De reedições que urge (re)descobrir a novas vozes que vale a pena conhecer, de biografias que revelam novas facetas de figuras julgamos conhecer a manifestos que apelam à urgência de construir um mundo melhor, 2022 foi um ano pródigo para acumular ainda mais material de leitura.

Haveria muito mais a incluir, mas estas 24 escolhas — misturando o novo e o antigo — representam uma boa súmula do que não pode deixar passar em claro deste ano.

1. Novas Cartas Portuguesas (Reedição de 50 anos)

Autoras: Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa
Editora: Dom Quixote

No que toca à magnitude de acontecimentos, há, em termos da escala do seu impacto, pedradas no charco, bombas, autênticos terramotos… e depois há o lançamento das “Novas Cartas Portuguesas”. Editado em 1972 em claro desafio à modorra de um Estado Novo em decadência, este livro de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa ajudou a lançar as bases para uma nova literatura — despudorada, aventureira, até mesmo escandalosa — no feminino. Misto de poemas, cartas e ensaios, esta obra foi, em comemoração de meio século de existência, reeditada este ano em capa dura, tendo direito a prefácio de Maria de Lourdes Pintassilgo e organização da professora e poeta Ana Luísa Amaral. Se nunca leu este marco da literatura nacional, a reedição conta ainda um caderno com fotografias de Jorge Horta, irmão de Maria Teresa Horta, que acompanhou a vida das Três Marias durante o processo judicial de que as autoras foram alvo — e depois ilibadas, tendo o juiz, recorde-se, considerado que este livro "não é pornográfico nem imoral, pelo contrário, é uma obra de arte, de elevado nível, na sequência de outros que as autoras já produziram”.

Novas Cartas Portuguesas
créditos: Dom Quixote

2. Eles

Autora: Kay Dick
Editora: Relógio d’Água

Se o nome “Kay Dick” pouco ou nada lhe diz, não se apoquente, não será uma falha imperdoável do seu conhecimento literário enciclopédico — trata-se de uma escritora e jornalista que, embora popular na cena literária inglesa nos anos 60 e 70, caiu em esquecimento. Descrito pela Paris Review como uma “obra-prima distópica perdida”, “Eles” foi originalmente publicado em 1977, e com sucesso, mas perdeu-se nas brumas do tempo até à sua redescoberta recente. Narrativa composta por nove pequenas histórias interconectadas, o “eles” em questão é uma força opressora que se dedica a perseguir refugiados que vivem em comunidades libertárias nas zonas rurais de Inglaterra num tempo inaudito. Não está aqui em causa um governo ditatorial, mas uma turba estranha e desconhecida que se vai multiplicando na sua voracidade de eliminar o pensamento livre.

Eles
créditos: Relógio d'Água

3. Ás de Espadas

Autora: Faridah Àbíké-Íyímídé
Editora: Desrotina

Não, não há qualquer relação deste livro com o famoso hino fora-da-lei dos Motorhead, senão o facto de a autora também ser britânica. Thriller juvenil assumidamente inspirado em séries como “Pretty Little Liars” e “Gossip Girl”, a história passa-se num colégio privado, onde Devon Richards e Chiamaka Adebayo são dois estudantes negros escolhidos para serem ambos delegados de turma no início do ano letivo. No entanto, quando tal acontece, uma pessoa que dá pelo nome de “Ases” começa a revelar segredos íntimos dos dois pela escola. O que começa por ser uma brincadeira de mau gosto ameaça tomar repercussões sérias. Escrito como forma de colocar em análise questões de homofobia e racismo internalizado entre os jovens, “Ás de Espadas” foi um sucesso imediato para Faridah Àbíké-Íyímídé. Só com esta obra Young Adult, a escritora de 21 anos assinou um contrato com a Macmillan no valor de um milhão de dólares — se para Lemmy e companhia, o ás de espadas era uma carta de azar, a sua conterrânea pensará de forma diferente.

Ás de Espadas
créditos: Desrotina

4. Sontag, Vida e obra

Autor: Benjamin Moser
Editora: Objectiva

O apelido é tão invulgar como icónico. Vários carregaram este nome, mas talvez nenhum como Susan Sontag, uma das mais importantes escritoras, ensaístas e ativistas políticas norte-americanas do século XX. Personalidade caleidoscópica para o bem e para o mal — dona de uma produção teórica e de ficção lendárias, mulher de inúmeras contradições políticas e pessoais —, reduzi-la a uma narrativa biográfica nunca seria tarefa fácil, mas Benjamin Moser empreendeu nessa tarefa — ele que já o tinha feito com Clarice Lispector. O resultado foi “Sontag, Vida e obra”, livro vencedor de um Pulitzer e tido como o documento definitivo sobre a vida da escritora, da sua vida privada ao seu percurso intelectual, com paragens obrigatórias pelo seu ativismo, da oposição à Guerra do Vietname à encenação de “À Espera de Godot” que organizou num teatro iluminado a velas durante o cerco a Sarajevo, durante a Guerra da Bósnia.

