Livro: "Americanah"

Autora: Chimamanda Ngozi Adichie

Convidado: Kalaf Epalanga, músico, cronista e escritor

Jornalista: Rute Sousa Vasco, publisher do SAPO24

Moderadora: Elisa Baltazar, anfitriã do "É Desta Que Leio Isto"

Data: 22 de outubro de 2020

Ouça aqui a conversa sobre o livro "Americanah".

Se não teve oportunidade de estar presente na sessão que decorreu no dia 22 de outubro, pelas 21 horas, serve de resumo este artigo para que possa perceber melhor esta obra. À conversa com os membros do "É Desta Que Leio Isto" esteve o músico, escritor e cronista Kalaf Epalanga, num debate moderado pela publisher do SAPO 24 Rute Sousa Vasco e, claro, pela anfitriã do clube de leitura, Elisa Baltazar.

A conversa focou-se no racismo, na emigração, na supremacia, no sentimento de pertença e nas crises de identidade que sentem todas aqueles que se deslocam entre realidades muito distintas. Mas girou também em torno do amor, da depressão e das experiências que qualquer ser humano pode viver quando confrontado com situações marcantes para a sua existência, independentemente da sua cor de pele.

Sobre a autora – Chimamanda Ngozi Adichie:

  • Nasceu em 1977, em Enugu, na Nigéria, país onde decorre parte da ação de Americanah
  • Aos 19 anos foi viver para os Estados Unidos da América.
  • Estudou em várias universidades norte-americanas, incluindo Harvard.
  • Foi oradora nas famosas TEDTalks. A sua palestra mais conhecida? "We Should All Be Feminists" [Todos devíamos ser feministas".]
  • Para além de "Americanah", escreveu mais oito livros.
  • O seu livro "Meio Sol Amarelo" foi adaptado para filme.
  • Em 2013 venceu o National Books Critics Cricle Award, precisamente com o livro "Americanah".

"Correções" - O próximo livro que nos ajuda a entender a América

Durante este mês de outubro, no clube de leitura "É Desta Que Leio Isto" estamos a discutir livros que nos ajudam a entender a América. Em parceria com a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, vamos ler e conversar sobre quatro livros que nos ajudam a perceber um país que se prepara para uma das mais importantes eleições da sua história. E vamos também oferecer livros a quem participar - no total, teremos 500 livros para distribuir por quem participar nas sessões (saiba como aqui).

Para participar nos próximos encontros inscreva-se através dos formulários listados abaixo:

29 de outubro, 21h: Correções, de Jonathan Franzen (inscreva-se através deste link)

2 de novembro, 21h: Viagem ao Sonho Americano, de Isabel Lucas (inscreva-se através deste link)

Sobre o livro "Americanah":

  • Conta a história do amor entre dois adolescentes nigerianos que optaram por deixar o seu país devido à ditadura militar
  • Relata a vida desses jovens nos países para onde acabam por se mudar - Estados Unidos da América e Reino Unido – num cenário onde se veem obrigados a começar do zero.
  • Fala sobre racismo de uma forma muito próxima e direta, com referências pop muito familiares.
  • Aborda a hierarquia racial americana entre a própria comunidade africana (afro-americanos e africanos).
  • Toca também em questões transversais como: o sentimento de pertença, a identidade, a solidão, a mudança, os problemas de cariz psicológico.

Um romance "condescendente"?

  • Kalaf Epalanga não quer utilizar exatamente esta palavra, mas considera que Chimamanda escreveu "para um público que não a conhecia e sobre a "perspetiva de alguém que tem leitores brancos".
  • O escritor realça o facto de o livro ter uma abordagem "bastante pop" e dá o exemplo do facto de a personagem principal escrever num blog.

"A Europa encara muito mal o seu passado colonial"

  • "Também há hipocrisia portuguesa, mas a americana é gritante": é assim que Kalaf Epalanga analisa o modo como os americanos olham para a história.
  • O músico diz que "existe um ressentimento nos ossos, na medula" dos Estados Unidos, que impede o país "de olhar para dentro".
  • No entanto, afirma também que "a Europa encara muito mal o seu passado colonial".
  • Kalaf vai mais longe e dá até o exemplo da Alemanha. Conta que quando fala com alemães sobre a Conferência de Berlim (responsável em 1885 pela divisão territorial de África), isso parece ser "um tema abstrato", apesar de "muitos dos problemas da África moderna terem começado ali".

"A raça não é uma questão de biologia, é uma questão de sociologia"

  • Esta é uma das frases do livro que Kalaf Epalanga fez questão de citar nesta sessão do clube, lembrando que "ninguém despreza alguém na sua génese pela cor da pele".
  • O escritor afirma que há soluções para integrar as comunidades africanas na América, seja pela educação (uma vez que os Estados Unidos têm boas faculdades) ou pelo investimento na "literacia económica" ("criação de bancos com capital negro"). No entanto, considera que muitas vezes essas soluções são "travadas pela supremacia branca".

