O corpo. O corpo é um objeto estranho. Tentamos subtraí-lo da mente, mas ele alimenta-nos a mente, as emoções. Um espelho também cria o nosso “Eu”. Politizamo-lo: diferenciamos homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais, transgéneros. Celebramo-lo: atores, modelos, desportistas, artistas. Definimo-lo: alto, baixo, forte, fraco, magro, gordo. Em “Crushing”, o segundo álbum de Julia Jacklin, a palavra “corpo” é utilizada por onze vezes – a mais direta das quais em 'Head Alone', quando a cantautora australiana canta I don't want to be touched all the time / I raised my body up to be mine, o que poderia ser um belíssimo slogan feminista, no meio de uma canção sobre um romance que acabou e não volta.

Mas 'Head Alone' não é a típica canção de amor passado, de tristeza pelo amor passado. Quase que a sentimos a rir, feliz pelo fim da relação – fim esse concretizado por si própria, o que também pode denotar um certo charme feminista. A rir da mesma forma que se ri ao longo da conversa que com ela temos, em Paredes de Coura, durante o festival onde atuou e onde pareceu ter ganho toda uma nova legião de fãs, a juntar aos que já tinha, tal o sucesso do concerto. A rir de uma forma auto-depreciativa, sarcástica, a mesma com a qual nos responde à nossa primeira questão: o que é um corpo? “Uma fonte de dúvida e ansiedade constantes”, chuta.

“É estranho, não é? Passamos muito tempo a pensar sobre isso, a preocuparmo-nos com isso. Quando era miúda, pensava sempre nisso. E, agora, olho para fotografias antigas e penso que estava tudo bem”, continua. “Claro que isso, pouco importa. A minha mãe dizia-me o mesmo. Mas eu não a ouvia... Ainda estou a tentar percebê-lo, acho eu – crescer é bizarro, chegas a um ponto em que pensas 'sinto-me bem com isto, sinto-me confiante, entendo o seu propósito, não me vou penitenciar'. Mas, no dia seguinte, tudo muda”...

Crescer é complicado, as dúvidas ainda mais. E é por isso que existem “canções”, aquelas coisas que ouvimos, lemos e cantamos as letras, imediatamente pensamos 'caramba, isto é tão eu'. Há uma conexão com certas canções que não temos com mais nenhuma, uma forma de filosofia por osmose. Que pode ser sentida pelos seus próprios autores, como no caso de Jacklin, que resumiu “Crushing” a “uma conversa animadora” consigo mesma, “em frente a um espelho”. No entanto, mais que ter escrito estas canções, o que a tornou mais confiante foi tocá-las ao vivo, e já são muitos os locais onde o fez.

“Gosto da enorme força física de as cantar, aos berros, perante pessoas que respondem a elas de forma igualmente física”, nota. Será uma espécie de catarse? “Sim, acho que sim. Mas não muito; ainda passo por muitos dos mesmos problemas sobre os quais canto, mas acho que é bom andar por aí a tocar estas canções, nem que seja para me lembrar de que sou uma pessoa forte que sabe o que está a fazer”. Poderia ter ficado por aí, mas eis novo sarcasmo: “na maioria das vezes”...

Estar à conversa com Julia Jacklin é fascinante precisamente por essa faceta humorística da pessoa que ela é, por oposição à ideia que poderíamos ter sua ao escutar “Crushing”, mas também “Don't Let the Kids Win”, o seu disco de estreia, editado em 2016. A música posiciona-se perto da folk, de travo independente, com uma boa dose de distorção rock à mistura. A temática é pessoal, como se Jacklin estivesse a expor o seu diário perante o universo. Mas depois entendemos: alguém que faz canções assim, misturas quase perfeitas entre o jovial e o casual, só poderia ser mesmo assim “na vida real”.

Nem todos os prémios são ouro

Nascida em Sydney, Jacklin é a primeira pessoa a fazer música na sua família, algo que a início não convenceu. “Agora, já estão convencidos”, conta. E eis mais uma piada: “mais do que eu, até”. A ideia generalizada prevalente até então era a de que um músico não poderia ganhar a vida, bem, a ser músico. Mas, depois, tudo mudou. “A minha mãe foi a todos os meus concertos, desde o primeiro. Ela estava lá. A ser irritante... Até lhe disse para não ir a alguns, porque estava a parecer estranho”, brinca. “Mas ela é maravilhosa. Vinha aos concertos, trazia amigos, e gritava-me para que eu tocasse uma canção que ela quisesse ouvir... E eu só pensava, 'estou a tentar ser profissional!'”. Professora, “adora miúdos, estar junto de gente nova”, e hoje é uma mãe orgulhosa. “Porque não partilho com ela muitas das coisas acerca da realidade deste trabalho”, acrescenta. “Ela pensa que vou fazer isto para sempre e que irei estar financeiramente bem, e eu respondo, 'talvez'...”.