Sontag, Vida e obra
créditos: Objetiva Editora

5. A Viúva

Autor: José Saramago
Editora: Porto Editora

“Não podia adivinhar que o livro terminaria a pouco lustrosa vida nas padiolas. Realmente, a julgar pela amostra, o futuro não terá muito para oferecer ao autor de ‘A Viúva’”. Foi desta forma que José Saramago assinou o prefácio daquele que viria a ser o primeiro de muitos romances que compuseram o seu legado. Como já foi dito, ainda bem que estava errado. Desde que teve início o ciclo do centenário do nascimento do Nobel português, saíram inúmeros livros do seu universo literário, mas se tiver dúvidas em como começar, nada como o início. Publicado em 1947 como “Terra do Pecado”, este não era o título que o autor desejava, mas sim o que agora figura nesta reedição. Romance de formação para Saramago — não se encontra aqui o estilo de escrita que o notabilizou —, a história segue Maria Leonor, mulher que perdeu o marido e encontra consolo no cunhado.

A Viúva
créditos: Porto Editora

6. As Margens e a Escrita

Autora: Elena Ferrante
Editora: Relógio d’Água

Uma e outra vez, jornalistas, e não só, têm teimado em tentar desvendar a identidade de Elena Ferrante, a “escritora italiana” cuja ausência de perfil público — no sentido carnal e tangível do termo — não foi impedimento para se tornar num dos grandes fenómenos literários recentes — aliás, até terá ajudado. A curiosidade agonia — e, nalguns casos, não é infundada, como “Carmen Mola” nos demonstrou —, mas parece um objetivo algo fútil quando Ferrante tem vindo a revelar aquilo que realmente importa saber através dos seus lançamentos. Em “As Margens e a Escrita”, regressou à não-ficção para dar a conhecer um pouco mais de si, ao dissecar através de quatro ensaios as suas influências — de Ingeborg Bachmann a Emily Dickinson —, o seu pendor pelo realismo, a condição da escritora mulher e a sua relação com a obra de Dante.

As Margens e a Escrita
créditos: Relógio d'Água

7. Árabes

Autor: Tim Mackintosh-Smith
Editora: Edições 70

Perante a onda de islamofobia que varreu o mundo ocidental após o crescimento do terrorismo islâmico e as várias atrocidades que este perpetrou, tornou-se fácil esquecer o papel que os povos árabes tiveram no desenvolvimento da ciência, da cultura e da linguagem. “Árabes”, do historiador britânico Tim Mackintosh-Smith, é um fármaco literário para estes lapsos de memória coletiva. Percorrendo 3000 anos de diferentes tribos e impérios, o foco aqui não é na religião de Maomé — a cronologia começa um milénio antes do nascimento do profeta —, mas sim na língua como herança partilhada em mais do que um continente e ao longo de séculos até aos dias de hoje, mesmo perante um panorama espartilhado por confrontos religiosos e ideológicos. Num país onde perdemos a conta das palavras que usamos à conta da presença moura por estas terras — e das inúmeras formas como a nossa cultura foi influenciada — , não será mal pensado reconectar com esse passado longínquo.

Árabes
créditos: Edições 70

8. Contos de Cantuária

Autor: Geoffrey Chaucer
Editora: E-Primatur

Pode parecer-lhe estranho ler que um dos maiores lançamentos de 2022 em Portugal tenha sido um livro de histórias em verso com mais de 600 anos, mas foi exatamente isso o que aconteceu com esta edição de “Contos de Cantuária”. Para ter em conta o grau de significância deste lançamento, trata-se de um dos maiores importantes livros medievais e um dos que ajudou a popularizar o inglês vernacular — ou seja, o falado entre as pessoas — na escrita da Inglaterra, fazendo de Geoffrey Chaucer um dos “pais” da literatura inglesa. E foi a primeira vez que saiu em Portugal com uma tradução integral do original, fruto do trabalho do poeta e tradutor Daniel Jonas. Desengane-se, porém, se acha que o que o espera é uma “estucha” a fazer recordar os tempos de escola: nestes 24 textos há humor e sátira de sobra sobre a sociedade da época, ousando mesmo entrar em territórios mais picantes.