"Estranho é dizer que o país não está preparado para o Mickey ser presidente"

  • O músico cita uma das frases do livro de Chimamanda Ngozi Adichie, quando é abordada a questão de se os Estados Unidos estariam ou não prontos para ter um presidente negro, já que para si a pergunta é "absurda".
  • Para Kalaf, a eleição de Donald Trump não é consequência da falta de preparação do país para ter um presidente negro (Barack Obama), mas sim uma consequência "da direita estar a ganhar terreno".
  • O escritor considera que Donald Trump "pegou nas fobias e nos medos todos da América" e, por isso não reduz as eleição do atual presidente "à raça", mas realça, isso sim, "a supremacia branca" que, diz, "começa a ganhar terreno".
  • Kalaf Epalanga relembra ainda que quando Donald Trump concorreu estava a fazê-lo contra uma mulher. "Estava muito claro que a América patriarcal machista é que estava ali a concorrer. E claro que essa América patriarcal machista é também a América racista e antissemita".

"Há muitos que esquecem o seu lugar de origem para sobreviver"

  • Kalaf considera que uma das partes mais interessantes do livro "Americanah" é o "retorno", o voltar às origens.
  • Para o escritor, a narrativa gira em torno das "expectativas, medos e sonhos" das personagens que deixaram uma "África que não espera por ninguém", que evoluiu de uma forma que "para o bem ou para o mal" causou "um certo conflito e uma certa dor". Por isso, "todos os africanos têm um sentido de sobrevivência muito aguçado".
  • No entanto, o músico afirma que esse é um sentimento transversal. Kalaf Epalanga faz a mesma análise quando olha, por exemplo, para a comunidade portuguesa instalada noutros locais do mundo.

"Não há revoluções pacíficas"

  • Na ótica de Kalaf Epalanga é difícil que um certo grupo social se faça ouvir de outra forma, quando questionado sobre a questão dos motins realizados nas ruas dos Estados Unidos, pelo movimento Black Lives Matter, contra a violência policial sobre os negros.
  • Para o músico, o que está a acontecer nas ruas da América "não é gratuito".
  • O escritor compara os Estados Unidos a Portugal e diz que "o 25 de Abril diz muito sobre o nosso país, para bem e para mal" e fala de uma necessidade de "responsabilização".
  • Kalaf considera ainda que Portugal "lidou muito mal" com o desmantelamento da PIDE e olha para o crescimento do partido CHEGA como uma das consequências disso, pela forma como o partido "domina o tempo de antena de um país democrático".

"Não dá para discutir racismo sem discutir machismo, supremacia e outras questões que nos oprimem"

  • Para o convidado desta sessão, o debate em torno do racismo "é meritório e tem valor", mas não pode ser descolado de todas as questões que, de certa forma, podem oprimir.
  • Segundo Kalaf Epalanga, "o livro também desafia o nosso machismo" e admite que houve vários momentos em que, enquanto lia o livro, teve a sensação de que a protagonista se comportava "como um homem". Uma visão que, admitiu desde logo, pode ser de certa forma machista.
  • O músico relembra que o livro retrata a sexualidade da personagem e a forma como esta lida com as suas relações amorosas e "objetifica os homens, quase como os homens objetificam as mulheres".

Outros livros/autores referidos durante a conversa:

Kalaf Epalanga olha os mitos da história: "Muito boa gente decidiu sentar-se e dizer que um grupo era superior a outro"

"A máquina racial foi construída. Muitos dos nossos pais filósofos, dos nossos iluministas criaram isso. Muito boa gente decidiu um dia sentar-se e dizer que um grupo era superior ao outro, porque tinha um crânio maior, porque tinha um nariz mais fino, porque tinha uns lábios de certa forma. Isso foi escrito e agora o que a gente está aqui a tentar fazer é dizer 'ok, tudo bem, foi escrito, mas essa pessoa estava errada'! (…) Essa vontade, esse desejo de desmontar o racismo, leva-nos essencialmente à questão de que temos de desmontar aquilo que é o pensamento europeu dos últimos três séculos. Porque há um pensamento científico que defende o racismo e foi perpetuado, e houve pessoas que chegaram ao ponto de mudar os textos bíblicos. (…) Nós estamos agora aqui a debater fake news. Mas esse conceito não é novo. Eram grupos em Paris naqueles salões que vinham com teorias e não havia cabimento nem justificação científica que colasse aquilo. Mas de repente alguém achou: 'é o cânone e é assim que a gente vai definir como é que vai ser a nossa sociedade daqui para a frente".


O próximo encontro em que vamos conversar sobre livros que nos ajudam a entender a América é já no próximo dia 29 de outubro, pelas 21h, e estará em destaque a obra "Correções", de Jonathan Franzen. Inscreva-se através deste link, participe na conversa e receba livros em casa, cortesia da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.

O clube de leitura "É Desta Que Leio Isto" conta já com quase 700 membros que todas as semanas partilham ideias sobre o tema que os une: a literatura e o universo dos livros. Fique a par de todas as novidades e inscreva-se no grupo através deste link.

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