Com o frio que se faz sentir numa boa parte do território nacional, os portugueses estavam à espera de passar o serão de segunda-feira na companhia de um debate eleitoral acalorado. Não foi esse o caso, em nenhum dos três confrontos que as televisões transmitiram ontem. Muito menos o caso do debate Vitorino Silva - André Ventura, que foi tão morno quanto a água que sai no duche da terceira pessoa a tomar banho numa casa com caldeira numa manhã de inverno.

Começou por ser quase uma entrevista de vida - a André Ventura - e acabou por ser quase uma entrevista de candidato a militante do partido do adversário - neste caso, a Vitorino Silva. Pelo meio, houve tempo para uma exposição arqueológica por parte de Tino, que chegou a dar alento a quem esperava que o candidato de Rans fosse confrontar implacavelmente o candidato que explora o ódio à comunidade que, estereotipadamente, tem receio de rãs (sim, é dos sapos, mas eu não distingo. Não sou biólogo como o João Ferreira).

Contudo, essas elevadíssimas expectativas saíram goradas e as pedras - cujo substrato filosófico tem sido amplamente debatido nos espaços de comentário - foram objecto de partilha no final, e não de arremesso.

Alimentar a ideia de que Vitorino Silva é uma lufada de ar fresco na política é uma manifestação de condescendência. Dois tipos de condescendência: em primeiro lugar, condescendência perante Tino, dispensando-o de escrutínio por uma suposta fragilidade; em segundo lugar, condescendência perante o populismo em si, desprezando o populismo descarado, mas glorificando o populismo fofinho. O facto de Vitorino Silva ter alcançado 152 000 votos nas presidenciais de 2016 não representa o seu peso político em 2020, mas foi antes um boletim meteorológico do enfraquecimento do sistema partidário - da sua incapacidade para fazer o povo sentir-se incluído. Tenho a sensação de que André Ventura vai captar uma boa fatia desses 152 000 votos, já que foi mais longe do que Tino a explorar a parte emocional do descontentamento com os políticos, tem bastante menos escrúpulos, mais ambição e bastante mais dinheiro para alavancar o seu sucesso eleitoral.

Vitorino Silva está longe de ser André Ventura. Não tem o discurso, as propostas, a promoção da divisão ou interesses obscuros que sustentam o segundo. Mas também não é um lutador político apto para combater Ventura na mesma categoria de peso. Apesar de ter começado por estabelecer as largas diferenças entre ambos, a nota que se extrai do debate é a de alguma proximidade. Para o imaginário do eleitor de Ventura, Tino representa um aliado. É mais provável Ventura retirar votos a Tino do que o inverso. Para o propósito de abanar o sistema, Ventura representa hoje o voto útil.

Por alguns momentos, conseguimos sentir as diferenças de humanidade entre os candidatos. Noutros momentos, o debate foi um fim de jantar entre dois cunhados, que não se conhecem muito bem e com diferentes graus de formação, a tentar estreitar laços durante o digestivo, concordando sobretudo no ponto de que isto é tudo uma vergonha. Não tenho dúvidas que Vitorino Silva tem mais sedimentos do que os que o querem ver apenas como um figurante de um freak show político, mas não é também a rocha basilar da defesa da decência e da democracia que outros gostariam que fosse. Para combater Ventura, Vitorino Silva não é o herói de que precisamos, nem aquele que merecemos.

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