créditos: EBU / ANDRES PUTTING

A "saudade" que já tínhamos da Eurovisão

O 66.º Festival Eurovisão da Canção está aí. Com palco montado em Turim, cidade italiana (na sequência da vitória dos Måneskin no ano passado, em Roterdão, com a canção ‘Zitti e Buoni’), a concurso estarão 40 países. As duas semifinais estão marcadas para esta terça e quinta-feira, 10 e 12 de maio, e a final para sábado, dia 14.

Tanto a final como as semifinais do evento serão apresentadas pelos cantores MIKA (que apesar de ter nacionalidade britânica, vive há vários anos em Itália) e Laura Pausini, e pelo apresentador de televisão italiano Alessandro Cattelan.

Portugal será representado por Maro, com "Saudade, saudade", que em março venceu o Festival da Canção. A artista portuguesa, que se fará acompanhar por um coro de cinco vozes femininas, aturará na primeira semifinal do concurso (já esta noite). A gala terá transmissão na RTP 1, pelas 20h00 (o mesmo acontece com a grande final, sendo que a segunda semifinal, como é hábito quando não há artistas nacionais, será transmitida em diferido pelas 21h30).

Na primeira semifinal do Festival da Canção, Maro apresentou-se sozinha em palco, mas, na final, decidiu cantar acompanhada por um coro composto por outras cantoras. A Turim leva consigo Beatriz Fonseca, Beatriz Pessoa, Carolina Leite, Diana Castro e Milhanas (nomes que passaram por esta ou por anteriores edições do Festival da Canção).

“Saudade, saudade” é uma homenagem ao avô de Maro, que morreu recentemente. No vídeo de apresentação da música, a cantora disse que escreveu o tema para o relembrar e, por ser um tema tão pessoal, tinha de ser mesmo ela a cantá-lo.

Maro é o nome artístico de Mariana Secca, de Lisboa, que cresceu num ambiente familiar marcado pela música. Começou a estudar piano aos quatro anos, fez o conservatório e estudou na escola de Berklee, em Boston, nos Estados Unidos. Em 2018 editou o primeiro álbum, homónimo.

Em pleno confinamento, Maro começou a partilhar vídeos, no YouTube e nas redes sociais, em que convidava outros artistas para interpretarem com ela temas em colaborações remotas. Numa das atuações, Maro surgiu a partilhar palco (ou ecrã) com Eric Clapton para interpretaram “Tears in Heaven”. As sessões, uma centena, ficaram conhecidas pelo título "It's Me, Maro" e podem ser revistas aqui. Além de Clapton, por lá passaram outros nomes, tais como Salvador Sobral, Rui Veloso, o brasileiro Ivan Lins ou a catalã Silvia Perez Cruz.

Maro viveu em Los Angeles, na Califórnia. Lá foi agenciada pelo artista norte-americano Quincy Jones (sim, esse mesmo! o produtor musical de “Thriller”, de Michael Jackson) e fez parte da banda do britânico Jacob Collier (que atua em Portugal no final de julho). Depois, mudou-se para o Brasil e passou por Paris antes de regressar a Portugal.

Albânia, Letónia, Lituânia, Suíça, Eslovénia, Ucrânia, Bulgária, Países Baixos, Moldova, Croácia, Dinamarca, Áustria, Islândia, Grécia, Noruega e Arménia são os outros países a concurso na primeira semifinal (desta terça, recorde-se). De acordo com informação presente no site da Eurovisão, Portugal será responsável pela 10.ª atuação da noite.

A canção portuguesa é uma das favoritas, com a passagem à final praticamente garantida (assim o dizem as casas de apostas), mas não é a única. A cantiga é uma arma?

Ucrânia, a favorita à vitória?

A Ucrânia saltou para a liderança das casas de apostas dois dias após a invasão da Rússia, a 24 de fevereiro. O favoritismo, no entanto, não se encerra no contexto em que o país vive atualmente, já que o tema estava no top 5  antes do início da guerra.

A Ucrânia será representada pelos Kalush Orchestra, com a música “Stefania”, em substituição de Alina Pash, a vencedora do concurso para escolher o representante do país na Eurovisão. A 19 de fevereiro, a delegação ucraniana anunciou que Alina Pash já não seria a representante do país, depois de ter havido protestos devido ao facto de a cantora ter atuado na Crimeia em 2015, um ano depois de a Rússia ter ocupado aquela região.

A Rússia, essa, irá ficar fora desta edição. Essa decisão foi tomada pela EBU (organismo organizador da Eurovisão) logo a 25 de fevereiro, um dia depois da invasão da Ucrânia.

Em comunicado, a EBU (União Europeia de Radiodifusão, em português) refere que a decisão de excluir a Rússia da edição deste “reflete a preocupação de, à luz da crise sem precedentes na Ucrânia, a inclusão de um concorrente russo no concurso deste ano poder trazer descrédito à competição”.

No comunicado a EBU partilha que, antes de tomar a decisão, realizou uma “ampla consulta” dos seus membros, entre os quais figura a RTP. À data da exclusão, a Rússia ainda não tinha escolhido quem iria representar o país.

“A EBU é uma organização apolítica de emissoras comprometidas com a defesa dos valores do serviço público. Continuamos dedicados a proteger os valores de uma competição cultural, que promove o intercâmbio e a compreensão internacional, aproxima públicos, celebra a diversidade através da música e une a Europa num palco”, lê-se ainda no comunicado.

Recorde-se que em 2017, a Rússia recusou participar no concurso realizado em Kiev, depois de os serviços de segurança daquele país terem impedido a entrada da cantora Yulia Samoylova por esta ter visitado a Crimeia após a anexação russa.