Não é como se a sua família não a apoiasse; simplesmente não tinha sequer uma ideia do que significava ser-se músico. “Era uma carreira estranha. Eu também não pensei que fosse resultar até há dois anos. Ainda estou surpreendida”, confessa. Talvez o estranho tenha dado lugar à excitação aquando do prémio conquistado por Jacklin, em 2017, por “Don't Let the Kids Win”: melhor álbum na categoria Blues e Rock de Raiz, nos prémios da Associação de Editoras Independentes Australianas.

Ou talvez não, porque Jacklin nos responde de forma semi-cáustica: “Nem me lembro de ganhar isso. E é irritante ter sido colocada nessa categoria! É como se não soubessem onde me pôr...”. Pois, a malta ouve umas guitarras e imediatamente pensa: é blues! “Tudo o que não seja pop é incluído nessa categoria. E é humilhante, porque há músicos que de facto tocam esses géneros que sinto que pensaram 'porque raio é que a Julia Jacklin ganhou isto?'. Nem sequer promovi esses prémios, porque me senti envergonhada. E seria insincero, da minha parte, dizer que significam o que seja”.

É como os Grammys, portanto, que a cada ano que passa parecem tornar-se cada vez mais obsoletos, tamanha é a distância que vai entre aquilo que é realmente essencial escutar e aquilo que a grande indústria musical quer que vença. “São uma treta. Fui nomeada para um prémio ARIA [Associação da Indústria Fonográfica Australiana], uma espécie de Grammy australiano. Só penso: esta não é a minha gente. Não é a minha cena musical. Sinto que muitas destas coisas operam a um nível diferente daquilo que realmente se passa na música australiana. Há exceções, mas acho que prémios destes só fazem a tua mãe feliz... Se eu me entusiasmasse com estas coisas, acho que estaria a seguir o caminho errado nesta indústria. Entusiasmo-me mais se algum dos meus colegas, que respeite, venha a um concerto meu ou goste da minha música. É aí que penso que, de facto, algo estou a fazer bem”.

Mas que não se pense que Julia Jacklin é daquelas pessoas que abomina a música pop, ou que acha que o que ocupa os primeiros lugares das tabelas de vendas e as nomeações para tudo quanto é prémio não seja autêntico. É que a australiana guarda, como uma das suas maiores influências, uma tal de... Britney Spears. Não resistimos a perguntar-lhe se 'Toxic', uma das maiores canções pop do século XXI, é de facto uma das maiores canções pop do século XXI. “Está no top 10, certamente”, confirma. E 'Crazy In Love', que muitos consideram a melhor canção deste século? “É boa, mas a 'Toxic' é melhor. Sinto que a 'Crazy In Love' só é boa por causa daquela secção de sopro [e começa a cantá-la], o que é fixe. Mas a 'Toxic' aguenta-se bem, mesmo que tocava apenas à guitarra”.

Tivéssemos nós incluído também o século XX e saberíamos de antemão que a resposta de Jacklin seria 'Suzanne', de Leonard Cohen. “É a melhor canção de sempre, para sempre. Desde o início da história ao fim da civilização”, diz-nos, sem medos. “A 'Shivers', dos Boys Next Door [a primeira banda de Nick Cave], estaria no top 5. E a 'I Wanna Dance With Somebody' estaria no top 10. Toda a gente adora essa canção, é tão alegre!”.

Da alegria à tristeza, a que sentiu pela morte de Doris Day, em maio passado. A atriz e cantora norte-americana também foi uma das suas influências, ao crescer. “Fiquei mesmo triste. Não super triste, porque não a conhecia, e ela já tinha alguma idade e viveu uma vida longa. Mas... quando pessoas como ela morrem, parece que se fecha uma porta para a tua infância. Aquele tempo precioso na tua vida distancia-se cada vez mais. A tua memória vai ficando mais fraca. A Doris Day foi muito importante para mim porque foi com ela que comecei a cantar”, revela. “As primeiras canções que cantei, eram canções dela. Eu, a minha irmã e a minha mãe cantávamo-las no carro. A primeira coisa que me lembro de cantar é a 'Perhaps Perhaps Perhaps', com seis anos. Acho que aprendi a fazê-lo com as canções dela”.

