A gente que agora governa em Varsóvia e que porfia em desmantelar o regime democrático cabe nessa galeria. São nacionalistas radicais que pretendem impor a submissão do sistema judicial, incluindo o Supremo Tribunal, ao controlo do governo.

É devido não confundir o poder político polaco com o povo da nação polaca – embora seja esse povo quem, nas eleições de há dois anos, em 25 de outubro de 2015, entregou o poder absoluto ao PiS (partido do Direito e da Justiça). Muitos eleitores talvez não tenham tido em conta que ao votarem na candidatura do PiS estavam a confiar o poder a um homem, Jaroslaw Kaczynski, anti-europeísta e xenófobo, que já tinha protagonizado uma deriva autoritária. Desta vez ele teve a habilidade política de se esconder nos bastidores, mas para a partir dali comandar os fios do poder.

O povo da Polónia tem vida de combate e resistência. A história da democracia polaca é movida por lutas operárias, com epicentro e símbolo em Gdansk. É ali que em 1980, após uma vaga de greves, nasceu o Solidariedade, movimento de libertação sob forma de sindicato, com um líder carismático e corajoso, Lech Walesa. Este movimento, com a bênção e muito empenho do papa polaco João Paulo II, também com o empurrão final de Gorbachov, foi decisivo para, com persistência, levar em 1989 ao derrube do muro que fechava os países na órbita do poder comunista da União Soviética.

A Europa apoiou os polacos, nesse tempo em que era preciso ajudar: saídos da ordem soviética, os estados da Europa Oriental corriam o risco de ficar num limbo. Mas a Europa mobilizou-se para os apoiar: o alargamento da União Europeia, culminado com a integração em 2004, foi uma iniciativa corajosa e generosa. Já o tinha sido antes com a RDA, foi a seguir com os outros países do Pacto de Varsóvia, entre eles os quatro (Polónia, Hungria, República Checa e Eslováquia) que agora integram o Grupo de Visegrado. Têm sido grandes beneficiários das ajudas europeias, vitais para dar energia à economia, para que reorganizassem a sociedade de modo a que pudessem começar a sair da pobreza e do medo e, esperava-se, para consolidarem a democracia. A Polónia, só no ano de 2014, teve um saldo positivo de 13,7 mil milhões de euros pela sua integração na União Europeia.

A liberdade nas escolhas é um valor fundamental. Mas tanto a Polónia, como a Hungria ou a Eslováquia, logo na primeira oportunidade falharam a reciprocidade: quando foi ativado um plano de emergência para acolhimento de refugiados, fecharam a porta. Nem sequer aceitaram a quota de acolhimentos que a Europa definiu para cada país.

Os chefes políticos de Varsóvia, Budapeste e Bratislava rejeitaram o dever de acolhimento e desprezaram a lealdade com os parceiros na União Europeia. Querem ser sócios para receber fundos, não o são para o resto, fogem a responsabilidades.

Na Polónia, está em causa o assalto político ao poder judicial e a separação dos poderes legislativo, executivo e judicial, própria de todo o estado de direito. A União Europeia já avisou que não vai ficar de braços cruzados. Se o desafio de Varsóvia persistir, o próximo passo pode ser a retirada ao governo polaco do direito de voto nas reuniões europeias. É a devida posição europeia, também de apoio ao povo da Polónia que no último fim de semana saiu à rua em dezenas de cidades, em protesto indignado contra a deriva autoritária do governo e da sua maioria no parlamento de Varsóvia. Em Gdansk, o lendário Lech Walesa, primeiro presidente democrático da Polónia pós-comunista liderou a manifestação que ocupou praças e avenidas.

Perante os protestos internos e externos, o presidente polaco, Andrzej Duda, nesta segunda-feira, em cima da última hora legislativa, com a intenção de travar a escalada da tensão, anunciou que vai vetar a controversa lei proposta pelo governo e aprovada no senado e no congresso, “por gerarem o confronto e a divisão no país”. Esta decisão, surpreendeu todos, fala-se de recuo táctico, não é certo que definitivo.

Mas, como foi repetido nas manifestações do fim de semana, o poder político instalado na Polónia trata de “desmantelar o Estado de direito através de diferentes etapas, incluindo a liquidação da administração pública independente e a independência dos meios de comunicação públicos”.

Há um facto relevante nos protestos de rua na Polónia: é a forte participação dos jovens, muitos a levantarem bandeiras azuis da Europa.

Um polaco luminoso, Zygmunt Bauman, o mais filósofo dos sociólogos e o mais sociólogo dos filósofos, advertia, semanas antes de nos ter deixado, em janeiro: “Não se cometa o erro, fatal, de desvalorizar, ou pior, desprezar, a ameaça dos demagogos que sabem como é fácil explorar as emoções. É fácil para eles argumentarem que a democracia está a falhar e a trair os cidadãos, pelo que é preciso uma liderança de mão dura”. Ainda Bauman: “A ignorância não costuma ser obstáculo para esses carreiristas”.

VALE VER:

A Venezuela, contada por Nicholas Casey, o correspondente do The New York Times, que o regime de Maduro expulsou do país.

Até onde pode ir a ameaça da erupção de um vulcão?

Há uma relação entre a loucura e o génio criativo? Vale conhecer a revista Litoral, editada em Málaga.

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