Este naufrágio que avança é apenas uma das consequências das alterações climáticas, uma realidade nefasta que todos já estamos a sentir na forma de acontecimentos extremos: ora canícula e seca, ora tempestades, dilúvios e inundações. Regiões que antes podiam gabar-se de clima ameno passaram a estar confrontadas com episódios bruscos de meteorologia hostil.

Os mais de dois mil cientistas agregados no painel climático da ONU estão há mais de 40 anos a alertar para a chegada ao nosso quotidiano deste monstro climático.

Nos primeiros anos desse alarme lançado pelos cientistas, as perturbações climáticas anunciadas não eram sensíveis, daí que tanta gente não as tenha levado a sério. O tempo avançou e os cientistas recolheram cada vez mais informação, sempre mais inquietante, sobre a escalada imparável das alterações climáticas. Estiveram quase sempre a pregar no deserto.

Até que se impôs a evidência de fenómenos meteorológicos extremos, com o deserto africano a expandir-se para o sul da Europa, com o gelo das regiões polares a soltar-se, com temperaturas de canícula a atormentarem a vida de regiões que antes se gabavam de clima amistoso. Passou a ser impossível negar a crise que se manifesta em emergência climática.

O confronto com esta realidade propiciou um milagre na COP21, a cimeira do clima que em 2015 se reuniu em Paris: quase todos os 200 países do mundo acordaram ser necessário tomar medidas para travar o aquecimento global desencadeado pelas emissões nocivas decorrentes do uso desenfreado de combustíveis fósseis pelos seres humanos. Todos esses países assinaram o compromisso de limitar emissões e avançar na transição para energias renováveis sem CO2.

O compromisso foi celebrado com euforia. Mas ficou por definir a meta e o ritmo da transição em cada país.

A falta dessa regulamentação leva a que agora, oito anos depois, vários países pouco ou nada tenham feito do que ficou acordado.

É assim que na edição número 28 dessa conferência anual da ONU sobre o clima, que a partir desta quinta-feira vai decorrer por 12 dias no Dubai, tem como ponto principal na agenda examinar o estado do cumprimento do acordado por cada país na tão promissora COP21, em 2015, em Paris.

Passar ao concreto significa definir metas para a redução e progressiva eliminação do consumo e produção de combustíveis fósseis, passo essencial para a necessária descarbonização. É sabido que os países que têm feito fortuna com os combustíveis fósseis vão querer retardar essa decisão, embora haja que reconhecer que as principais petrolíferas já estão a antecipar esse futuro e a explorar a vanguarda da transição para as energias renováveis.

O que esperar desta COP28?

Nada de extraordinariamente bom. Mas as contradições que envolvem esta conferência da ONU poderão abrir a porta a surpresa positivas.

Uma aparente contradição à partida: quem preside a esta conferência que é suposto dar energia renovada à descarbonização é o sultão al-Jaber, que é o líder da petrolífera nacional do Abu Dhabi (principal produtor dos Emirados).

Quem comanda o negócio dos combustíveis fósseis vai estar por toda parte, em redor dele. Mas este sultão presidente da COP28 há-de querer assumir gestos politicamente corretos em direção aos cientistas que são especialistas nas questões do clima do planeta que vão uma vez mais clamar por urgência absoluta na tomada de decisões para o abandono (pragmaticamente gradual) dos combustíveis fósseis.

Será que o sultão do Emirado do petróleo vai surpreender e dar passos relevantes para a proteção do planeta?

Alguma boa surpresa nesta COP28 pode vir da China. O governo de Pequim mostra cada vez mais que quer estar na liderança global da transição das energias fósseis para as renováveis. É de admitir que a China assuma a liderança do movimento para a compensação financeira aos países do sul mais pobre para que apostem em políticas de desenvolvimento descarbonizado.

A União Europeia, embora com divisões internas, alinha nessa opção loss and damage de compensação aos países do sul mais pobre do planeta. A urgência climática precisa de consensos globais.

Nesta época em que a Rússia está em guerra com o Ocidente e em que a violência está a instalar divisão no Médio Oriente, o clima da COP28 não está favorável. Mas não são de excluir algumas boas surpresas.

Do mesmo modo que o Qatar está a protagonizar liderança global na procura de soluções para a emergência em Gaza, outro emirado, o Dubai, anfitrião desta COP28, tem a aspiração de passar à história como salvador do planeta. E há no Dubai quem esteja na vanguarda da transição das energias fósseis para as renováveis. Há alguma oportunidade para a esperança.

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