Que se dê a palavra ao mestre de cerimónias:

"Este ano vou ser o anfitrião de uma série de discussões sobre o futuro da tecnologia e da sociedade. Desta vez sentei-me com Mathias Döpfner em Berlim. (...) Falámos sobre o papel do jornalismo de qualidade na construção de comunidades informadas e os princípios que o Facebook deve usar para construir uma tab [zona] de notícias para dar visibilidade a jornalismo de alta qualidade, incluindo modelos de negócios e um ecossistema que o suporte. É importante para mim que ajudemos as pessoas a aceder a notícias de confiança e a encontrar soluções que ajudem os jornalistas em todo o mundo a fazer o seu trabalho".

Foi assim que Zuckerberg apresentou uma conversa de cerca de uma hora, partilhada no dia 1 de abril na sua página de perfil, com Mathias Döpfner, o homem-forte do 'gigante' Alex Springer, o maior publisher europeu, que detém marcas como o jornal Bild e o Die Welt.

O fundador e CEO do Facebook está a considerar a criação de uma zona dedicada a notícias na rede social, estando inclusivamente a estudar a implementação de um modelo de negócio que permita remunerar os meios de comunicação social pelos conteúdos usados. Simplificando: pagar pelas notícias que vai distribuir nesta nova área.

O foco, diz Zuckerberg, é impulsionar a distribuição e acesso a conteúdo de "alta qualidade". Mas enquanto o CEO da rede social olha para isto como uma forma de apoiar o jornalismo, Mathias Döpfner deixa claro que não é de um subsídio que se está à procura, mas de um modelo em que o Facebook, simplesmente, paga por aquilo que usa. E quanto melhor o modelo de negócio proposto pela rede social, menos problemas terá com a qualidade do produto.

Mathias Döpfner vai direto ao ponto: jornalismo independente é importante, mas só é possível com um "modelo de negócio sustentável" por trás. E "só se o jornalismo for um negócio é que jovens bloggers, startups e empreendedores são motivados a inovar nesta indústria".

Apesar de salientar que as pessoas ainda usam o Facebook essencialmente para estarem em contacto com família e amigos — razão que levou a rede social, há cerca de um ano, a anunciar que ia privilegiar este tipo de conteúdos, criando um alvoroço nos media, que, por seu turno, começaram a fazer contas ao impacto da alteração no seu negócio —, Zuckerberg estima que "cerca de 20%" dos utilizadores gostariam de ver mais notícias na rede social, isto é, ter um consumo de notícias que ultrapassa a partilha esporádica de um link entre uma selfie e um meme.

Zuckerberg contou então ao mundo que a rede social está a ponderar a criação de uma zona dedicada a notícias, tal como fez com os vídeos ao lançar o "Facebook Watch" — se for abrir a aplicação do Facebook no seu telemóvel vai encontrar o símbolo de uma televisão na base do ecrã, isso é o "Facebook Watch".

De recordar que o Facebook experimentou algo parecido — um feed dedicado a notícias — no passado, mais especificamente no outono de 2017, numa zona chamada "Explorar", mas acabou por abandonar a ideia pouco depois, em março de 2018, após um teste em seis países.

Agora a rede social não quer meter prego a fundo e deseja consultar os "especialistas" — como o próprio refere — em notícias e perguntar-lhes como é que esta zona deve ser desenvolvida, o que deve oferecer, quais serão os seus princípios e como deve ser remunerada.

Comecemos pelo que é "vital", responde Mathias Döpfner: Qualquer movimentação do Facebook para impulsionar o jornalismo "é apreciada pela indústria, desde que exista um modelo justo que permita, por um lado, que o produtor do conteúdo tenha acesso direto ao consumidor e consiga criar uma relação com ele, e, por outro lado, ter uma receita justa. Acho que estas coisas são vitais. (...) Porque se o Facebook se estiver a transformar, passo a passo, num publisher por si mesmo, então acho que isso cria uma dinâmica desagradável. Até para vocês", disse o CEO do grupo Axel Springer.

