O A3 surgiu em 1996 e queria ser o “Golf da Audi”. Se esse não era um desígnio espetacular, servia aqueles que queriam um Golf mais exclusivo, com certos requintes que a outra marca do grupo oferecia. Ao mesmo tempo permitiu à insígnia dos anéis ter um produto para captar novos clientes.

O A3 era uma espécie de primo mais endinheirado e com a inerente petulância do status. Agora é hora de me confessar admirador do Golf e, por isso, o ensaio do Audi A3 não era a coisa mais entusiasmaste à partida, mesmo com os anunciados gadgets que este modelo em particular trazia.

Chegado o dia, lá nos encontramos, no parque de estacionamento quando a noite já caíra. Ao primeiro relance pensei: “Menos mal, ao menos a versão Limo, com o 'rabinho' a querer reeditar o A4. Vamos lá guiar um Audi de brincar …".

Ao primeiro relance, também o design parece bem conseguido.

Vamos lá abrir a mala para por a mochila e, espanto, não é tão pequena quanto se poderia pensar. São 425 litros de capacidade, que pude comprovar nos dias que se seguiram. Mãos no volante, o tablier é agradável e desportivo. O volante propõe algum “racing”, cortado em agudos retos em baixo. Primeiro lembra a PlayStation, mas depois na condução revela-se interessante e até é preferível ao redondo tradicional. No dia seguinte, nas curvas de Sintra, e a conduzir no limite que a estrada permite, a assimetria do volante ajuda a ter a noção do ângulo de viragem.

De volta ao “blind date” da primeira noite com A3. Ainda no estacionamento, para arrancar não é necessário tirar a chave do bolso, nova surpresa… (a chave funciona por proximidade abre e fecha as portas e ativa o botão start para ligar o motor). A caixa é a S tronic de seis velocidades, com dupla embraiagem, isto quer dizer que as passagens de caixa são suaves e precisas, na prática é como se tivéssemos duas mudanças sempre prontas para entrar, numa condução mais agressiva a primazia vai a mudança com mais potência, numa condução mais suave é a mudança mais alta a engatada, o que resulta em maior conforto e menor consumo. A caixa S tronic faz metade do trabalho, a outra parte é a suspensão eletrónica, onde se podem escolher os modos ecológico; conforto; desportivo, automático e personalizado. Suspensão e S tronic juntas fazem este pequeno Audi parecer um dos grandes.

Nos primeiros quilómetros, a dinâmica do carro foi boa, os bancos permitem as regulações necessárias para a comodidade em viagem, e o ambiente do interior é agradável. Tenho sempre algumas reservas em relação a carros supostamente desportivos que vêm apimentados de letras suspeitas como “S”; “R” e outras insígnias para fazer o inconsciente do proprietário envaidecer-se e pensar que é piloto de rali. Na minha opinião, é a versão automobilística do rapaz de meia-idade ou menos, com a sua barriga proeminente, mas que se passeia no centro comercial de fato de treino: isso não faz dele atleta, e os desportistas como os pilotos usam equipamentos desportivos quando praticam desporto. Pergunto-me muitas vezes o que fariam aqueles condutores de pequenos carros desportivos que protagonizam acrobacias na estrada se realmente tivessem a oportunidade de guiar um carro de rali. Primeiro veriam quão difícil é, e segundo aposto que a adrenalina na primeira curva soava mais a respeito do que a excitação. Os carros de corrida são para as pistas, os nossos são para ser agradáveis de conduzir, ágeis, confortáveis, e funcionais para levar os miúdos e ir às compras, tal como os carros do dia-a-dia dos campeões de rali também levam os miúdos, as compras e o cão.

Este Audi A3 Limousine 2.0 TDI 150 cv S tronic Sport, ainda não passou meia hora que nos encontramos e já começa e conquistar-me aos primeiros quarenta quilómetros da Azambuja para Lisboa.

No dia seguinte, o desafio é perceber se os encantos do A3 da noite anterior se mantêm ou se se desvanecem com a luz do dia.