Do quarto para uma editora, sob uma indústria em mudança

Julia Jacklin já conta com dois discos, uma série de singles e até um EP, “Santafel”, editado de forma independente em 2014 – o seu primeiro registo discográfico. “Foi gravado na casa que partilhava com um amigo meu, o Ryan. Acho que nem sequer lhe paguei. Mesmo que lhe tivesse pago, não seria muito...”, graceja. “Gravámo-lo no quarto dele, de forma muito DIY [do it yourself, ou faça-você-mesmo]. Foi giro – fi-lo porque é isso que fazes quando tens canções, fazes um EP. O tema-título ganhou uma vida à parte, tocou várias vezes em pequenas rádios, o que deu início a tudo o resto. O EP não era nada de especial – cançõezinhas folk sobre amor. Acho que não soa lá muito bem... À altura, pensava que gravar tinha apenas que ver com gravar um take de voz perfeito, em vez de emotivo, mas as pessoas gostaram”.

Tanto gostaram que, hoje em dia, Julia Jacklin é uma das grandes artistas a ter em conta na Polyvinyl, editora que também é “casa” para nomes tão díspares quanto os Japandroids, Of Montreal, American Football ou Deerhoof. A australiana já se insurgiu por diversas vezes contra a indústria musical – disse, em entrevista ao The Guardian, que os artistas são tratados “como bebés”, sendo deixados de lado de toda e qualquer discussão sobre o lado financeiro da música. A democratização da música, através da facilidade que hoje em dia os músicos sentem em criar e divulgar o seu trabalho, poderá levar a uma mudança de mentalidades?

“Certamente que sim”, confirma. “Acho que estamos a atravessar um período muito estranho dentro da indústria. Com o streaming, toda a estrutura da indústria musical se alterou, mas os elementos principais ainda lá estão”. Não entrou em colapso, portanto, como algumas vozes mais ou menos apocalípticas têm dito. “Há muita gente que diz que as editoras já não contam para nada, e essa não é a minha realidade”, afirma. “Se eu não tivesse uma editora, não estaria aqui a falar contigo. Não tenho dinheiro suficiente para fazer o que já fiz, e as editoras ajudaram-me, a 100%, a chegar onde cheguei. Estou-lhes muito grata, e às pessoas com quem trabalho”.

“Estão todos muito confusos. Agora é possível teres mais controlo sobre a tua música: podes fazê-la no teu quarto, promovê-la no teu quarto, tratar de tudo no teu quarto... mas isso não significa que seja mais fácil”, continua. “Agora que há muito mais música a ser consumida, é fácil perdermo-nos”. As editoras podem, assim sendo, ter um papel curatorial? “Sim, julgo que sim. Podem criar uma comunidade à tua volta, pôr-te um bocadinho à parte, algo assim. De certeza que há pessoas muito fixes que terão uma opinião diferente, mas isto é o que conheço, e comigo tem resultado”.

O resultado está aí à vista, mesmo que a vida de um músico, especialmente um com uma carreira tão curta, possa ser complicada. Jacklin afirmou anteriormente, ao website Jezebel, sentir que, hoje em dia, um músico tem de ser algo mais que um simples compositor ou intérprete; tem de estar ativo nas redes sociais, cumprimentar os fãs após os concertos, dedicar-se inteiramente ao “outro”.

Não será, por isso, de todo estranho que tenham existido momentos em que a australiana tenha querido mandar alguém pastar, para utilizar uma expressão simpática. “Todos os dias sinto essa vontade”, ri, antes de responder de forma mais séria. “Tenho muita sorte, e estou numa posição privilegiada. Com isso vem uma responsabilidade tremenda”, tal como com Peter Parker. “De momento, não me quero limitar a cantar canções: sinto que tenho algo a dizer, e acho que o meu disco novo diz algumas coisas que as pessoas querem discutir para lá da composição ou da produção musicais. Mas é duro. Não só sentes a pressão de ter de estar consciente daquilo que se passa politicamente no mundo, como ainda tens de ser fixe e divertido nas redes sociais”...

Se há muita coisa que Julia Jacklin gostava de dizer ao mundo, há algo que ela gostava de dizer a uma pessoa em particular. Novamente: Britney Spears, que é também a pessoa com quem mais gostaria de colaborar. “Sei que esta é uma resposta muito básica [não é nada, contrapomos], e sei que toda a gente quer trabalhar com ela. Mas, se assim é, porque é que as canções dela já não são assim tão boas? Sempre senti isto com as estrelas pop: se estão no pico de forma, têm o Max Martin e toda essa gente a compor-lhes grandes êxitos. Mal chegam aos 30, já não têm o apoio dessas equipas... E os álbuns são só para encher chouriços. Sinto que ela precisa de uma boa equipa à volta dela, que queira fazer cenas a sério”. Jacklin ainda não enviou um e-mail à cantora norte-americana, mas não resistiu a interpelá-la no Instagram. “Sabia que ela não iria ver a minha mensagem. Deve ter uma série de fãs loucos a fazê-lo...”. Talvez, por um acaso cósmico, Spears leia isto – e decida, de imediato, fazer uma chamada para a Austrália.

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