Voltando aos Kalush Orchestra, quem são os favoritos à vitória? São um grupo de folk-rap ucraniano (se segue a Eurovisão, sabe o país costuma levar variantes musicais da sua folk; ainda está bem presente o tema que levou à edição do ano passado, "Shum", dos Go_A). Para Turim partiram cinco dos elementos originais e o substituto de outro, que ficou na Ucrânia a lutar (de acordo com o britânico The Guardian). A ida só foi possível graças a uma autorização especial do governo, uma vez que os homens com mais de 18 anos não podem sair do país, que declarou lei marcial depois da invasão.

Stefania, título do tema-já-hino é o nome da mãe do vocalista. A canção foi escrita muito antes da guerra, e depois de tudo ter começado "assumiu um significado adicional e muitas pessoas começaram a vê-la como a mãe, a Ucrânia, no sentido de país. Tornou-se realmente próxima do coração de muitas pessoas na Ucrânia e a sua relevância aumentou”, assumiu Oleh Psiuk numa conferência de imprensa, já em Turim.

"Stefania" concorrerá na primeira semifinal, a mesma em que Portugal participa, e é a mais vista no YouTube entre as 35 participantes no concurso.

A Ucrânia ganhou a Eurovisão duas vezes, em 2004 com "Wild Dances" de Ruslana, e em 2016 com a canção "1944" de Jamala, um tema sobre a deportação dos Tártaros da Crimeia, na década de 1940, composta após a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014. Mesmo que os Kalush Orchestra consigam a votação do público, como tudo indica que acontecerá, a incerteza estará do lado da votação dos júris nacionais (ambas têm igual peso no resultado final).

Voltará a Ucrânia a vencer a Eurovisão?

Spotify diz que não

Depois de no ano passado antecipar a vitória dos Måneskin, o Spotify voltou a analisar os dados da plataforma para prever o vencedor desta edição. As três músicas mais ouvidas na plataforma em 2022 são “Brividi” (Itália), “Hold me Closer” (Suécia) e “De Diepte” (Holanda).

Em caso da vitória da Itália, o país junta-se ao grupo daqueles que repetiram o feito em dois anos consecutivos. Nesse panteão por agora apenas está escrito o nome de quatro países  —Espanha, Luxemburgo, Israel e Irlanda —, com a Irlanda a conseguir vencer três vezes entre 1992 e 1994.

De acordo com a plataforma de streaming, a música que vai representar Portugal teve um crescimento exponencial desde o anúncio da vitória no Festival da Canção, tendo crescido mais de 1000% e já ultrapassou os 2 milhões de streams. Segundo dados do Spotify sobre as músicas que participam na Eurovisão com mais streams, “Saudade, saudade” encontra-se em 12.º lugar.

As 15 músicas mais ouvidas a nível mundial na edição deste ano da Eurovisão:

  1. Itália - Brividi de BLANCO, Mahmood
  2. Suécia - Hold Me Closer de Cornelia Jakobs
  3. Holanda - De Diepte de S10
  4. Espanha - SloMo de Chanel
  5. Noruega - Give That Wolf A Banana de Subwoolfer
  6. Ucrânia - Stefania (Kalush Orchestra) de KALUSH
  7. Aústria - Halo (feat. PIA MARIA) deLUM!, PIA MARIA
  8. Finlândia - Jezebel de The Rasmus
  9. Reino Unido - SPACE MAN de Sam Ryder
  10. Polónia - River de Ochman
  11. Letónia - Eat Your Salad de Citi Zēni
  12. Portugal - saudade, saudade de Maro
  13. França - Fulenn de Ahez, Alvan
  14. Bélgica - Miss You de Jérémie Makiese
  15. República Checa - Lights Off de We Are Domi
créditos: EBU / CORINNE CUMMING

Onde é que já ouvi isto?

Pode não ser fã, daqueles que sabem sem consulta em que lugar ficou determinado país em certo ano, mas dar-se o caso de ir ver as galas só por curiosidade — ou para ver quantos pontos nuestros hermanos nos dão. Se é esse o seu caso, poderá perguntar-se "onde é que já ouvi isto?".

Não estranhe se for domado por essa sensação quando os representantes da Finlândia ou de Itália subirem a palco. Se os primeiros trazem um peso-pesado do rock finlandês, os segundos voltam a concorrer com um dos favoritos à vitória em 2019 (edição sediada em Israel).

Os nórdicos "resgataram" os autores de "In the Shadows", tema que no início do milénio entupiu as rádios nacionais e internacionais. Os The Rasmus são os representantes da Finlândia na edição deste ano e a Turim levam "Jezebel", tema bem colocado para passar à final mas sem esperanças à vitória (está em 14.º na geral das casas de apostas).

Já os italianos levam "Brividi", um tema a duas vozes. Uma delas é de Mahmood (a outra é de BLANCO), que três anos depois "joga em casa" e volta a colocar Itália como favorita à vitória. Já o tinha feito em 2019 com "Soldi", ano em que ficou em segundo lugar da edição com palco em Telavive (e ganha pelo holandês Duncan Laurence).

Poderá ainda reconhecer do TikTok (tem mais de 12 milhões de seguidores) o representante do Reino Unido. Sam Ryder tem como missão garantir, pelo menos, um ponto ao país de Sua Majestade. O britânico está em terceiro lugar na casa de apostas, com "Space Man", mas qualquer resultado melhor do que o fim da tabela (o que tem acontecido nas últimas edições) é uma vitória.

O Reino Unido como a Itália, França, Alemanha e Espanha, os chamados “Big Five”, têm lugar assegurado na final, uma vez que são os países com maior contribuição financeira para o evento.

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