Não sou capaz de, perante a tragédia, voltar a cara. Ignorar. De publicar futilidades ou gracinhas. Selfies e outras do género. O mundo não está para brincadeiras, muito embora me pareça que andam, claramente, a brincar connosco. Nós. Aqueles que andam todos os dias na rua sem vidro anti-bala ou equipas de segurança. Nós que estamos aqui enquanto eles — os que decidem (mal) — estão lá. Não estão a salvo, desenganem-se, mas é mais difícil chegar-lhes e, por isso, vamos caindo que nem tordos, um a um, em momentos e locais absolutamente inesperados.

Deitei-me tarde já sabendo da explosão, ignorando-a deliberadamente, na esperança de que fosse apenas fumaça. Um pequeno engenho daqueles “para assustar” e que resultam em nada, para além do susto. 

Acordei cedo, preparei tudo, cheia de energia e percebi que não era só fumaça. Foi, novamente, o terrorismo a matar mais 22 pessoas e ferir outras 59. Um bombista fez-se explodir na Arena, em Manchester, durante o concerto de Ariana Grande. 

Já perdi a conta ao que vai acontecendo no mundo e ao que chamam terrorismo, porque o pior terror, para mim, é a ideia de que pode acontecer em qualquer momento ou lugar. É pelo medo que nos querem controlar, impedindo o ritmo normal da vida quotidiana, o pensamento livre e a acção individual. Lá bem atrás no tempo caíram as torres gémeas e ficámos em choque. O ataque no metro em Londres, em Madrid, Paris, Istambul… Os meios de comunicação vão dando atenção e cavando o fosso que nos separa porque esta loucura é, também, a loucura pela atenção mediática. Deixar de noticiar não é, obviamente, método. Talvez os meios de comunicação de maior notoriedade pudessem focar-se, também, naquilo que acontece para lá do mundo ocidental. 

Nas redes online o ritual do habitual, porque agora "somos todos Manchester". Respeito por estas vidas interrompidas mas creio que a onda de solidariedade só alimenta o ódio. Porque é muito corajoso usarmos o nosso smartphone para reagir indignadamente. Publicar corações, mudar a foto de perfil... Gostava que um órgão de comunicação social - um que fosse - explicasse a razão pela qual tudo isto está a acontecer no mundo. Se o fizesse, se contasse a verdadeira razão e os interesses que movem montanhas, então teríamos indignação a sério. Porque vocês sabem, como eu sei, que o fanatismo religioso não explica nem um quinto do que está a acontecer no mundo. E se, no tempo da Guerra, Lisboa era um espécie de capital de espionagem, é pouco provável que não esteja na mira. De resto, o julgamento de quem comete este tipo de acção está feito e não creio que religião nenhuma aceite a morte pela morte, a matança para impor uma ideologia. A religião é, na sua essência, amor e esse, por mais violento que possa ser, não pode, de forma alguma, violentar ninguém. 

Eu tinha um plano. Semelhante ao dos jovens — e crianças — que ontem foram pela primeira vez a um concerto. Eu tinha um plano que incluía Ariana Grande e a minha pequena "ariana" que iria pela primeira vez a um concerto, cantar e dançar com a sua estrela pop preferida. Eu tinha um plano semelhante ao dos jovens de Manchester para fazer em Lisboa. Terei, ainda, esse plano?

Paula Cordeiro é, entre outras actividades consideradas (mais) sérias, autora do Urbanista, um híbrido digital que é também uma aplicação para smartphones. Baseado em episódios diários, o Urbanista é um projecto para restaurar a auto-confiança perdida e denunciar o preconceito social. Na verdade, os vários preconceitos sociais (raça, género, orientação sexual e outros difíceis de catalogar), embrulhados num estilo de vida saudável, urbano e divertido.

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