XIX. — De novo em Belgrave Square, a tempo da coroação de Lilibet

Londres, 1950

Com pouco festejo, os Ulrich regressam a Belgrave Square, numa segunda nomeação de Ruy como embaixador, porventura na reparação de um acto que pesava na consciência de Salazar, estando já ele mesmo desiludido com a impertinência do ex-embaixador. Armindo Monteiro foi exonerado e, no regresso a Lisboa, ostracizado pelos cães de fila do chefe do Governo, o que não lhe importou nada, diz-se, dedicando-se às empresas e à universidade.

Muito mudou no Império Britânico e na relação do país com Portugal. O conflito arruinou a Inglaterra. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o Reino Unido fortaleceu os laços militares com os Estados Unidos e França, e aproximou-se da Alemanha, o que deu frutos no Tratado do Atlântico Norte. As colónias britânicas têm vindo a conquistar a sua independência, o Império desfaz-se. «Daremos o nosso melhor, em breve o meu marido atingirá a idade máxima para o cargo, a Missão não durará mais do que três anos», explica Veva amiúde, cansada das demoradas recepções.

"É Desta Que Leio Isto"

"É Desta Que Leio Isto" é um grupo de leitura promovido pela MadreMedia e por Elisa Baltazar, co-fundadora do projeto de escrita "O Primeiro Capítulo”.

Lançado em maio de 2020, foi criado com o propósito de incentivar à leitura e à discussão à volta dos livros. Já folheámos as páginas de livros de autores como Luís Sepúlveda, George Orwell, José Saramago, Dulce Maria Cardoso, Harper Lee, Valter Hugo Mãe, Gabriel García Marquez, Vladimir Nabokov, Afonso Reis Cabral, Philip Roth, Chimamanda Ngozi Adichie, Jonathan Franzen, Isabel Lucas, Maria do Rosário Pedreira, Milan Kundera, Joan Didion, Eça de Queiroz e Patricia Highsmith, sempre com a presença de convidados especiais que nos ajudam à discussão, interpretação, troca de ideias e, sobretudo, proporcionam boas conversas.

Para além dos encontros mensais para discussão de obras literárias, o clube conta com um grupo no Facebook, com mais de 1300 participantes, que visa fomentar a troca de ideias à volta dos livros, dos seus autores e da escrita e histórias que nos apaixonam.

Depois da Segunda Guerra Mundial, os conservadores de Churchill perderam as eleições para os trabalhistas, liderados por Clement Attlee, que se tornou primeiro-ministro. Apurados Amostra Não Comercializável os resultados das eleições de 1951, a vitória é dos conservadores, por ampla maioria. Churchill regressará ao cargo de primeiro-ministro, aos 76 anos. Por tantas razões, é uma figura rara e admirada, como político, escritor e jornalista.

O ritmo da vida na embaixada continua intenso, mas Madame Ulrich aprendeu a defender-se da exaustão, participa apenas nas cerimónias importantes, sem deixar de cumprir o protocolo, e restringe os convites que aceita. Rigoletto, o schnauzer preto e branco dos Ulrich, é a nova mascote da residência. É inteligente e elegante, apesar da Canine Insurance Association ter declarado no seu registo que não é um cão de exposições, «a menos que melhore a sua boca», o que faz rir Veva.

Maria acompanha-os, uma vez mais, afastando-se da Juventude Independente Católica Feminina, tendo em vista preparar em Londres a criação de uma escola portuguesa de educadoras de infância. Tem-se aproximado das escolas Montessori, que partem do método da psiquiatra, opondo-se aos métodos tradicionais, que não respeitam as necessidades da criança. Estuda história da educação e está a ser influenciada pelas teorias de Rousseau, Froebel, Pestalozzi, Decroly, Claparède e Freinet. Veva encontra-a tão dedicada que nem ousa sugerir-lhe maior socialização. Filipe, o sobrinho que nasceu 17 anos depois de Maria, casou-se com Simone Mura, nascida em Rabat. «Não tardará a ter filhos, os netos de João Vicente», sorri Veva.

Espreitando sempre a possibilidade de se afastar da embaixada, Madame Ulrich viaja pela Alemanha e, semanas depois, por Itália. «Atravessei grande parte da Alemanha, ainda desmantelada e em ruínas, vendo resultados da febre de reconstrução sintética, acelerada, feíssima, mas estupenda, que atesta o vigor indomável destes futuros patrões de nós todos», contará depois. Em Capri, ressente-se de um calor diabólico. De Ischia, envia uma fotografia ao amigo António Nicolau Brito ato, com quem partilha a paixão pela literatura. António, industrial do cimento e homem viajado, construiu uma importante biblioteca de obras dos séculos XIX e XX (Hagiografia, Psicologia, Literatura, História, Biografia, sobretudo). Jovial, de bermudas brancas e blusa de riscas, com Rigoletto a seu lado, escreve-lhe Veva: «Enfim, as minhas viagens devem parecer superficiais aos olhos de quem acaba de chegar do Extremo Oriente.» De Lisboa, Teresa dá-lhe notícias de Margarida, que vive sem recursos depois de ter tão mal administrado o que herdou.

