Para “começar” o fim, ou melhor o princípio. “Começar” é a última obra de encomenda de Almada Negreiros, executada em 1968, para a inauguração edifício sede da Fundação Calouste Gulbenkian, em 1969.

É o painel em pedra pelo qual sempre passamos cada vez que vamos a uma exposição, concerto, conferência, apresentação de um livro ou ficamos só pelo no hall. E é exatamente aqui que começa esta exposição que mostra as várias vertentes que o artista incorporou ao longo da vida e que também o definem na sua diversidade como um modernista preocupado com o seu tempo. Almada Negreiros o pintor, foi ilustrador, bailarino, coreógrafo, romancista, poeta e conferencista, sem deixar uma coisa pela outra e centrou-se na unidade da sua obra. 

Até ao próximo dia 5 de junho, a exposição da Gulbenkian começa logo que se passam as portas de vidro, antes de entrar na sala de exposições. As mais de 400 +1 peças reunidas de várias origens, muitas delas do espólio da fundação, mas com algumas estreias, estendem-se até ao piso -1.

Somos recebidos então pelo painel “Começar”, obra derradeira em que Negreiros sintetiza o seu trabalho de décadas sobre a geometria com o estudo exaustivo de anos a fio sobre o quadrado e a circunferência em busca do “cânon” como o próprio chamou, onde se sintetiza o que é universal e transversal a toda a história da arte. A obsessão pela geometria conduziu Almada ao caminho da abstração. E será isto que se pode ver no primeiro núcleo da exposição com o titulo de Ver, logo seguido do núcleo “Os Meus Olhos Não São Meus, São Os Olhos Do Nosso Século!”,  assim mesmo com ponto de exclamação. Claro que tinha que ter ponto de exclamação!, esse ponto são os olhos grandes do Almada que podemos ver nos vários auto-retratos que são também retratos do seu tempo. 

“Uma Maneira de Ser Moderno” é o título da exposição organizada em oito núcleos temáticos de uma exposição antológica, que (felizmente) não é cronológica, nem poderia sê-lo, Almada era um futurista, o futuro não é cronológico e Negreiros é intemporal.

Mariana Pinto dos Santos, curadora da exposição, e Ana Vasconcelos apresentam o artista, nas suas várias vertentes além da pintura, na escrita, no bailado na coreografia na performance e também do cinema. 

A riqueza e diversidade desta antologia está na organização que privilegia o percurso do artista na sua imensa diversidade independente dos formatos, que importa se são quadros, desenhos corridos sem levantar a caneta do papel ou ilustrações para jornais, morais ou o cartaz de um filme? Ou que foi ele o autor do cartaz e do genérico do filme a “Canção de Lisboa”?

Almada viveu de muitas encomendas e trabalhou uma diversidade de materiais e técnicas desde o óleo à tapeçaria (para o Hotel Ritz), ou aos frescos do edifício de Diário de Notícias agora vendido para outros usos que não os de um jornal.

A obra está espalhada por vários locais da cidade de Lisboa. Por isso continua fora das portas da Gulbenkian com visitas programadas, como será o caso das gares marítimas de Alcântara e Rocha Conde de Óbitos.

"Reparem bem nos meus olhos, não são meus, são os olhos do nosso século!”. Num dos núcleos iniciais da exposição pode ver-se uma série de auto-retratos em vários momentos da vida. Dá o mote do pensamento do modernismo, na capacidade de olhar para o passado e faze-lo projetar no futuro.

O titulo da exposição “Uma Maneira de ser Moderno”, explica-se numa frase do próprio artista: “Isto de ser moderno é como ser elegante: não é uma maneira de vestir, mas sim uma maneira de ser. Ser moderno não é fazer a caligrafia moderna, é ser o legítimo descobridor da novidade.”

Almada vai para além do formalismo e é isso que ainda mantém atual a sua obra. Para justificar as retas as circunferências e os cubos está a matemática, a geometria e a História, não é por acaso que o painel “Começar” incorpora e resume o seu trabalho de várias décadas. Todas as exposições na Gulbenkian começam no Começar e esta mais que todas.

“Encontrar / Sem buscar é coisa difícil / E rara; “ lê-se num dos auto-retratos de 1948, a grafite onde Almada escreve em cima da sua cara, e é provavelmente este o propósito desta exposição para ver várias vezes até 5 de junho e levar para casa no catálogo que perpetuará esta mostra alargada da obra de Almada Negreiros. Depois da que teve lugar há 25 anos no Centro Cultural de Belém.

Para além de algumas peças inéditas, é de salientar no piso mais baixo da exposição, também dedicado ao cinema, as lanternas mágicas, dispostas com luz por trás, o conjuntos de desenhos feitos com o propósito de serem projetados sequencialmente. No dia 23 de março será possível ver uma destas lanternas mágicas, num espetáculo com a Orquestra Gulbenkian que interpretará a suite La tragedia de Doña Ajada, sincronizada com as ilustrações. Como Almada Negreiros idealizou.

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