Contos de Cantuária
créditos: E-primatur

9. Oh, William!

Autora: Elizabeth Strout
Editora: Alfaguara

Tinha saudades de Lucy Barton? A escritora ficcional regressou em “Oh, William!”, o mais recente romance da escritora bem real que é Elizabeth Strout, finalista do Prémio Booker deste ano e agraciada com um Pulitzer em 2009. Mantendo o mesmo estilo confessional, quase segredado por entre as letras impressas na página, este livro coloca Barton perante uma encruzilhada: ela enviuvou e o seu primeiro marido, que dá o nome a esta obra e sobre quem a narrativa se foca, está a atravessar uma crise no seu terceiro casamento. Os dois nunca perderam contacto, mas a vontade de William em descobrir a proveniência da sua mãe e o pedido de ajuda que lhe dirige aproxima-os ainda mais e leva-os para uma jornada imprevisível para ambos. Esta é mais uma prova do dom que Strout possui para criar personagens de enorme profundidade emocional e psicológica, e de abordar relacionamentos com a mesma complexidade desesperante que estes têm nas nossas vidas.

Oh, William!
créditos: Alfaguara

10. O Acontecimento

Autora: Annie Ernaux
Editora: Livros do Brasil

Há temas cuja brutalidade os torna impossíveis de abordar sem uma certa dose de crueza, mas é também por isso que recorremos à ficção: para universalizar o particular que nos aflige mental e/ou fisicamente. Para Annie Ernaux, “O Acontecimento” foi uma via para abordar as questões do aborto, em concreto o aborto ilegal. Como muito do seu trabalho, este é um romance autobiográfico, e fixa em texto uma experiência traumática de interrupção da gravidez numa França que ainda não a tinha legalizado, em 1963. Quarenta anos depois, a protagonista seguiu em frente, mas o trauma não a deixou. Celebrado por representar esta problemática de uma forma mais filosófica do que moral (e moralista), este foi um dos livros que posicionou Ernaux a tornar-se prémio Nobel da Literatura este ano.

O Acontecimento
créditos: Livros do Brasil

11. Pessoa. Uma Biografia

Autor: Richard Zenith
Editora: Quetzal

“Deus quer, o Homem sonha, a Obra nasce”. É uma citação usada e abusada, mas aplica-se perfeitamente a “Pessoa. Uma Biografia”, o monumental livro que descreve o homem por trás da obra, assinado por Richard Zenith. Empresa titânica que o poeta teria apreciado — nem que seja pela magnitude do esforço em descrever a sua vida ao longo de mais de mil páginas —, este volume foi um projeto de longa data do investigador norte-americano naturalizado português, finalmente parido em 2021 no mercado anglo-saxónico. Lá, foi amplamente celebrado, antes de receber a devida edição em Portugal. O estilo literário, os heterónimos, a sua relação com o ocultismo, com a política e com os outros são escalpelizados numa obra que, mesmo que Deus não tenha querido, houve um homem que certamente a sonhou.

Pessoa. Uma Biografia
créditos: Quetzal Editores

12. Mar da Tranquilidade 

Autora: Emily St. John Mandel
Editora: Editorial Presença

O que é que Edwin, um colono britânico exilado para um Canadá por desbravar em 1912, e Olive, uma escritora que vive numa cidade na Lua protegida por uma redoma em 2203, têm em comum? O mesmo som bizarro de violino que o primeiro ouviu a partir de um terminal de dirigíveis surge descrito no romance sobre uma pandemia da segunda, sem ligação aparente. O que une estes pontos no tempo é Gaspery-Jacques, detetive lunar do ano 2401 que é chamado para investigar uma anomalia no continente norte-americano e que teve consequências imprevisíveis. É esta a trama de “Mar da Tranquilidade”, o mais recente romance da canadiana Emily St. John Mandel. Reforçando a sua posição como uma das mais importantes escritoras contemporâneas de ficção especulativa, o livro não se trata apenas de uma aventura de viagens no tempo, mas de uma exploração quanto à própria natureza da nossa realidade — e se tudo não passar de uma ilusão?