Sim, a traseira saliente dá uma certa personalidade ao carro. Primeiro tento o banco de trás para ver se o meu metro e oitenta cabe, e sim tem espaço para as pernas e dois dedos acima da cabeça, mas o meu lugar não é este.

Vamos lá experimentar convenientemente a geringonça dos gadgets, a razão primeira do teste. Não vou consultar manuais e o desafio é em dois semáforos conseguir sincronizar o telemóvel e aceder aos meus podcasts, e antes do segundo verde já ouvia a playlist do iTunes. Internet a bordo; GPS, Google Maps. Testo depois …

Lisboa-Guincho para ver quanto dá (é melhor não dizer aqui). Refiro só os dados da ficha técnica: aceleração dos 0 aos 100 km/hora em 8,3 segundos e a velocidade máxima 224 km/h. O A3 revelou-se ágil em estrada aberta, mas foi nas curvas do Guincho para Sintra que a vantagem das reduzidas dimensões deste modelo se mostram e fazem a estrada tornar-se uma diversão. Suspensão em modo "S", acelerador e travão, e o carro passa a ser um lápis em mão firme que desenha as curvas.

Na volta para Lisboa, viemos bem comportados e em modo conforto com um consumo médio de combustível abaixo dos 5 litros por cada cem quilómetros percorridos. É hora de ir ao supermercado fazer as comprar do mês, um carro desportivo que não aguenta com um carrinho de supermercado cheio despejado para a mala perde em relação a um enfadonho familiar. A mala do A3 acata bem com os dez sacos de mercearias e ainda sobra espaço. É uma boa noticia para todos que têm em casa comilões do nível dos meus.

Dia 3, é dia de trabalho. Só hoje,  tenho pela frente a gravação de seis entrevistas do grupo de 66 empresas selecionadas para representar Portugal na Web Summit. A corrida vai ser na cidade e o teste vai ser a mala; também a facilidade de estacionar e como ligar o escritório ao sistema de entretenimento do carro. Na mala coube o equipamento de filmagem; câmara, tripés e luzes, mais a mochila do computador. Hoje as atenções estão viradas para o display multimédia, podia ser maior embora a interessante função de recolher para dentro do tablier. Já a função touch faz falta: hoje em dia tornou-se tão natural que não pude evitar ir uma ou duas vezes com a mão ao ecrã em vão. O controlo é feito por uma rodinha e botões na consola central, perto da alavanca das mudanças. Depois dos dedos reconhecerem o caminho torna-se mais fácil, quem compra um carro destes terá o tempo para se habituar, mas mais fácil é utilizar os botões do volante para certas operações como fazer chamadas, atender e procurar números na lista telefónica, funcionalidades que utilizei imenso neste dia.

Mas o mais interessante é a navegação. Para além do normal GPS com o Google Maps e devo confessar que só verdadeiramente valorizei esta funcionalidade quando já tinha entregue o carro, no dia seguinte já sem o A3 continuei a demanda das startups do Web Summit . Estes gadgets fazem-nos realmente falta quando nos habituamos a eles e damos como adquirido que estão lá. Neste caso o carro tinha com um cartão de dados que permite utilizar até oito aparelhos móveis em simultâneo  muito útil se se levam crianças a trás e se quer algum sossego.

Balanço final e porque é que este A3 se fosse uma empresa seria uma startup. Tal como uma startup aborda um problema de uma forma inovadora e acaba por ter a classe dos irmãos maiores sem perder o carisma. Apresenta uma proposta de valor mais em conta face aos outros modelos sem lhes ficar a dever em conforto, prestações, funcionalidade e consumos. A média de consumos dos três dias de ensaio em cerca de seiscentos quilómetros foi de 4,3 litros/100km.

O custo base do modelo é de 41.240,00 euros, acrescentando 12.260,00 euros de extras (ver tabela de extras) chega a um total de 53.500,00, que será o valor de A4 com muito menos equipamento.
No fim, acho que escolheria o A3.

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