Estou convicto de que vou acabar este texto a advogar a grandeza da minha terra, a grandeza do clube da minha terra, a grandeza do meu clube da minha terra. Mas não há maiores feitos do que aqueles que, por contraste, foram conseguidos pelos mais pequenos. É nesse sentido que terei de louvar a grandeza de Tondela a partir da sua pequenez, que passo a provar. Para isto nem preciso dos argumentos da densidade populacional ou da área geográfica: é a terceira vez que escrevo “tondelense” nesta página do Microsoft Word e, pela terceira vez, a palavra é sublinhada com um risco vermelho, como se de um erro se tratasse. A fundação de Tondela completou 500 anos há pouco tempo e os seus habitantes continuam a caminhar sobre um risco vermelho de erro - se isto não é atestado de pequenez, eu não sei nada.

Retomo a ideia inicial. Caso em 1994 tivéssemos organizado uma cápsula do tempo onde as pessoas de Tondela escrevessem as suas previsões para o futuro, duvido que 25 anos depois estivéssemos a ler alguma coisa que relacionasse o clube da cidade com a 1.ª divisão. “Carros voadores”? Seguramente! “Homem em Marte”? É possível! mas duvido que “CDT no escalão máximo do futebol nacional” passasse pelos vaticínios de alguém. E “CDT a ganhar a todos os 3 Grandes”, então, daria ordem de internamento no Hospital Psiquiátrico de Abraveses.

Isto não é índice de falta de ambição, nem muito menos de desinteresse futebolístico. Prova que, se calhar, na minha terra as pessoas têm noção da sua pequenez intrínseca, mas trabalham com o afinco de quem não se limita às suas condições e noções. A isto chama-se humildade. Dessa forma, quando ouvirmos o Ricardo Costa, ou o Tomané, ou o Cláudio Ramos, ou qualquer outro jogador tondelense afirmar nas conferências de imprensa que “É preciso encarar jogo a jogo com humildade”, saberemos que há uma cidade pequena a dar esse exemplo. E não é desde 1994, nem 1933 (ano da fundação do CDT), é de 1515. São 500 anos de gente humilde, pequena a operar grandes feitos.

A frase que intitula a esta crónica é, no meu caso, uma verdade literal. Mas é também uma mentirinha espirituosa que recentemente e não poucas vezes tenho ouvido. Ontem, ainda antes do Tondela receber o Sporting, aposto que muitos benfiquistas e portistas afirmaram ser “do Tondela desde pequeninos”. Fazendo fé que o clube beirão se vai manter por longos anos na 1ª liga, conto ouvir a mesma piada sempre que o CDT enfrentar um dos Grandes. Talvez apenas um punhado de viseenses (incapazes de digerir o sucesso doutro clube da região que não o do seu Académico de Viseu) continuará a furtar-se de ser do Tondela desde pequenino.

Embora ache muita graça à simpatia com que os meus amigos simulam apoio ao CDT, não ignoro que o fazem apenas em antagonismo para com o adversário. É por isso que também eu nos últimos 4 anos (desde que os auriverdes ascenderam à 1ª Liga) tenho traçado objectivos para a época, e que não são só esses hercúleos da manutenção, ou das competições europeias. Desportivamente desejo que ninguém seja de Tondela desde pequenino, mas que todos queiram ser pequeninos como o Tondela. Falar da grandeza de um clube é passatempo subjectivo e gasto, mas o meu foco aqui será (e volto a carregar nesta tecla) celebrar a pequenez, sobretudo essa que se bate por grandes feitos. O Benfica tem a mística, os sportinguistas sabem porque não ficam em casa, o Porto é uma nação. Há sempre características exclusivas que cada adepto sente sem saber necessariamente explicar, e é isso que pretendo revelar também no meu Tondela - mas desejo “saber necessariamente explicar”, debruçar-me no indizível e partilhar o intransmissível.

Os meus votos para 2019 são que, de uma vez por todas e aos olhos de todos, o Tondela deixe de ser um MacGuffin. Para quem desconhece de que se trata um MacGuffin, asseguro-vos antes de mais que o Clube Desportivo de Tondela não pode sê-lo. Explicando em traços largos, no cinema chama-se MacGuffin a um elemento (normalmente um objecto) que motiva as acções dos personagens, mas que não tem assim tanta importância ou relevo para a fruição do filme. Serve para pôr a história a andar, mas é um elemento sem personalidade.

Ora, o Tondela não pode ser nada disso, não pode ser apenas o clube dos trocadilhos “ao tom dela” para picardias em redes sociais. Não pode ser apenas o clube da “pequena cidade longínqua” das peças jornalísticas que querem o recôndito e não o âmago. Não pode ser apenas esse embaixador futebolístico da Beira Alta, instrumentalizando no desporto uma ideia despersonalizada de regionalização. E não pode, não pode mesmo, ser apenas o clube do qual somos desde pequenos, esse descartável MacGuffin que se limita a explicitar sentimentos para com os rivais. É com esta certeza que escrevo sobre o Tondela, e que provavelmente voltarei a escrever. Concedam-me a oportunidade de serem convencidos.

Sítios certos, lugares certos e o resto

Se estão dispostos a pagar para se verem livres da polémica chata “Liberdade de Expressão e Mário Machado nas manhãs da TVI”, então invistam numa assinatura do Jornal de Negócios e leiam o Adolfo Mesquita Nunes a matar a questão.

O tesouro nacional “Gato Mariano” - o melhor crítico felino (na verdade, felino crítico) do mundo está prestes a lançar um livro. Não digam que não foram avisados.

Há duas semanas compilei alguns “melhores do ano” e, por ignóbil esquecimento, deixei isto de fora: o restaurante Prado, na Travessa das Pedras Negras, que é um dos mais notáveis espaços gastronómicos em Lisboa. No meio de tudo o que poderia recomendar, aviso-vos que não vão querer perder o gelado de cogumelos e cevada para a sobremesa – se vos surpreende o conceito, mais vos surpreenderá o sabor.

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