Mar da Tranquilidade 
créditos: Editorial Presença

13. Crónicas do Lugar do Povo mais Feliz da Terra

Autor: Wole Soyinka
Editora: Livros do Brasil

Este título, diga-se de passagem, deve ser encarado com uma certa dose de ironia. O “povo” em causa até poderia ter hipótese de ser o mais feliz da Terra, não fosse ele subjugado pela tirania de uma classe política cleptocrata. Neste regresso de Wole Soyinka ao romance ao fim de quase 50 anos, o Nobel imagina uma Nigéria em que um homem faz fortuna vendendo partes de corpos roubadas de um hospital. O responsável pela instituição, Dr. Menka, tenta recorrer a um amigo antigo, que está prestes a aceitar um cargo nas  Nações Unidas. Mas sem sucesso, já que o esquema criminoso é mais profundo — e perigoso — do que imaginam. Uma invetiva contra a corrupção, esta é mais uma obra de um autor que dedicou a sua vida a combater o abuso de poder no seu país.

Crónicas do Lugar do Povo mais Feliz da Terra
créditos: Livros do Brasil

14. Livro do Clima

Autor: Vários
Editora: Objectiva

Uma das críticas direcionadas aos ativistas climáticos que ocuparam diversos estabelecimentos de ensino em Lisboa foi que lhes faltava conhecimento quanto ao tema que abordam e que deveriam estudá-lo. Tenham sido dirigidas de boa ou má fé, certo é que ler o “Livro do Clima” não lhes fará mal nenhum. Concebido por Greta Thunberg, este é um autêntico manual que explora as causas das alterações climáticas, os seus impactos e as formas de combatê-las. Vertiginoso na sua profundidade, há espaço aqui para textos não só de cientistas climáticos como Kate Marvel e Carlos Nobre, como também de especialistas e comunicadores de ciência — como Naomi Oreskes, Beth Shapiro, David Wallace-Wells e Elizabeth Kolbert —  e de figuras intelectuais — como Thomas Piketty, Margaret Atwood, Amitav Ghosh e Naomi Klein. Se lhe parece bizarro tantas pessoas de diferentes áreas juntas neste mesmo desígnio, não se esqueça que esta é uma causa comum e que afeta a todos — e não lhe fará mal nenhum ler também sobre o assunto.

Livro do Clima
créditos: Objetiva Editora

15. Os Homens de Putin

Autora: Catherine Belton
Editora: Ideias de Ler

Sim, sim, nós sabemos. Quase dez meses depois da invasão da Ucrânia, o tema tornou-se porventura cansativo e talvez não seja a sua principal ideia de escape quando pega num livro. Considere, ainda assim, perguntar-se: “como é que tudo isto começou?” Há demasiadas variáveis para ter uma resposta direta, mas Catherine Belton sugere um caminho que melhor ajuda a entender como é que a Europa aqui chegou. O subtítulo deste livro não deixa margens para dúvidas quanto à sua tese: “Como o KGB se apoderou da Rússia e depois atacou o Ocidente”. Jornalista da Reuters e antiga correspondente do Financial Times em Moscovo, Belton dedicou-se a desbravar a teia de opacidade que circunda o Kremlin para descobrir como é que Vladimir Putin e a sua entourage tomaram o poder na Rússia. Para tal, recorreu não só à sua experiência no país, como a várias testemunhas bem colocadas — inclusive, dentro da cúpula do poder. O resultado incomodou: a jornalista e a sua editora foram alvo de vários processos judiciais com o objetivo de silenciá-la.

Os Homens de Putin
créditos: Ideias de Ler

16. Abelhas Cinzentas

Autor: Andrei Kurkov
Editora: Porto Editora

Ok, fica a promessa de que esta é a última recomendação relacionada com o atual conflito na Ucrânia. Sublinhe-se, no entanto, que o teor literário deste romance extravasa geografias e eras — porque a guerra é universal e a vontade humana de superá-la também. “Abelhas Cinzentas” passa-se em 2017, na ‘zona cinzenta’ do Donbass, composta de terras de ninguém e lealdades dúbias entre o lado pró-russo e o lado pró-ucraniano. Sergeyich não quer saber de nada disto: o seu único objetivo é abandonar a aldeia ficcional de Pequena Starhorodivka — onde apenas ele e outro homem vivem — e levar as suas abelhas para um local onde possam circular e polinizar à vontade. A fábula deste apicultor serviu a Andrei Kurkov — um dos maiores escritores ucranianos deste tempo — para relembrar as gentes de um local no mundo esquecidas durante anos, até aos infelizes acontecimentos de fevereiro deste ano. Se precisa de aguçar ainda mais o apetite, eis aqui uma conversa com ele.