Veva
créditos: Oficina do Livro

Livro: Veva

Autor: Joana Leitão de Barros

Editora: Oficina do Livro

Preço: 14,85 €

Ainda assim, vive rodeada de cinco cães que salvou da carroça e acode às necessidades da vizinhança mais pobre, recorrendo a entidades oficiais, encontrando trabalho e casas para os mais miseráveis. Escreve-lhe Teresa: «A mana mantém a inconsciência que conhecemos, e que, como ela diz, faz com não possa ficar triste mais do que cinco minutos.»

No regresso à embaixada, a melancólica Veva tem à sua espera uma grande corbeille de flores, acompanhada por dois livros, sem remetente. «Uma galanteria discreta, de bom gosto e espiritualidade, uma destas inspirações muito raras que só podem vir de um homem como ele, solitário-amador.» Agradece prontamente a António: «Sou infinitamente sensível a esta característica de fidelidade na amizade, no afastamento que se interpôs entre nós. Espero conservar a chama da lâmpada voltaica que espantosamente se acendeu no altar da nossa mútua simpatia.» As cartas de António são encantadoras e distantes como a sua personalidade insaisissable, reconhece.

«Maria e Ruy apreciam-no tanto como eu», repara Veva, renovada naquelas flores. Maria leva a mão à franja, a parte domada do cabelo desalinhado. «A mãe continua a precisar de estar rodeada de admiradores para se divertir», pensa ela. A comunicação com Salazar prossegue desassombrada, mesmo entre embaraços, e sem que nunca tenha acedido a jantar em sua casa, Veva não o tem num pedestal nem o venera.

Mas de cima da credência da sala que antecede o salão, ao lado da fotografia de D. Manuel, os Ulrich nunca retiraram a fotografia dedicada do chefe do governo português, com a data do ano da primeira nomeação de Ruy. É nessa condição (que a lealdade e honra não se podem deixar empalidecer) que Veva se dirige novamente ao chefe de Estado, em carta que marca como confidencial. Alerta-o para o que supõe ser uma ameaça, associada ao antigo primeiro-ministro de Inglaterra: «Está já em Portugal Lloyd George, personagem político já sem grande cotação na sua terra, mas ainda com bastante prestígio, pelo menos intelectual, para ser ouvido com acatamento em qualquer assunto em que se pronuncie. Esse homem, um pouco truculento e versátil, assegurou ao embaixador de Portugal que desejava, nas suas memórias, referir-se à colaboração portuguesa na guerra, que ele considera injustamente desconhecida.

Mas... o que irá ele dizer? Para que vértice fará ele girar o cata-vento dos seus comentários sobre nós?», adianta Madame Ulrich, esperando que a pertinência da sua informação seja valorizada. O fim da segunda missão em Londres aproxima-se e não se desenham rasgados horizontes na carreira do embaixador. Sem que Ruy saiba, Veva faz algumas démarches junto de amigos com poder. Começa por Calouste Gulbenkian, supondo que a experiência de Ruy possa ser interessante na administração de uma petrolífera. O empresário arménio responde-lhe prontamente, uma carta extensa e amigável, confessando que não encontra lugar para Ruy e, educadamente, diz-se interessado em conseguir-lhe uma colocação adequada.

Entretanto, os Ulrich são distinguidos com um sinal de apreço pela Casa Real inglesa, que mostra a sua vontade de ver prorrogada a missão, de maneira a que os Ulrich participem na coroação de Isabel II. A cerimónia vai decorrer a 2 de Junho de 1953, respeitando o luto de Isabel pelo pai, o rei Jorge VI.

«Quem diria que assistiria à coroação da pequena Lilibet, que ainda hoje se lembra do nosso leopardo», escreve Veva à filha. Ruy, na qualidade de chefe de Missão, receberá a delegação portuguesa à cerimónia, chefiada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Cunha.

A coroação é histórica e decorre com muito sentimento. Cento e vinte e nove países estiveram representados, na multidão de oito mil convidados que assiste, durante três horas, aos vários «actos»: reconhecimento, juramento, unção, investidura, entronização e homenagem. Isabel, uma jovem de 25 anos, levava o manto real às costas, a coroa na cabeça, o ceptro na mão direita e o orbe, uma jóia redonda de grande tamanho, na mão esquerda. Usava um vestido do seu costureiro preferido, o britânico Norman Hartnell, feito de cetim branco, em que tinham sido bordados os símbolos da Inglaterra e da Commonwealth, a fio de ouro e prata. O anel da coroação foi-lhe colocado no quarto dedo da mão direita – a jóia é usada desde 1831, e apenas os dedos finos da rainha Victoria a impediram de continuar a tradição. Por duas horas seguidas foi saudada e aplaudida pelo povo. «Uma rapariga na liderança», repara a embaixatriz.

Veva deixa-se fotografar, trajada para a cerimónia, de tiara no cabelo e vestido caicai em tafetá ricamente bordado, com duas falsas mangas de vison, preso ao ombro por uma alça. «Mais valia ter-me escusado à fotografia, pareço um fantasma de mim mesma, embonecada e decrépita», comenta, junto de Maria, numa agrura que desencoraja a contra-argumentação da filha.

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