1. Nunca tantos mortais, desafinados, terão cantado “Vai, minha tristeza…” como no sábado passado, o dia em que deixámos de estar debaixo das mesmas estrelas que João Gilberto. De Lisboa a Paris, de Tóquio a Nova Iorque, de Porto Alegre a Juazeiro, o mundo chorou, e tentou cantar como pôde. Depois esta segunda-feira, no belo Theatro Municipal do Rio de Janeiro, todo um coro, ruidoso, em torno do corpo de João:

Vai, minha tristeza

E diz a ela que sem ela não pode ser…

Estavam presentes as duas filhas, a veterana Bebel e a jovem Luísa, vários músicos, tantos desconhecidos. Entretanto, lá de onde mora, nos Estados Unidos, o filho mais velho, João Marcelo, desavindo com Bebel, criticou o velório, chamou-lhe um “show”. Como se no Brasil não houvesse tradição de funerais de sambistas com música. Como se a música não fosse corpo e alma de João, e ele não a tivesse plantado no fundo do nosso ouvido, onde ninguém antes chegara.

Parece impossível alguém amar João, e nele o Brasil, e não querer cantar, mesmo sem voz, com aquele povo lá no Theatro Municipal. Incluindo tantos que em noite de espectáculo talvez não soubessem como bancar a entrada, ou com que roupa, com que roupa. Quando vi esse vídeo ruidoso, tumultuado, nos antípodas da música de João, pensei que era bem o velório dele, sim. O amor com que os meros mortais podem velar a morte do seu génio mais cool. A João não restava senão ser melhor do que o silêncio. A nós, resta-nos amá-lo como podemos, dar graças por termos coincidido com ele todo este tempo. E graças por um Brasil que ele pôs a tocar no planeta. Alguém como João não é dos parentes. Ruído são essas brigas domésticas. O mundo cantando “Vai, minha tristeza…” é amor, luto, por João, pelo Brasil. Porque se confundem, um e outro.

Nesse sentido, João não foi só arquitecto da Bossa Nova. João foi um arquitecto do Brasil com que muitos de nós crescemos. Um Niemeyer da arte maior, a única que existe no ar, em qualquer lugar, e não precisa de tradução.

2. O maior inimigo desse Brasil é o actual presidente. Quando li o que Bolsonaro disse sobre João tive os piores pensamentos. Bolsonaro: essa pessoa que se alimenta do pior de nós. Quem, nos seus momentos mais pessimistas, imaginaria um presidente que insulta o Brasil na morte do seu músico mais mítico? E não apenas o Brasil. Bolsonaro insulta a todos ao dizer, sobre João: “Uma pessoa conhecida. Nossos sentimentos à família, tá ok?” Não sabe nada, não entende nada, não quer. Não decretou luto nacional. Nem coração, nem cabeça.

Entretanto, o mundo que não aperta a mão a esse rejeito humano escuta João Gilberto. Dos 20 links mais participados nas redes sociais, noticiou um colunista do Globo, só seis eram do Brasil. Metade dos 157 mil tweets a falar de João, na sua morte, eram de outros países, Japão, França, Estados Unidos à cabeça, onde ele morou. Alguém que abriu o mundo para outra dimensão, pelo ouvido.

3. A única vez que vi um concerto de João foi no Carnegie Hall, de Nova Iorque, sentada quase no tecto, que era onde sobravam bilhetes (e eu podia pagar). E vi, tal como as cinco mil pessoas que lotavam aquela sala, lendária também na história de João, e por causa dele, aquele homem vestido com aquele seu fato-e-gravata indistinto, aquele seu ar de senhor João da repartição, simplesmente ficar parado no palco enquanto um problema de som, imperceptível para quase todos os mortais, era resolvido, a seu pedido. Ele estava ali, diante daquela plateia, como se não fosse nada. Porque não era nada. E o Carnegie Hall, claro, esperou. Aliás, o Carnegie Hall esperava por aquilo mesmo. Aquilo era a lenda, também. Aquilo era João na perfeição. Como iria João sentir-se intimidado por cinco mil pessoas? Na cabeça dele, idealmente, ele seria o homem invisível, através do qual a música passaria. Um totem, um xamã de terno: fato-e-gravata. João estava ali como se o corpo de João não tivesse importância alguma.

4. Era de João um dos primeiros vinis que me lembro de ouvir na vida, trazido pelo meu pai de uma viagem. Aquela voz, aquela dicção, aquele violão, estão nas minhas primeiras memórias. Isso há-de ficar de alguma maneira que não é possível pôr em palavras.

Em 2011, quando morava no Rio, fiz uma longa reportagem sobre João, a propósito do seu esperadíssimo regresso aos palcos, para uma turné brasileira. Acabou por não haver turné coisa alguma, e o cancelamento foi uma embrulhada, entre contas e dívidas. Mas quando fiz a história estávamos longe de imaginar isso, e dou graças por essa não-turné me ter feito ler um livro incrível de um não-brasileiro, conhecer uma Copacabana de fantasmas e falar com pessoas já desaparecidas, como Miúcha Buarque de Hollanda (irmã de Chico), ex-mulher de João (segunda, depois de Astrud), e sua melhor amiga até à morte, em Dezembro passado. Para além do livro “Chega de Saudade” de Ruy Castro, que eu já conhecia, e das muitas músicas que ouvi, incluindo as dos ídolos de João.