Abelhas Cinzentas
créditos: Porto Editora

17. De Amanhã em Amanhã

Autora: Gabrielle Zevin
Editora: Asa

O título deste livro poderia ser a descrição da propensão que muitos de nós têm para adiar as leituras que tantas vezes prometem colocar em dia, mas não. A sua origem deriva de um solilóquio de Macbeth, a trágica personagem de William Shakespeare — tanto que o título original é “Tomorrow, and Tomorrow, and Tomorrow”. Não é por acaso: este celebrado livro da escritora norte-americana Gabrielle Zevin vai beber ao caldeirão dramático que o Bardo fermentou, mesmo que indiretamente. A narrativa segue Sam e Sadie, dois amigos de longa data que se amam sem consumarem esse sentimento. Juntos formam uma parelha de programadores de videojogos e, ainda antes dos 25 anos, criam Ichigo, um jogo revolucionário que permite viver uma e outra vez, um e outro amanhã. Com o lançamento, chega o sucesso e a fama. Porém, o processo também se faz de ambição desmedida e obsessão, de tal forma que uma crítica literária fez notar como acabam por sofrer da mesma forma como o Capitão Ahab na sua busca desenfreada por Moby Dick.

De Amanhã em Amanhã
créditos: Editora ASA

18. Escrítica Pop

Autor: Miguel Esteves Cardoso
Editora: Bertrand

“Como as borboletas, a música pop tem uma vida de três dias", escreveu Miguel Esteves Cardoso (MEC). Mas a crítica musical não precisa de sofrer o mesmo destino, mesmo que inevitavelmente sujeita a anacronismos, pois a boa escrita é intemporal. É o que prova “Escrítica Pop”, livro de culto do escritor e jornalista e que ainda hoje é uma referência, figurando ao lado das suas conhecidas coletâneas de crónicas. Esta obra é composta pelos textos que MEC assinou n’”O Jornal” e nas revistas “Se7e” e “Música e Som” na sua vida dividida entre Portugal e o Reino Unido nas décadas de 70 e 80 Talking Heads, Joy Division, The Specials ou Blondie foram apenas alguns dos artistas e bandas merecedores da sua reflexão. De destacar que esta edição é maior que as anteriores, já que inclui o livro “O Ovo e O Novo”, que se debruça sobre a música dos anos 70.

Escrítica Pop
créditos: Bertrand Editora

19. Olho da Rua

Autora: Dulce Garcia
Editora: Companhia das Letras

Existe uma longa tradição na literatura quanto à degeneração moral a que os humanos são sujeitos quando forçados a lutar pela sobrevivência, desde “O Coração das Trevas” até “Battle Royale”, passando por “O Deus das Moscas” e toda uma panóplia de narrativas pós-apocalípticas e/ou distópicas. Contudo, um olhar mais radical poderia sustentar que o modelo capitalista já nos trouxe a este patamar, ainda que matizado. É esta a premissa de “Olho da Rua”, da jornalista e escritora Dulce Garcia: a empresa enquanto selva onde subsiste a lei do mais forte. Um conjunto de trabalhadores de uma uma agência de publicidade de Lisboa está na calha para o despedimento e é forçado a escolher entre si qual aquele que sai. A situação obviamente descamba, nesta sátira sobre o estado de competição em que o mundo laboral nos coloca diariamente.

Olho da Rua
créditos: Companhia das Letras

20. Uma Pequena Vida

Autor: Hanya Yanagihara
Editora: Editorial Presença

Se vai seguindo o mundo dos livro e da literatura — quer recorrendo a revistas e websites, quer através de fenómenos em plataformas como o TikTok —, já deve ter visto a capa de “Uma Pequena Vida”, retirada de um trabalho fotográfico dos anos 60 sobre orgasmos masculinos. Lançado em 2015, este monumental livro — em tamanho e em impacto cultural — tornou-se inescapável no mercado internacional e lançou Hanya Yanagihara numa carreira fulgurante, apesar de ser encarado como um dos mais difíceis romances a tornar-se num bestseller. Passado em Nova Iorque, segue a história de quatro amigos ao longo das suas vidas de conquistas e falhanços, mas centra-se em particular em Jude, homem particularmente torturado e infeliz, não obstante o sucesso profissional enquanto advogado. A crueldade com que a sua vida é narrada dividiu opiniões, mas não quanto ao facto de esta se ter tornado numa obra de ficção essencial do século XXI.

