No seu último livro, editado pela Tinta-da-China um ano e meio após a morte do autor, o professor e jornalista Mário Mesquita (1950-2022) faz uma reflexão sobre a transformação dos ‘media’ a partir da revolução.

Lançado esta semana, numa altura em que se aproximam as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, o investigador Pedro Marques Gomes, que assina a introdução, explica o contexto da sua publicação.

“Este livro que agora se edita é uma obra que o seu autor desejava ter publicado em vida, mas, devido a hesitações e ponderações várias, isso acabou por não acontecer. Com a sua publicação, cumpre-se, assim, uma vontade sucessivamente adiada, transformando-se, ao mesmo tempo, numa homenagem que lhe é devida e numa demonstração da validade do seu pensamento e do seu trabalho de investigador”.

“25 de Abril: A transformação nos ‘media’” revela a necessidade que havia de mostrar o que tinha de ser mostrado e “prova que o legado de Mário Mesquita se mantém vivo”, afirma o investigador, defendendo que o jornalista escreveu foi pioneiro na altura, sendo simultaneamente ousado, rigoroso, fundamentado, literário, histórico, académico e jornalístico.

Mas demonstra também - nas palavras de Pedro Marques Gomes – que as hipóteses levantadas pelo autor, a análise que faz das relações entre acontecimentos, figuras e contextos, as reflexões criticas que formula a partir do cruzamento de diversas fontes que consultou, a forma como pensa e discute o jornalismo “num momento fundador e de viragem como foi o de 1974-1975, mantêm uma surpreendente e admirável atualidade”.

“É o melhor e mais completo retrato até hoje feito do papel que os ‘media’ e o jornalismo tiveram durante o período revolucionário”, considera o investigador.

O livro debruça-se, assim, sobre aquele que era um dos temas preferidos de Mário Mesquita e sobre um dos períodos mais importantes da sua vida: quando viveu ativamente dividido entre o jornalismo e a política, na dupla condição de jornalista e militante.

Nesta sua obra, Mário Mesquita resolve as várias questões que aqueles tempos lhe suscitaram, e explica os traços que fizeram dos ‘media’ atores absolutamente decisivos no processo revolucionário, e como esse processo foi decisivo para a transformação dos ‘media’.

Como escreve Mário Mesquita, “ao longo dos anos de 1974 e 1975, a comunicação social foi, simultaneamente, o lugar de afirmação do poder em construção e de luta pela definição do futuro sistema político, económico e social”, pelo que “algumas forças políticas julgaram que seria possível legitimarem-se através do controlo dos ‘media’ e da ligação às bases populares, dispensando os mecanismos da democracia representativa”.

A abrir o livro, uma frase do escritor norte-americano John Steinbeck faz uma declaração de amor ao jornalismo e, ao mesmo tempo, mostra ao leitor ao que vai.

“O que posso eu dizer acerca do jornalismo? Tem a maior virtude e a maior maldade. É a primeira coisa que os ditadores controlam. É a mãe da literatura e o responsável por muita porcaria. Em muitos casos, é a única história que temos e no entanto serve de instrumento para as piores pessoas. Mas durante um longo período de tempo, e por ser o produto de tantas pessoas, é talvez a coisa mais pura de que dispomos. A honestidade tem formas de se impor, mesmo quando não é essa a intenção”.

Segundo Pedro Marques Gomes, este é também um livro “visual e sonoro”, que, ao mostrar o que se passou nos ‘media’ naquela época, revela as pessoas (jornalistas, tipógrafos, gráficos, militares, políticos, artistas), os seus rostos (de alegria, felicidade, fúria, energia, cansaço, nunca de indiferença), os seus gestos (os abraços, os punhos erguidos, as saudações), as frases de ordem (em manifestações, protestos, murais, comunicados, ocupações) e os sons (dos gritos, dos clamores, das queixas, das gargalhadas, das canções).

O livro está organizado em três partes: “Os ‘media’ portugueses”, “A receção francófona” e “A comemoração”.

A primeira parte faz uma caracterização geral dos media em 1974-1975, apresentando múltiplos exemplos, informações, episódios e detalhes de acontecimentos significativos, como o “caso República”.

A segunda parte apresenta uma visão internacional, através da análise da cobertura jornalística da revolução feita por meios de comunicação social estrangeiros.

Na terceira e última parte, nos 30 anos do 25 de Abril, Mário Mesquita escolheu estudar aquele que era, na época, o diário com maior difusão nacional (Jornal de Notícias), procurando compreender como foram comemorados os acontecimentos que analisa na primeira parte do livro.

Composto por alguns textos inéditos e outros já publicados ou apresentados em ocasiões públicas, esta é uma obra difícil de caracterizar quanto ao género, mas é “fundamental para a compreensão dos ‘media’ e do jornalismo na revolução, onde podemos situar a génese do jornalismo moderno português, sendo também um contributo essencial para um melhor entendimento da própria revolução”, diz Pedro Marques Gomes.

Os capítulos que compõem este livro foram escritos por Mário Mesquita em momentos diferentes e por motivos diversos (explicados no fim da obra), tendo sido reunidos mais tarde, segundo uma coerência temática e complementaridade dos textos, sempre com a ideia de os publicar num único volume.

Inicialmente, pensou em publicá-lo por ocasião dos 30 anos do 25 de Abril, mas acabou por ficar na gaveta, ultrapassado por outros projetos do autor.

Posteriormente, Mário Mesquita planeou publicá-lo quando passassem 50 anos sobre a Revolução dos Cravos, um dos seus projetos prioritários, mas a morte inesperada impediu-o de concretizar o sonho, pelo que a Tinta-da-China publicou o livro tal como o autor o deixou.

A obra termina com uma nota biográfica da autoria da investigadora Cláudia Henriques, que também colabora nesta edição.

Açoriano radicado em Lisboa desde os 17 anos, Mário Mesquita ingressou aos 21 anos nos quadros do jornal República, aos 25 era diretor-adjunto e, aos 28, diretor do Diário de Notícias, cargo que exerceu durante oito anos.

Foi também diretor do Diário de Lisboa (1989-1990) e colunista do Público, Diário de Notícias e Jornal de Notícias.

Aos 19 anos aderiu à Ação Socialista Portuguesa e, aos 23, foi membro fundador do Partido Socialista. Após o 25 de Abril de 1974, foi eleito deputado à Assembleia Constituinte e à Assembleia da República, tendo sido um dos principais responsáveis pela redação do articulado sobre a Comunicação Social.

Em 1978, demitiu-se do partido e afastou-se da política profissional.

Foi administrador executivo da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e vice-presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social. Publicou mais de dez livros sobre jornalismo, comunicação e história contemporânea.

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