No seu entender, o Facebook deve ser uma plataforma neutra que reúne uma pluralidade de meios, sustentando isso num modelo de negócio que permita a justa remuneração dos produtores de conteúdo. Mas antes de avançar, Mathias Döpfner quer saber o que vai na cabeça de Zuckerberg (e nós também):

"O primeiro princípio [deste novo projeto] é que não queremos criar isto num vácuo, queremos consultar pessoas. O segundo princípio é que queremos que tenha informação de alta qualidade e confiável. Claro que qualquer coisa que façamos será personalizada... Há uma questão que tenho que é: qual é o nível de curadoria que devemos ter? Nós não temos jornalistas a fazer notícias. Isto ainda é uma página em branco, o que queremos é garantir que é um produto que dê às pessoas notícias de grande qualidade. O terceiro princípio é que isto permita o surgimento de novos tipos de jornalismo. Por exemplo, o jornalismo local está a ter dificuldade em transitar para o digital, mas há potencialmente novos modelos, promovidos por jornalistas independentes, mais focados em análise, e não há um modelo de negócio em torno disto", diz Zuckerberg.

O criador do Facebook acrescenta ainda que vê nesta zona específica para notícias na rede social uma oportunidade para "monetizar melhor o conteúdo para os produtores. Ao contrário do feed, em que os amigos podem ver um link e partilhar, neste caso o Facebook poderia ter uma relação direta com os publishers para garantir que o seu conteúdo está disponível", exemplifica.

A questão remete de novo para a curadoria: quem escolhe as notícias que devem aparecer a determinado utilizadores? Sobretudo se, como o próprio Mark Zuckerberg assumiu, se pressupõe que exista um grau de personalização da ferramenta?

E é o próprio a materializar a dúvida: "devemos manter o principio: se segues o The New York Times recebes o seu conteúdo; se não segues o The Washington Post não recebes o seu conteúdo? Ou devemos ter um entendimento de quais são as fontes reconhecidas como confiáveis pela sociedade ou pela rede [de amigos de determinado utilizador] e tentar criar algoritmos ou ter algum tipo de curadoria humana?"

"Neutralidade". É esta a palavra de ordem para Mathias Döpfner, que assume a sua desconfiança quando se coloca nas mãos de uma plataforma como esta o papel de determinar o que eu ou você devemos ver e, naturalmente, consumir — porque ninguém lê aquilo a que não é exposto de alguma forma.

"Sempre fui muito cético em relação à curadoria do Facebook, porque acho que quanto mais selecionam e fazem escolhas, mais se transformam, involuntariamente, num publisher, e aí, mais tarde ou mais cedo, serão visados pelos reguladores. Então vocês têm de manter um grau de neutralidade. (...) Portanto, a minha recomendação é que não façam curadoria e se limitem ao enquadramento legal: se algo é ilegal tirem", defende Mathias Döpfner.

"Podem ter critérios sobre que marcas, fontes ou instituições aceitam e a quais dizem 'não, não está em linha com a nossa legislação ou até com os nossos princípios constitucionais'. Mas, à parte disso, não vejo razão para não serem o mais abrangentes possível. Quanto mais abrangentes, melhor. (...) Não acho que tenham de limitar à partida tu és New York Times, tu és Washington Post e tu Business Insider", concluiu.

No que diz respeito à qualidade é tudo money talk: "Sobre qualidade do conteúdo, acho que é simples: quanto mais atrativo for o modelo de negócio que o Facebook propuser, melhores jornalistas profissionais vai atrair. Quando [a questão] é só sobre alcance, popularidade ou audiência, a sedução para se ser uma plataforma de manipulação é tão alta... (...) Eu focar-me-ia em ter uma proposta atraente para que os jornalistas e bloggers coloquem na vossa plataforma o seu melhor conteúdo", sugeriu o CEO do grupo Axel Springer.

"Jornalismo de qualidade só pode existir no mundo digital se existirem leitores pagantes. Quando sugeri isso há dez anos e disse que precisávamos de um enquadramento legal as pessoas riram-se e disseram 'este gajo não percebe de Internet, tudo tem de ser grátis, é uma questão de alcance, audiência e não de dinheiro'. Claro que se chegou à conclusão que não podemos pagar a renda e, no fim, há consenso no facto de que o jornalismo a que chamamos de qualidade só pode existir se houver quem pague".

Ao repto, Mark Zuckerberg respondeu que deseja garantir, "na extensão possível", que o Facebook está "a ajudar o jornalismo de qualidade", mais do que à procura do seu quinhão na equação. "Estamos a fazer esta aproximação de uma perspetiva diferente de outros agentes no mercado que veem as notícias como uma forma de maximizar a sua receita. Não é necessariamente a forma como estamos a pensar nisto", disse.

