Ele chegou perto de mim, entre o perplexo, aliviado e furibundo e mostrou-me o email. Dizia: Parabéns, premiado no sorteio da Santa Casa. Salvo erro o jackpot era imenso, salvo erro eram milhões, aqueles que fariam a diferença entre fazer contas à vida com a regularidade matemática das exigências do Estado, das cobranças dos impostos ou de outras mil maldades a que a nossa vida se sujeita, e a desenvoltura de poder dizer: adeus, vou ver as vistas do mundo, a casa está paga, os filhos orientados e agora só eu e o mundo e tenho dinheiro para o que me apetecer. O email da Santa Casa da Misericórdia chegou na quarta-feira, o homem não tinha visto nada, não sabia os números do sorteio de terça-feira, não estava sequer com o sentido dos milhões de euros.

Mais: tinha sido a primeira vez que jogava online, que se registara. Ora, um email a dar os parabéns, o coração parou-lhe, afinal a vida dele dava um filme, afinal Hollywood faria sentido, afinal a vida seria compensada, caro apostador, parabéns. Bom, parabéns sim, ganhou três euros e noventa e quatro cêntimos. Mostrou-me o email em silêncio, eu tive a mesma reação, o meu coração a igual à orquestra da Gulbenkian, à Metropolitana, à Sinfonietta, meu Deus, o que vos aprouver, o coração aos pulos, as mãos suadas e depois o desaire final. Três euros e noventa e quatro cêntimos. É que nem o palavrão pior, sendo que nós não temos tantos quanto isso, servia para a ocasião. É sadismo? Senti-o como tal. Parabéns, uma ova, apeteceu-me escrever-lhes de volta, mas nem isso é possível fazer, já que o email não tem endereço com direito a resposta.

Todos nós já imaginámos ganhar o Euromilhões, ou o Oscar ou um Nobel, até poderia ser o da Química, não teria de ser o da Literatura. Magicamos cenários, construímos sonhos e, como se sabe, sonhar ainda assim é gratuito e pode encher-nos de ilusões por breves momentos. E o que será a vida senão breves momentos, perguntam vocês?, pois com toda a certeza já todos o fizemos, sonhar com dinheiro, com a imagem do tio Patinhas a mergulhar na sua caixa forte com a alegria dos mais audazes. E sortudos, sim, a sorte tem aqui um papel preponderante. Tudo isto está muito bem, mas quando a Santa Casa nos manda um email com este teor – Parabéns! – então teremos de avisar que não é próprio para cardíacos, que há quem não consiga chegar perto de outra pessoa, mostrar o email, aberto no smartphone, encolher os ombros e dizer: bom, isto é só para nós percebermos como a vida poderia ser diferente.

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