O livro do não-brasileiro é “Ho-Ba-La-Lá”, título da quarta canção do lado A de “Chega de Saudade”, álbum de estreia de João Gilberto em 1959, e um dos mais extraordinários da música popular. O autor do livro é o jornalista alemão Marc Fisher, que se suicidou depois de entregar o texto ao editor alemão. Quando eu fiz a reportagem, ainda nem chegara às livrarias brasileiras. É a história de uma reportagem à procura de João Gilberto, na verdade de uma paixão pela música de João Gilberto que fez vir Fisher para o Brasil (no meio de outra paixão, amorosa, em Berlim). João, casmurro, acabou por nunca falar com ele. Depois, quando Miúcha lhe contou o que acontecera ficou chocado.

Também, claro, não consegui falar com João, só lhe fui tocar à campainha de madrugada, que era a hora adequada, porque João vivia de noite, dormia de dia. Mas não tentei mais do que uma vez, não era um livro, era só uma reportagem de revista. E é a única noite de nevoeiro de que me lembro no Leblon. Hora de nosferatus, mesmo. Neblina, nem vivalma, mas o apartamento de João iluminado. Na verdade, eu não tinha 100 por cento de certeza de aquela janela ser mesmo a de João, mas só podia ser. Lá estaria ele, ensaindo pela milésima vez. Como contava Miúcha, aos 80 anos ele continuava a ensaiar e sempre dizia: “Estou quase chegando lá…”

5. Não o reconheci nas fotografias que apareceram agora, tiradas entre Março e a semana passada. Magríssimo, de pijama, em casa a tocar violão, em Março, quando uma amiga o visitou e ele falou da eleição de Bolsonaro como “um absurdo”, e criticou a prisão de Lula. Magérrimo, a nadar no terno emprestado, quando no passado dia 2 foi jantar a uma churrascaria em Copacabana com o advogado e a actual mulher, Maria do Céu Harris. O fato era do advogado, porque os de João ainda nadavam mais. Algo, na magreza, no fato, me lembrou Drummond, que era o poeta favorito de João.

E tanto ficara irreconhecível que no fim do ano passado, quando Miúcha já estava muito mal, e escolheu passar a sua derradeira temporada diante do mar, num hotel em Copacabana, João ia visitá-la e ninguém na recepção, entre os hóspedes, o reconhecia. O mito vivo, mas incógnito, atravessando o átrio para subir no elevador.

Nana Caymmi conta que Miúcha disse então a João que não aguentava mais, e que ele respondeu: se você morrer, quero morrer também. Assim foi, meio ano depois.

6. Ruy Castro conta no seu fabuloso “Chega de Saudade” como João Gilberto inventou a Bossa Nova na casa de banho da irmã que morava em Diamantina. Nascido em Juazeiro, cidadezinha baiana com chão de terra, dez mil almas e altifalante na praça tocando lendas como Orlando Silva, o adolescente João começara por tocar violão na pracinha, debaixo de uma árvore, desde os 14 anos. Aos 18 partira para Salvador, e dali para o Rio onde viveu acampado em sofás de amigos, sem um tostão, levando à exasperação meio mundo, até partir deprimido e falido para Porto Alegre, onde se recompôs, e dali para Diamantina, cidadezinha histórica mineira. Que faz uma casa de banho à música? Replica cada nota, baixa a voz, além de que havia um bebé em casa, João tinha mesmo de cantar baixo. Falando cada sílaba como se a tirasse de dentro de um envelope, resumiu Ruy Castro. E João é baiano, baiano fala lento, canta lento. Tudo somado, João saiu da casa de banho de Diamantina com o som que pôs o Brasil no mundo. E foi para o mundo com Tom Jobim, Vinicius, Astrud. O que era a Bossa Nova? Algo semelhante a uma rodinha de amigos elevado à total perfeição, como sugeriu o crítico Lorenzo Mammí. Uma roda cantando, tocando, em torno de piano, diante do mar, na areia da praia.

Até à ditadura militar.

7. Quando o Brasil vivia uma euforia e Portugal a depressão da troika escrevi que nenhum português podia ter feito “Chega de saudade”

Vai, minha tristeza

e diz a ela que sem ela não pode ser…

Porque, escrevi, não damos ordens à tristeza ou a tristeza não nos obedece. o fado é uma forma de dizer como a tristeza não nos obedece, enquanto que a tristeza obedece ao Brasil, e isso é chorinho, é samba, é Bossa Nova. Isto foi há meia dúzia de anos mas agora parece há tanto tempo. Hoje, o Brasil tem muitas razões para estar triste, mas quem ama o Brasil sabe que o Brasil não passou a ser triste, já era. O que mudou é que a tristeza parece já não obedecer. Mas logo depois de “Chega de Saudade” também não foram anos fáceis. Ditadura, tortura. E tanta gente estava fora da rodinha bem aventurada, tanta gente invisível que agora está na rua, no palco. Outra beleza é possível, ou nem seria possível estarmos vivos. João será sempre o som dessa possibilidade.

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