Mathias Döpfner tem outra perspetiva:

"A minha sugestão é que em vez de pegar no dinheiro e dizer que temos X milhões para distribuir filantropicamente, dizer 'ok, respeitamos a regra que diz que o conteúdo que usamos precisa de ser pago'. As licenças de utilização, por exemplo, têm sido fundamentais para a indústria de música, que já não existiria sem estas licenças. (...) Se estamos a usar conteúdos para esta plataforma, então vamos pagar uma licença de utilização. Isso já seria um grande passo", diz Döpfner, acrescentando que desta forma o Facebook passaria a ser percepionado como "um agente colaborante num ecossistema saudável".

Esta ideia de o Facebook pagar pelo conteúdo que distribui de alguma forma na sua plataforma é uma aspiração antiga dos meios de comunicação social, como recorda a Bloomberg. Robert Thomson, CEO da News Corp, sugeriu à rede social que pagasse aos produtores de conteúdo como as empresas que distribuem canais por cabo pagam para ter a CNN ou a ESPN no seu catálogo. Jonah Peretti, co-fundador do BuzzFeed, também urgiu a empresa a partilhar parte da receita gerada com a partilha de notícias com os grupos de comunicação social.

Mudança de estratégia

De referir que esta movimentação por parte do Facebook é conhecida menos de uma semana depois de o Parlamento Europeu ter aprovado, por maioria, a nova lei de direitos de autor, apertando o cerco à partilha de conteúdos online.

A primeira proposta desta lei foi apresentada em 2016. Polémica, sofreu várias alterações ao longo do tempo. Os artigos que geraram mais controvérsia foram o 11.º e o 13.º, sendo que o primeiro previa o pagamento às publicações de imprensa pela partilha de links ou referências dos seus conteúdos; e o segundo previa um mecanismo para identificar e remunerar os criadores de conteúdos que são carregados em plataformas como o YouTube por utilizadores. No centro da polémica esteve a dificuldade em destrinçar uso ilegal de uso indevido. Com as alterações, estes artigos têm agora nova numeração — 15.º no que se refere à proteção de publicações e 17.º no que concerne a utilização de conteúdos protegidos por direitos de autor em plataformas — e prevê exceções. Leia aqui com mais detalhe.

De notar igualmente que Zuckerberg, no final de março, escreveu um editorial no The Washington Post onde pede a governos e reguladores que tenham uma voz ativa naquilo que será a Internet amanhã, nomeadamente em quatro áreas: conteúdos nocivos online, integridade do processo eleitoral, privacidade e portabilidade de dados. Mais do que um editorial, este texto é uma mudança de estratégia radical: Silicon Valley, tradicionalmente avessa a regulação, quer ter voz também neste debate, como nota a recode aqui. Razão para dizer: se não podes vencê-los, junta-te a eles. Zuckerberg já deu o pontapé de saída.

Novidades, só lá para o final de 2019

Voltando àquilo que nos trouxe a este artigo, a nova tab de notícias de "alta qualidade" em que o Facebook está a trabalhar, segundo a recode, está na realidade a ser discutida há meses entre executivos da empresa, tendo até sido experimentada internamente. Envolvidos no projeto estão Chris Cox, responsável de produto, e Campbell Brown, responsável pelas parcerias de media. Uma fonte próxima de Zuckerberg adiantou à recode que, pelo menos para já, não está em cima da mesa cobrar-se diretamente aos utilizadores o consumo de notícias nesta tab.

Por outro lado, a conversa com Mathias Döpfner é mais uma incursão exploratória do que um compromisso formal de pagar a produtores de conteúdos diretamente, e, segundo uma fonte da recode, a rede social pode acabar por tentar atrair publishers com outro tipo de propostas, como a partilha de receita publicitária. A mesma fonte adianta que a nova zona dedicada a notícias pode ser lançada ainda este ano, mais perto do final de 2019.

Até lá, é esperar para ver.

Apenas uma curiosidade: Mark Zuckerberg podia ter escolhido um dia mais auspicioso para partilhar a conversa com Döpfner e anunciar um produto que pode inaugurar uma nova fase de relacionamento entre a rede social e os meios de comunicação social. Numa altura em que as fake news são um dos temas mais relevantes quando se discute o futuro dos media e das plataformas de distribuição de conteúdo, em particular as redes sociais, dar esta novidade a 1 de abril, Dia das Mentiras, pode ser considerado, no mínimo, irónico.

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