavit comercial com os Estados Unidos dividido pelas suas exportações.

Isto, fora aqueles países que não tendo nada a ver com a América do Norte, levaram um taxa “universal” de 10%. Só que para que ninguém fique de fora…

Não houve um único técnico que louvasse esta maluquice. Os ligados a Trump ou ao movimento MAGA simplesmente não disseram nada. Quanto aos outros, podemos resumir a opinião de Paul Krugman, Prémio Nobel de Economia: “Há tantas coisas erradas nesta abordagem que é difícil saber por onde começar.” E acrescenta: “Quem é que faz política desta maneira? A razão é que Trump não pretende atingir objectivos económicos. Isto tem de ser visto como uma exibição de poder, com a intenção de chocar e assustar as pessoas e pô-las a rastejar, mais do que uma decisão política normal.”

E não resisto a citar mais duas frases de Krugman, jornalista económico de excelência do New York Times: “Quando o que está em jogo é o destino da economia mundial, a estupidez maligna desta política é tão relevante como  a política em si. Como é que alguém, sejam homens de negócios, sejam  governos, pode confiar em alguma coisa dum governo que age desta maneira? (…) Gostava de acreditar que Trump vai admitir que se enganou, cancelar tudo e recomeçar. Mas ele nunca faria isso, porque iria estragar a sua demonstração de domínio. A irresponsabilidade ignorante faz parte da mensagem”

O que vai acontecer é que o mundo vai reagir a esta demonstração de poder tornando-o de facto fictício. Sexta-feira, três países do Oriente fizeram uma reunião para criar uma zona de livre trânsito entre eles: a China, o Japão e a Coreia do Sul. Era inimaginável que três países que sempre se detestaram, e entraram em guerras entre eles ao longo dos séculos, de repente perceberam que têm mais a ganhar unindo-se. Foi preciso Trump dar este espectáculo para provocar o impossível.

Podia passar aqui o resto da tarde a citar todos os nomes e autoridades dignas de consideração que ficaram de boca aberta com mais esta demonstração do Rei Trump. Como se dizia nos tempos do Salazar, “manda quem pode, obedece quem deve.”

E nós, portugueses, devemos, claro, pois exportamos para os E.U.A. cerca de 5.300 milhões de euros em 2024. E já não somos o país agrícola do senhor acima citado; as maiores exportações foram de medicamentos e combustíveis. Mas, ai! ai!, importamos muito menos, apenas 2.416 milhões de euros. 

O fim do mundo vem aí!