Uma Pequena Vida
créditos: Editorial Presença

21. O Princípio de Tudo - Uma Nova História da Humanidade

Autora: David Graeber e David Wengrow
Editora: Bertrand

E se a forma como encaramos o processo do qual passámos de primitivas criaturas para criadores de civilizações estiver fundamentalmente errada? De que é falso o pressuposto de que desenvolvimento da agricultura foi o ponto de partida para sistemas de governo centralizados e para a criação daquilo que chamamos “o Estado”? Foi o que o antropólogo (e ativista anarquista) David Graeber e o arqueólogo David Wengrow se propuseram a refletir. Recorrendo às suas especialidades científicas, os dois defendem que os nossos antepassados não eram tão rudimentares quanto a história que aprendemos nos levou a crer, e que viviam consoante diversos sistemas políticos perdidos para o pó dos tempos. Concebido para abalar por completo as fundações da academia e de como encaramos a evolução humana, “O Princípio de Tudo” tem polarizado opiniões, destinando-se a ser discutido nos anos vindouros. É, de resto, o derradeiro legado intelectual de Graeber, que morreu vítima de uma pancreatite aguda em 2020 e não chegou a ver este livro ser publicado.

O Princípio de Tudo - Uma Nova História da Humanidade
créditos: Bertrand Editora

22. Cadernos da Água

Autor: João Reis
Editora: Quetzal

Os fenómenos de seca que assolaram o nosso país este ano têm vindo não só a agravar-se, como a antecipar que o pior ainda estará para vir, dada a ineficácia do combate contra as alterações climáticas. O romancista João Reis — que é também tradutor e foi nomeado para o Prémio Literário Internacional de Dublin — fez disso uma história, em jeito de especulação mas também de aviso, no que poderá ser uma distopia “à portuguesa”. Em “Cadernos da Água”, o deserto tomou conta do país, o Estado já não existe e foi sujeito não só às “Guerras Meridionais da Água”, como a uma pandemia que se estendeu à Europa, ao Médio Oriente e ao norte de África. Poucos restam, já que a escassez de água potável levou a população nacional a um êxodo em massa para um campo de refugiados na Suécia. Seguindo a perspetiva de diversas personagens — mas, sobretudo a de Sara, uma refugiada portuguesa que fugiu com a filha —, este é um livro que, esperemos, terá pouco de profético.

Cadernos da Água
créditos: Quetzal Editores

23. O Rei Sombra

Autora: Maaza Mengiste
Editora: Tinta da China

É dito que a história é escrita pelos vencedores, mas nem estes fazem jus aos seus. Ao longo dos tempos, em que civilizações se ergueram e tombaram, fronteiras foram reajustadas e guerras travaram-se, houve sempre quem fosse apagado dos registos, não obstante os seus feitos. “O Rei-Sombra” é uma singela correção ficcional quanto a este crime histórico. Pela mão da escritora etiópe Maaza Mengiste, este romance aborda a invasão da Itália fascista de Mussolini à Etiópia nos anos 30 do século passado. Mas mais do que relatar a valentia dos soldados que rechaçaram a invasão, a narrativa centra-se em Hirut, recém-órfã que se recusa a ficar de braços cruzados e acaba altamente envolvida no conflito. Parte da shortlist dos Prémios Booker de 2020, este livro é um dos títulos inaugurais de uma coleção de Alberto Manguel para a Tinta da China.

O Rei Sombra
créditos: Tinta da China

24. Cidadã

Autora: Claudia Rankine
Editora: Antígona

Quando Amanda Gorman foi convidada para declamar um dos seus poemas na tomada de posse de Joe Biden, o momento serviu para, entre outras coisas, demonstrar o poder da poesia para denunciar, mas também para sarar feridas causadas por divisões socioeconómicas, culturais e etnoraciais. Uma das obras que mais influenciou a jovem poeta foi “Cidadã — Uma Lírica Americana”, de Claudia Rankine. Misto de imagem com poesia e ensaio em verso, esta obra descreve contundentemente a violência perpetrada às comunidades negras, variando das microagressões linguísticas à morte causada pelas forças policiais. A autora recorre aqui a exemplos tão variados como as críticas a Serena Williams, a cabeçada que Zinedine Zidane deu a Marco Materazzi na final do Mundial2006 ou a própria forma como já foi vítima de discriminação para discorrer sobre representatividade, luto e justiça racial.

Cidadã
créditos: Antígona

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